Publicado 07/04/2026 13:36

A Universidade de Córdoba descobre uma técnica avançada de pintura mural nunca antes vista na Hispânia romana

Os pesquisadores Daniel Cosano e José Rafael Ruiz.
UCO

CÓRDOBA 7 abr. (EUROPA PRESS) -

Um estudo multidisciplinar no qual participou a Universidade de Córdoba (UCO) descobriu uma técnica avançada de pintura mural nunca antes vista na Hispânia romana, revelando que os artesãos possuíam um alto grau de conhecimento sobre os materiais dos quais extraíam os pigmentos e sobre os resultados obtidos ao misturá-los.

Segundo informa a UCO em um comunicado, os pintores romanos que, no final do século I, se encarregaram de decorar as paredes da domus de Salvio, na atual Cartagena, não podiam imaginar que sua “expertise” técnica continuaria sendo tema de discussão 20 séculos depois.

A análise das pinturas murais encontradas em um dos cômodos da casa, um dos mais bem conservados da antiga Carthago Nova, revelou que aqueles artesãos possuíam um alto grau de conhecimento sobre os materiais dos quais extraíam os pigmentos e sobre os resultados que obtinham ao misturá-los.

Especificamente, uma “receita” avançada que lhes permitia, ao mesmo tempo, reduzir custos e garantir a durabilidade da pintura, utilizando para isso uma mistura de pigmentos que incorporava um dos minerais mais valiosos da época: o caro cinábrio, também conhecido como “ouro vermelho”.

A essa conclusão chegou um estudo multidisciplinar no qual participaram pesquisadores do Departamento de Pré-história, Arqueologia, História Antiga, História Medieval e Ciências e Técnicas Historiográficas da Universidade de Múrcia e do Departamento de Química Orgânica do Instituto Químico para a Energia e o Meio Ambiente (Iquema) da Universidade de Córdoba.

Por meio de diferentes técnicas de análise, os vestígios encontrados na “domus” revelaram uma combinação de pigmentos nunca antes vista na Hispânia e que tem apenas um precedente conhecido em Éfeso, na Turquia.

É o que explicam os pesquisadores da UCO José Rafael Ruiz e Daniel Cosano, que assinam na revista “Heritage Science”, juntamente com os arqueólogos Gonzalo Castillo, Alicia Fernández e José Miguel Noguera, uma pesquisa multidisciplinar em linha com outros trabalhos, como aqueles que lançaram luz sobre o vinho mais antigo do mundo ou os aromas com os quais se perfumavam no Império Romano.

Nesta ocasião, os laboratórios do Iquema e do grupo FQM-346 permitiram analisar, por difração de raios X, a composição das argamassas dessa antiga casa, bem como os restos dos diferentes pigmentos, utilizando uma técnica que permite identificar os compostos químicos por meio de sua interação com a luz: a espectroscopia Raman.

O resultado confirma uma teoria já existente: que a “domus” de Salvio pertencia a uma família abastada, capaz de arcar com o uso de materiais caros para construir e decorar sua residência. Mas, a partir da análise dos pigmentos, a equipe obteve outra hipótese complementar, não relacionada ao poder aquisitivo de seus habitantes, mas à capacidade técnica dos artesãos.

TÉCNICAS PARA PROTEGER A COR

Carbonato de cálcio para o pigmento branco, carvão vegetal para o preto, goethita para o amarelo e glauconita para o verde com traços de azul egípcio, o primeiro pigmento sintético e símbolo de status. Para o vermelho, uma mistura de cinábrio e óxido de ferro, da qual também existem precedentes documentais.

“O óxido de ferro era um material barato, de uso comum nas oficinas para criar os tons avermelhados. O cinábrio era mais caro e devia ser fornecido pelo cliente”, explicam os pesquisadores, que afirmam que era comum misturar esses dois elementos para reduzir custos sem perder a intensidade cromática do cinábrio, que, dessa forma, demorava mais para se esgotar.

No entanto, o que era verdadeiramente chamativo e inovador não era a mistura em si, mas a maneira como ela havia sido aplicada nas paredes da “domus” de Salvio.

Ao analisar a amostra por meio de microscopia eletrônica de varredura nos laboratórios do SCAI, os pesquisadores descobriram que a mistura que conferia a intensa cor vermelha à pintura mural não havia sido aplicada diretamente sobre a parede, mas que esta havia sido previamente “preparada” com uma camada amarela de goethita, o que não é por acaso.

“O cinábrio tende a escurecer ao entrar em contato com a luz, a umidade e em ambientes cáusticos”, explicam os responsáveis pelo estudo, convencidos de que os artesãos utilizaram a camada de goethita para proteger a mistura da parede de cal e do óxido de ferro, possivelmente como estabilizador. Dessa forma, conseguiram que o caro cinábrio não apenas rendesse mais, mas também mantivesse sua aparência por mais tempo.

O uso dessa técnica denota um alto grau de conhecimento por parte dos artesãos, que teriam estudado os materiais, os efeitos decorrentes de sua combinação e o uso das diferentes técnicas. Os pesquisadores apontam para a existência de livros de receitas e oficinas onde esse conhecimento era gerado e compartilhado, não apenas em Cartago Nova, mas também além das fronteiras da Hispânia.

Dessa forma, a análise arqueométrica e a cooperação entre áreas de conhecimento a priori muito distintas, como a Química e a Arqueologia, permitem estudar os vestígios da Antiguidade sob novas perspectivas e saber mais sobre o passado, comparando as informações obtidas de fontes clássicas, como Vitrúvio ou Plínio, o Velho, com a realidade arqueológica.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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