Publicado 10/07/2026 09:31

Uma plataforma prevê como a capacidade do planeta de produzir alimentos mudará até o final do século

Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima
CSIC

MADRID 10 jul. (EUROPA PRESS) -

Pesquisadores do Instituto de Análise Econômica (IAE) do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) desenvolveram uma plataforma que permite prever como as mudanças climáticas prejudicam o potencial agrícola em regiões de todo o planeta, com uma resolução de dez por dez quilômetros.

Batizada de CADI (Climate-Driven Agricultural Decline Index), a plataforma oferece estimativas da queda na capacidade máxima de produção agrícola atribuível às mudanças climáticas e apresenta projeções em diferentes cenários climáticos previstos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), partindo do pressuposto de que nenhuma medida de adaptação seja implementada. As previsões do CADI servem para auxiliar os responsáveis políticos e da administração na tomada de decisões e na elaboração de medidas de adaptação.

O projeto foi coordenado por Laura Mayoral e Hannes Mueller, pesquisadores do IAE-CSIC e associados à Barcelona School of Economics. Juntamente com eles, participaram do desenvolvimento a organização europeia Centre for Economic Policy Research (CEPR); o Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO) do governo britânico; e a iniciativa Reducing Conflict and Improving Performance in the Economy (CEPR-ReCIPE).

O CADI compara os rendimentos alcançáveis (produtividade biofísica máxima de um local) sob as condições climáticas de diferentes períodos de 20 anos, com uma resolução em que cada célula mínima tem aproximadamente 10x10 quilômetros. Para cada célula, a produtividade é calculada mantendo-se, em todos os períodos e cenários, a mesma composição de culturas observada em 2020, de modo que as diferenças estimadas reflitam exclusivamente as mudanças nas condições climáticas.

Para estabelecer uma linha de base com a qual comparar as projeções futuras, o CADI utiliza dados históricos de produtividade agrícola e dados climáticos históricos da FAO e do programa de observação da Terra Copérnico, respectivamente.

Assim, obtêm-se as mudanças ocorridas nos rendimentos alcançáveis entre o período de 1981-2000 e o de 2001-2020. Isso permite quantificar as diferenças entre ambos os períodos (ou as mudanças observadas). O ADI utiliza esses dados observados de 2001 a 2020 e os recalcula de acordo com os diversos cenários climáticos do IPCC até o ano de 2100, sempre partindo do pressuposto de que não há nenhuma adaptação e que as mesmas culturas e práticas são mantidas.

AS REGIÕES TROPICAIS, AS MAIS AFETADAS

A pesquisa mostra que as mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos para centenas de milhões de pessoas. Cerca de 16% (uma em cada seis) das terras cultiváveis do mundo já perderam mais de 10% de sua produtividade potencial, de acordo com as mudanças observadas entre os períodos de 1980 a 2000 e de 2000 a 2020.

Os efeitos sobre a produtividade agrícola são muito desiguais: as regiões tropicais são as mais afetadas pelas perdas, enquanto algumas áreas de latitudes mais altas saem ganhando, já que podem ver sua produtividade potencial aumentar.

Na Europa, o norte do continente e as zonas de maior altitude — Escandinávia, Finlândia, Escócia ou os Alpes — ganham potencial agrícola, enquanto o sul, incluindo a Península Ibérica, o perde. Na Espanha, explica Hannes Muller, pesquisador do IAE-CSIC, “o padrão mundial se repete em pequena escala: a costa cantábrica, a Galícia e os Pirineus ganham produtividade, enquanto grande parte do interior e do centro-leste da península perde, incluindo áreas onde se concentram perdas severas.”

Os pesquisadores esclarecem “que os ganhos mais extremos nas latitudes altas partem de níveis de produção muito baixos: são enormes em porcentagem, mas modestos [se medidos] em calorias absolutas”.

Atualmente, cerca de 15% da população mundial já vive em áreas que perderam pelo menos 5% do potencial agrícola. Estima-se que, para o período de 2041 a 2060, e em um cenário de aquecimento médio-alto, com um aumento global aproximado da temperatura de 2,1 ºC, quase 49% da população mundial possa estar vivendo em áreas agrícolas com potencial em declínio.

O modelo prevê que um pequeno número de áreas críticas concentrará uma parcela desproporcional das perdas globais: apenas 5% das terras agrícolas em áreas tropicais já somam até 35% de todas as perdas. Em meados do século, 25% dos países concentrarão entre 85% e 90% das perdas totais em nível mundial.

Essa desigualdade não se dá apenas entre países, mas também entre diferentes regiões de um mesmo país. Conforme explicam os pesquisadores, “isso representa um desafio mesmo onde a produtividade aumenta: os ganhos deslocam o peso da agricultura para novas áreas e obrigam à reatribuição de terras, água e investimentos dentro das fronteiras nacionais”. Essas “tensões distributivas” — quem perde, quem ganha e quem arca com o custo da readaptação — podem “alimentar conflitos não apenas entre países, mas também no interior de cada um deles”.

Não menos importante é o fato de que os países que menos contribuíram para as emissões acumuladas de CO2 estão entre os mais vulneráveis, uma situação que se agrava com o tempo.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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