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MADRID 20 ago. (EUROPA PRESS) -
Uma nova meta-análise realizada por uma equipe de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW, na sigla em inglês), na Austrália, associou o consumo de cannabis a um início mais precoce da psicose.
Publicado na revista especializada “Biological Psychiatry”, este estudo mostra, especificamente, que as pessoas que usam essa droga desenvolvem essa condição médica, em média, dois anos e meio antes dos não usuários, o que se acentua com a idade. Segundo os autores, chega a haver uma diferença “de mais de seis anos entre consumidores e não consumidores de cannabis que desenvolvem psicose aos 30 anos”.
Após destacar que a psicose é um sintoma da esquizofrenia e de outras doenças mentais, e que pode incluir delírios, alucinações, pensamento desorganizado e comportamento desordenado, os pesquisadores explicaram que, “geralmente, ela surge no final da adolescência ou no início da idade adulta, mas pode se manifestar em uma ampla faixa etária”.
Para chegar à principal conclusão desta pesquisa, eles analisaram 149 estudos que envolveram mais de 71.000 pessoas, os quais foram realizados principalmente na Europa, na América do Norte e na Austrália desde 2011. A maioria concentrou-se em pessoas com esquizofrenia.
Assim, conforme observado, a psicose, quando se desenvolveu, ocorreu em uma idade média entre 20 e 24 anos, tendo-se constatado que os usuários de cannabis tiveram seu primeiro episódio, em média, 1,6 ano antes do que os não usuários. “A diferença aumentou para 4,43 anos nos estudos em que a psicose se desenvolveu entre os 25 e os 29 anos, e para 6,3 anos entre os maiores de 30 anos”, destacaram.
Esses dados mostram que o consumo de cannabis está relacionado ao surgimento mais precoce da psicose e que seu efeito parece se acumular com o tempo, indicou o pesquisador principal deste trabalho e professor adjunto da Faculdade de Medicina da UNSW, o psiquiatra Matthew Large, que acrescentou que este estudo se concentrou principalmente nos riscos do consumo de cannabis durante a adolescência, “quando o cérebro ainda está em desenvolvimento”.
EFEITO ACUMULATIVO
No entanto, “o risco não desaparece ao se completar 20 anos”, continuou ele, acrescentando que o que foi observado “sugere um efeito cumulativo, em que o dano aumenta com o tempo, de forma semelhante ao álcool ou à nicotina”. “Pode haver um limite biológico, no sentido de que só é possível antecipar o aparecimento dos sintomas até certo ponto”, explicou.
Nesse sentido, ele afirmou que “nos grupos mais jovens, podem predominar fatores de risco para psicose, sejam eles genéticos ou de outro tipo relacionados ao desenvolvimento, o que dificulta a detecção de qualquer alteração relacionada à cannabis”. No entanto, essa análise não comprova que a cannabis cause psicose nem que a desencadeie, pois, “para isso, seria necessária uma pesquisa experimental que seria pouco ética”, sustentou ele.
De qualquer forma, “a consistência das evidências, em particular o forte efeito em idosos que provavelmente vêm consumindo cannabis há mais tempo, corrobora a teoria de que a cannabis desempenha um papel causal no momento do surgimento da psicose e, possivelmente, no surgimento de alguns casos entre pessoas que, de outra forma, não teriam desenvolvido psicose”, esclareceu.
Por sua vez, a integrante da Faculdade de Ciências Biomédicas da UNSW e autora principal desta metanálise, a doutora Carly Stevens, sustentou que o que foi descoberto coloca “em dúvida” a suposição de que nada acontecerá se se esperar para fumar maconha “até os vinte e poucos anos”. “Simplesmente não é assim”, ressaltou
“Tem-se dado muita ênfase para que os adolescentes não fumem cannabis, o que é importante, mas precisamos ampliar as advertências para todas as pessoas”, enfatizou, enquanto Large lembrou que a psicose “é uma doença grave que te arranca da realidade”. “Se conseguirmos adiar a psicose, mesmo que seja por apenas alguns anos, as pessoas terão mais chances de alcançar marcos cruciais em sua educação e formação, e de desenvolver redes de apoio sólidas que possam protegê-las contra o deterioramento psicossocial”, explicou.
Nesse contexto, o pesquisador mencionado destacou que atingir esse objetivo “além disso, reduziria a carga sobre o sistema de saúde, já que até 3% dos gastos relacionados à saúde nos países desenvolvidos são atribuídos a transtornos psicóticos”.
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