MADRID 4 set. (EUROPA PRESS) -
A Universidade de Cambridge anunciou nesta sexta-feira o início de uma investigação independente após a morte do professor britânico Jason Arday, que renunciou ao cargo de professor de Sociologia da Educação na prestigiada instituição após uma campanha de ódio nas redes sociais por suposto plágio.
“O Conselho Universitário tomou a decisão necessária de iniciar uma revisão independente que examinará o processo de tomada de decisões e as ações da universidade, com foco na identificação de deficiências e áreas que requerem melhorias”, anunciou a vice-reitora, a professora Deborah Prentice, em um vídeo.
Nesse sentido, ela explicou que, em uma primeira fase — que terá duração de três meses —, o foco será nas “intervenções e medidas de proteção” existentes com as quais a universidade conta diante de casos como o de Arday, que abalou a comunidade acadêmica britânica e europeia.
“A revisão levantará questões difíceis e formulará recomendações sobre o que poderíamos ter feito melhor. Solicitamos a Nazer Afzal, ex-procurador-geral da Coroa para o noroeste da Inglaterra e atual reitor da Universidade de Manchester, que lidere esse trabalho”, detalhou ela.
Além disso, a segunda fase incluirá uma revisão dos processos e práticas utilizados dentro da universidade. “Será examinado um contexto mais amplo da passagem do professor Arday por Cambridge e serão abordadas questões como contratação, orientação e apoio ao corpo docente de alto nível, bem como a forma como respondemos às acusações de má conduta em pesquisas”, explicou.
Para a segunda etapa, também será nomeado um responsável externo e um painel de especialistas, que deverá concluir um relatório sobre essas questões “no prazo de seis meses”. “Assim que o relatório de cada fase da revisão for apresentado, divulgaremos publicamente um resumo das conclusões, recomendações e medidas que adotaremos”, indicou.
Prentice afirmou que “embora nada possa reverter a perda” de Arday, essa investigação ajudará a “compreender melhor o que aconteceu” depois que o professor foi encontrado morto em sua residência em Battersea, no sul de Londres.
“Estou ciente de que o falecimento do professor Arday afetou profundamente os funcionários e alunos negros, bem como nossa comunidade neurodivergente. Além disso, houve um aumento inaceitável de ataques racistas, abusivos e cheios de ódio contra nossos funcionários e alunos em fóruns online e redes sociais. Isso é deplorável e condeno toda e qualquer forma desse tipo de abuso”, concluiu.
SOBRE O CASO DE JASON ARDAY
Arday, de 41 anos, renunciou ao cargo de professor de Sociologia da Educação em Cambridge após as acusações de plágio contra ele. Sua nomeação como o professor negro mais jovem da história de Cambridge, aos 37 anos em 2023, foi aclamada na época como um marco progressista.
Tanto ele quanto sua família denunciaram ter sido vítimas de uma intensa campanha de assédio da mídia depois que outro acadêmico, Nathan Cofnas, denunciou em seu blog que boa parte de sua tese de doutorado continha trechos copiados de outros autores, após ter sido analisada por um software de detecção de plágio.
Cofnas, identificado como “realista racial” e norte-americano, publicou um ensaio em seu blog no qual afirmava que, se apenas a meritocracia prevalecesse, as pessoas negras “desapareceriam de quase todos os cargos de destaque fora do âmbito esportivo e do entretenimento”. Em julho de 2024, o Emmanuel College — que faz parte de Cambridge — o expulsou, alegando que seus escritos entravam em conflito com seus valores de diversidade.
Arday apontou “motivações raciais” por trás da campanha de difamação e afirmou que havia se tornado o “alvo das críticas” devido às políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) nas universidades, já que uma revisão realizada pela Universidade John Moores de Liverpool, onde concluiu seu doutorado, confirmou a decisão de conceder-lhe o título.
Cofnas também questionou Arday — diagnosticado com autismo quando criança e que chegou a carregar a tocha olímpica nos Jogos de Londres em 2012 — por informações de sua biografia pessoal relacionadas a uma arrecadação de fundos para obras de caridade e suas conquistas em maratonas.
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