É uma das cinco peças conhecidas até agora com decoração do Muro de Adriano e a única com inscrições de seus fortes orientais SORIA 23 abr. (EUROPA PRESS) -
Uma equipe com participação do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) e do Museu Arqueológico Nacional publica na revista Britannia o estudo e a caracterização daquilo que batizaram de “copo de Berlanga”, um excepcional copo romano encontrado por acaso em Berlanga del Duero, Soria.
A peça, fabricada no século II d.C. na Britânia (atual Reino Unido), é a única das cinco “copas da Muralha de Adriano” conhecidas — uma rara série de vasos esmaltados ligados a essa fronteira — que apresenta inscrições dos fortes orientais. Os pesquisadores interpretam a peça como uma lembrança trazida para a Península Ibérica por um militar celtíbero após servir na fronteira mais remota do Império Romano.
Embora a maioria das taças dessa série tenha sido encontrada em território britânico, a “taça de Berlanga” é a segunda dessas peças encontradas na Península Ibérica — após a descoberta de um fragmento no século XIX, atualmente conservado em Londres — e será a única a ser exibida na Espanha. Especificamente, a taça poderá ser visitada no Museu Numantino de Soria, onde está passando por trabalhos de restauração antes de ser exibida ao público.
Além disso, a prospecção arqueológica realizada na área onde a taça foi encontrada revelou a existência de um pequeno conjunto de edifícios, vestígios de uma vila romana ativa entre os séculos I e IV d.C.
Os trabalhos — que combinaram prospecção superficial, radar de penetração no solo e fotografias aéreas históricas — foram realizados na área conhecida como La Cerrada del Arroyo, a apenas 100 metros do centro de Berlanga del Duero. A campanha, que conta com financiamento da Diputación de Soria e da prefeitura de Berlanga del Duero, continuará em 2026.
LEMBRANÇA DA FRONTEIRA
A taça foi encontrada fragmentada, deformada e incompleta, mas conserva cerca de 80-90% do objeto, o que permitiu sua reconstrução virtual. Trata-se de uma tigela hemisférica de bronze com decoração esmaltada em vermelho, verde, turquesa e azul, cuja decoração representa a Muralha de Adriano por meio de um friso pontilhado de torres. Este motivo a conecta a uma série muito rara de vasos esmaltados ligados à Muralha de Adriano, dos quais se conhecem apenas outros quatro exemplares em todo o mundo (além de dois fragmentos).
“A qualidade artesanal e os materiais utilizados nessas taças indicam que eram objetos de prestígio, muito provavelmente fabricados sob encomenda para presentear ou condecorar a elite militar que havia servido na Muralha de Adriano, a fronteira mais distante do império”, explica Jesús García Sánchez, pesquisador do Instituto de Arqueologia de Mérida, centro misto do CSIC e da Junta de Extremadura. “De fato, a maioria dos pesquisadores — e nós também — concordamos em interpretá-las como uma lembrança ou souvenir da Muralha”, acrescenta.
Seguindo essa ideia, a ‘taça de Berlanga’ teria viajado da Britânia junto com seu dono, um ex-soldado que voltava para sua terra natal: a Celtibéria, uma região que abrangia grande parte da atual província de Soria, além de áreas de La Rioja, Zaragoza, Guadalajara, Teruel e Cuenca.
“Sabemos que os romanos incorporavam ao seu exército tropas dos territórios recentemente conquistados e que uma unidade celtibera, a Cohors I Celtiberorum, serviu no Muro de Adriano”, acrescenta Roberto de Pablo, primeiro autor do estudo.
AS COPOS DO MURO DE ADRIANO
A Muralha de Adriano é uma das fronteiras mais conhecidas do mundo romano, uma construção defensiva de 117 quilômetros que ligava as atuais cidades inglesas de Carlisle e Newcastle. Construído e fortificado pelo imperador Adriano entre os anos 122 e 128 d.C., protegia a província romana da Britânia das incursões dos pictos, um povo indígena do norte das Ilhas Britânicas.
“A taça de Berlanga é excepcional não apenas por ser uma das ‘taças da Muralha’ mais bem conservadas, mas porque é a única que possui inscrições relativas aos acampamentos militares da zona oriental: Cilurnum, Onno, Vindobala e Condercum”, destaca Susana De Luis Mariño, do Museu Arqueológico Nacional.
Outra curiosidade dessa taça é que a disposição dos nomes sugere que a lista seja lida de oeste para leste, como se a taça representasse a muralha “vista de dentro”, nas palavras dos pesquisadores.
A primeira dessas taças da Muralha foi encontrada há três séculos, em 1725, em uma pequena vila da Inglaterra. Desde então, foram localizadas outras duas taças na Inglaterra e uma na França, além de dois fragmentos.
MADE IN BRITANIA
Para confirmar a origem e a data de fabricação da taça, a equipe realizou uma análise de sua composição por meio de espectrometria de fluorescência de raios X e análise de isótopos. Os resultados revelam que a taça é feita de uma liga quaternária, ou seja, uma liga de bronze com zinco e chumbo; e que o material utilizado provém das minas romanas do norte da Grã-Bretanha.
“Essa análise nos permitiu comprovar a autenticidade da peça e determinar que as minas de onde provém o metal utilizado foram, provavelmente, as do País de Gales ou de Durham”, explica Ignacio Montero Ruiz, do Instituto de História do CSIC e responsável pela análise material.
Além disso, ao combinar as análises técnicas com as evidências historiográficas sobre os acampamentos retratados nela, a equipe de pesquisa conseguiu datar a peça com bastante precisão: entre os anos 124 e 150 d.C.
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