MADRID 21 ago. (EUROPA PRESS) -
O Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) liderou um estudo que demonstrou que a variabilidade climática no Oceano Atlântico pode ajudar a antecipar, com meses de antecedência, surtos de leishmaniose cutânea no norte da África.
Para realizar esse trabalho, esse centro, apoiado pela Fundação “la Caixa”, contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto Pasteur da Tunísia, Marrocos e França. Assim, essa abordagem analítica foi explorada com o objetivo de aprimorar a previsão de surtos dessa doença na referida região geográfica.
Mais especificamente, os cientistas identificaram como determinados padrões climáticos que afetam a precipitação na região influenciam, em diferentes escalas temporais, a transmissão dessa doença e permitem o desenvolvimento de um sistema de previsão sazonal com até um ano de antecedência. Tudo isso em relação a uma doença parasitária transmitida pela picada de flebotomíneos, pequenos insetos conhecidos popularmente como moscas da areia.
“Embora geralmente não seja fatal, a doença causa lesões e úlceras na pele que podem persistir por meses ou anos e deixar cicatrizes permanentes, com um impacto físico, psicológico e social significativo”, afirmaram, em seguida, informaram que “a cada ano, estima-se cerca de um milhão de novos casos no mundo, especialmente na bacia do Mediterrâneo, no Oriente Médio, na Ásia Central e na América”.
Conforme expuseram, até agora, os sistemas de alerta precoce para doenças sensíveis ao clima haviam sido desenvolvidos principalmente em regiões tropicais, onde fenômenos como o “El Niño” permitem fazer previsões nos meses anteriores. “Nas regiões temperadas, por outro lado, a atmosfera era considerada muito menos previsível, o que dificultava o desenvolvimento de ferramentas semelhantes para doenças transmitidas por vetores”, declararam.
Diante disso, este estudo publicado na revista especializada “Science Advances” demonstrou que essa limitação pode ser superada incorporando-se dois grandes padrões de variabilidade climática do Atlântico, que são a “Oscilação do Atlântico Norte” (NAO, na sigla em inglês) e a “Variabilidade Multidecadal do Atlântico” (AMV, também na sigla em inglês).
INFLUÊNCIA DAS PRECIPITAÇÕES
A esse respeito, eles indicaram que a primeira é um fenômeno atmosférico que modula os ventos sobre esse oceano e influencia as precipitações de inverno na Europa e no norte da África, enquanto a AMV descreve mudanças lentas na temperatura superficial do Atlântico que se desenvolvem ao longo de anos ou até mesmo décadas. “Os resultados do estudo mostram que a interação entre ambos os padrões modula as precipitações no norte da África e, de forma indireta, condiciona a evolução da leishmaniose”, esclareceram.
Dessa forma, eles apontaram que as variações da temperatura superficial do Atlântico modificam a circulação atmosférica e os ventos que transportam umidade para o norte da África, condicionando as precipitações. Com isso, essas chuvas regulam o crescimento da vegetação nos ecossistemas desérticos e, consequentemente, as populações de roedores que atuam como reservatórios do parasita.
“Como a leishmaniose cutânea depende estreitamente dessa cadeia de processos, seu surgimento também pode ser previsto a partir dos sinais climáticos do Atlântico”, resumiram, enquanto o pesquisador do ISGlobal e primeiro autor deste estudo, Adrià San-José, afirmou que “o deserto atua como um filtro natural que revela a memória climática do Atlântico”.
Na opinião deste último, e “por ser influenciado por menos processos climáticos”, o deserto “permite isolar com muito mais clareza o sinal do Atlântico nos padrões de chuva”. “Graças a isso, identificamos uma região onde a chuva é surpreendentemente previsível — os desertos da Tunísia e de Marrocos — e demonstramos que essa previsibilidade também se aplica a uma doença infecciosa”, destacou.
Com todas essas informações, os cientistas desenvolveram um modelo dinâmico que reproduz a transmissão do parasita entre humanos, flebotomos e roedores. Esse modelo integra a temperatura e a precipitação locais com dados provenientes da atmosfera e do Atlântico, sendo assim capaz de antecipar o surgimento e a intensidade dos surtos de Leishmania major e Leishmania tropica no Marrocos e na Tunísia com até 12 meses de antecedência.
“Acreditava-se que esse tipo de previsão só fosse possível nos trópicos”, insistiu, por sua vez, o pesquisador do ICREA no ISGlobal e autor sênior deste trabalho, Xavier Rodó, que acrescentou que “o surpreendente” é que foi encontrada “uma fonte de previsibilidade também em uma região temperada” e que ela foi incorporada a um modelo que está pronto para entrar em operação.
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