Publicado 03/02/2026 04:08

Venezuela vira a página da era Maduro com Delcy Rodríguez encarregada das exigências de Trump

CARACAS, 15 de janeiro de 2026 — A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, caminha antes de apresentar seu relatório anual ao legislativo em nome do órgão administrativo em Caracas, Venezuela, em 15 de janeiro de 2026.
Europa Press/Contacto/Marco Salgado

MADRID 3 fev. (EUROPA PRESS) -

Um mês após a derrubada do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no ataque militar dos Estados Unidos a Caracas, as estruturas do Estado bolivariano permanecem intactas e assim permanecerão por um período indefinido, desde que a escolhida pela administração americana para conduzir a transição, Delcy Rodríguez, cumpra sua tarefa e continue defendendo os interesses de Washington enquanto busca sair vitoriosa de um processo que vem se gestando há anos.

A operação para tirar Maduro do poder, alegando suas ligações com o narcotráfico, não buscava uma mudança de regime, mas de liderança, uma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se encarregou de assumir em uma histórica coletiva de imprensa na qual prometeu controlar o país para atender aos interesses petrolíferos dos Estados Unidos, que passam por gerenciar esses recursos em seu benefício e cortar o fornecimento a rivais como Cuba, Rússia ou China. No entanto, o controle de um país com a correlação de forças e as complexidades sociais e territoriais da Venezuela é uma tarefa complicada para Washington, e muito cara economicamente, que ainda carrega o fantasma das ocupações fracassadas do Iraque e do Afeganistão.

Para o professor de Ciências Políticas e pesquisador do think tank Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona (CIDOB), Salvador Martí i Puig, na verdade Trump não está interessado em dirigir toda a Venezuela a partir do Salão Oval, como seria de se esperar, mas sim em controlar a faixa petrolífera do Orinoco, a maior reserva mundial de petróleo pesado, e as áreas onde ele é refinado.

“A única coisa que lhes interessa são os 3% do território nacional onde há jazidas de petróleo, reservas e toda a infraestrutura de refino. O resto não lhes importa (...) além disso, eles não vão administrá-lo diretamente, mas, no caso, por meio de empresas petrolíferas privadas norte-americanas”, aponta o pesquisador em entrevista à Europa Press.

Esta aposta dos Estados Unidos no antigo modelo pós-colonial da economia de enclave, que historicamente demonstrou que apenas gera benefícios para o país, “é um salto mortal para o século XIX”, adverte Martí i Puig.

Se Trump confia nas empresas americanas para controlar esta pequena, mas rica em recursos, parte do país, o resto do território, com suas próprias complexidades e dinâmicas, ele deixa nas mãos de um aparato do chavismo que soube se adaptar, quase sem levantar a voz, às novas dinâmicas de Washington.

Sob a ameaça contínua de uma nova intervenção americana, Delcy Rodríguez é a escolhida pela administração Trump para estabilizar a situação, enquanto a oposicionista María Corina Machado foi ignorada, apesar de suas tentativas desesperadas de se dar bem com Trump, a quem ela até entregou o Prêmio Nobel da Paz.

Assim sendo, a ex-vice-presidente e braço direito de Maduro tem a difícil tarefa de atender às demandas que chegam da Casa Branca e, ao mesmo tempo, defender o legado do falecido presidente Hugo Chávez, que em 1999 rompeu a tradicional aliança de Caracas com Washington com a nacionalização de setores estratégicos.

Agora é Trump quem atua como árbitro nessa correlação de forças, na qual também deve ser incluído o peso das redes do crime organizado. “Não tem tanto a ver com sensibilidades ideológicas, mas com equilíbrios de poder e de poder em Caracas, mas também de poder no território”, aponta o pesquisador do CIDOB. TRANSIÇÃO E ABERTURA ECONÔMICA

Martí i Puig acredita que “com pouco esforço” no período de transição haverá um certo crescimento econômico porque, após mais de duas décadas em que a Venezuela “foi o país com o pior desempenho econômico do mundo sem guerra declarada”, “não pode piorar”, embora considere que tudo dependerá do grau de controle e coesão que a presidente encarregada possa exercer.

Bastaria “um pouco de investimento” e “que os Estados Unidos levantassem os bloqueios” para deixar para trás “uma situação bastante miserável”, afirma o pesquisador em declarações à Europa Press, indicando que a reabertura política não dependerá apenas dos passos dados por Rodríguez, mas também “da solidez e da capacidade da oposição”.

“O jogo político começa não só por tirar as pessoas das prisões, mas também por mudar (...) a lei eleitoral e, acima de tudo, por pensar que tipo de eleições e que partidos e lideranças serão legalizados (...) Será muito importante a capacidade que a oposição tiver para negociar e pressionar por uma abertura institucional e política (...) É um processo que não será rápido”, reflete.

No entanto, a fragmentação da oposição continua sendo um obstáculo para qualquer eventual liderança do país. “É complicado porque está fragmentada, muito orientada para a direita e com múltiplas lideranças. Machado perdeu parte do capital social”, avalia o especialista, que indica que “o jogo de dar o Nobel queimou” sua figura política.

Por sua vez, Delcy Rodríguez, que lidava com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, enquanto Machado recebia Trump na Casa Branca, à qual acedeu pela porta das traseiras, teve de jogar com as cartas marcadas que os Estados Unidos lhe ofereciam para levar adiante os primeiros acordos petrolíferos.

Em um gesto histórico de abertura, a sucessora de Maduro anunciou uma anistia geral e conseguiu o apoio de outros atores do chavismo, como as Forças Armadas, fundamentais para poder conduzir uma transição que leva “muitos anos” para se concretizar em troca da “imunidade” de algumas das figuras do chavismo.

“Só pode haver transição se houver acordos de imunidade para determinados cargos (...) provavelmente há quadros da hierarquia que querem virar a página e mudar sua posição no tabuleiro. Eles não querem chegar ao fim porque isso pode significar derrota, prisão e justiça (...) Delcy tem interesse em manter isso e depois se aposentar sem ir para a prisão e, como ela, haverá mais cem cargos”, teoriza o especialista do CIDOB um mês após a operação militar que abriu uma nova era na Venezuela.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

Contador

Contenido patrocinado