MADRID 23 jul. (EUROPA PRESS) -
O ensaio clínico "BOHEMIA", o maior estudo realizado até hoje sobre o uso da ivermectina contra a malária, demonstrou que sua administração, combinada com o uso de mosquiteiros, pode reduzir em 26% as novas infecções em crianças.
O projeto foi coordenado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), um centro apoiado pela Fundação La Caixa, em colaboração com o Centro de Pesquisa em Saúde da Manhiça (CISM) e o Programa de Pesquisa KEMRI-Wellcome Trust. Os resultados foram publicados no The New England Journal of Medicine.
A malária continua sendo um grande desafio global para a saúde, com 263 milhões de casos e 597.000 mortes registrados em 2023. As estratégias atuais de controle de vetores, como os mosquiteiros tratados com inseticida de longa duração e a pulverização residual interna, estão perdendo eficácia devido à crescente resistência dos mosquitos aos inseticidas, bem como às mudanças no comportamento dos mosquitos.
Os pesquisadores destacam que os mosquitos tendem a picar ao ar livre e durante o amanhecer ou o anoitecer, momentos em que as pessoas não estão protegidas por essas medidas. "Isso destaca a necessidade urgente de soluções inovadoras para conter a transmissão de doenças", acrescentam.
IVERMECTINA CONTRA A MALÁRIA
A ivermectina, um medicamento tradicionalmente usado para tratar doenças tropicais negligenciadas, como a oncocercose (cegueira dos rios) e a filariose linfática (elefantíase), demonstrou reduzir a transmissão da malária matando os mosquitos que se alimentam das pessoas tratadas.
De acordo com o estudo, diante da crescente resistência aos inseticidas convencionais, a ivermectina oferece uma abordagem alternativa promissora, especialmente em regiões onde os métodos usuais não são mais eficazes, afirmam os pesquisadores.
O projeto "BOHEMIA", financiado pela Unitaid, realizou dois testes de administração de medicamentos em massa em áreas com alta incidência de malária: o condado de Kwale (Quênia) e o distrito de Mopeia (Moçambique). Ambos os ensaios avaliaram a segurança e a eficácia de uma única dose mensal de ivermectina (400 mcg/kg) administrada por três meses consecutivos no início da estação chuvosa. No Quênia, a intervenção concentrou-se em crianças de 5 a 15 anos de idade, enquanto em Moçambique o alvo foram crianças com menos de cinco anos de idade.
RESULTADOS PROMISSORES NO QUÊNIA
No condado de Kwale, as crianças que receberam ivermectina tiveram uma redução de 26% na incidência de malária em comparação com aquelas que receberam albendazol, o medicamento de controle usado no estudo. O estudo incluiu mais de 20.000 participantes e administrou mais de 56.000 tratamentos, demonstrando que a ivermectina pode reduzir significativamente as taxas de infecção, especialmente entre aqueles que vivem mais longe das bordas dos grupos ou em áreas onde a distribuição de medicamentos foi mais eficaz.
Além disso, o perfil de segurança da ivermectina foi favorável, sem efeitos adversos graves relacionados ao medicamento e com apenas efeitos colaterais leves e transitórios, conhecidos por seu uso em campanhas anteriores contra doenças negligenciadas.
"Esses resultados são muito animadores", diz Carlos Chaccour, co-investigador principal do 'BOHEMIA' e pesquisador da ISGlobal na época do estudo. "A ivermectina demonstrou grande potencial para reduzir a transmissão da malária e poderia complementar as medidas de controle existentes. Com mais pesquisas, ela pode se tornar uma ferramenta eficaz de controle e até mesmo contribuir para a eliminação da malária", acrescenta Chaccour, atualmente no Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Navarra.
Em contrapartida, a implementação do teste no distrito rural de Mopeia (Moçambique) foi gravemente afetada pelo ciclone Gombe (2022) e por um surto de cólera subsequente, que interrompeu significativamente as operações.
NOVAS ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO
Os pesquisadores observam que esse estudo faz parte de um esforço global maior para avaliar o potencial da ivermectina no controle da malária. Os resultados foram analisados pelo Grupo Consultivo de Controle de Vetores da OMS, que concluiu que o estudo havia demonstrado impacto e recomendou mais pesquisas. As descobertas também foram compartilhadas com as autoridades nacionais de saúde para possível inclusão nos programas de controle da malária.
"Essa pesquisa tem o potencial de transformar o futuro da prevenção da malária, especialmente em regiões endêmicas onde as ferramentas atuais estão perdendo a eficácia", conclui Regina Rabinovich, pesquisadora principal do BOHEMIA e diretora da Iniciativa de Eliminação da Malária da ISGlobal.
"Graças ao seu mecanismo de ação inovador e ao perfil de segurança amplamente testado, a ivermectina pode se tornar uma opção complementar poderosa que aproveita um medicamento seguro e bem conhecido para reforçar as estratégias de controle existentes", conclui.
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