MADRID 8 abr. (EUROPA PRESS) -
Um novo exame de sangue, combinado com um questionário padronizado e inteligência artificial, demonstrou potencial para identificar a hanseníase em estágios iniciais, o que poderia transformar o diagnóstico da doença, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (Brasil) e publicada na revista 'BMC Infectious Diseases'.
Assim, pesquisadores da Universidade de São Paulo avaliaram o novo teste no Brasil utilizando amostras de sangue coletadas durante uma pesquisa populacional sobre a COVID-19. O método demonstrou potencial para identificar a doença em estágios iniciais, quando os sintomas são sutis e os exames laboratoriais tradicionais costumam falhar.
O novo método de diagnóstico foi avaliado em um estudo realizado por pesquisadores do Departamento de Medicina Clínica, Bioquímica, Imunologia e Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com o apoio da FAPESP.
“A hanseníase é uma doença antiga, mas ainda enfrenta desafios próprios de problemas de saúde que não recebem a atenção prioritária necessária. Ainda há uma falta de tecnologias laboratoriais sensíveis para o diagnóstico precoce, e muitos profissionais de saúde não estão adequadamente preparados para reconhecer os estágios iniciais da doença”, explicou Filipe Lima, cientista biomédico e um dos autores do estudo.
Além disso, o tratamento padrão permaneceu praticamente o mesmo por mais de quatro décadas, o que contribuiu para casos de falha terapêutica e resistência bacteriana. Para abordar esse problema, os pesquisadores se propuseram a identificar novos biomarcadores e testes para o diagnóstico precoce. Para isso, utilizaram amostras de sangue coletadas durante um estudo sorológico realizado em Ribeirão Preto durante a pandemia de COVID-19. O objetivo era utilizar esse material para identificar pessoas que pudessem ter sido expostas ao bacilo da lepra e detectar novos casos com maior antecedência.
TRIAGEM
O estudo combinou duas ferramentas de detecção. A primeira foi um questionário clínico denominado Questionário de Suspeita de Hanseníase (LSQ). O LSQ consiste em 14 perguntas focadas principalmente em sinais e sintomas neurológicos. O questionário foi aprimorado com um sistema de inteligência artificial chamado 'MaLeSQs'.
A segunda ferramenta foi um exame de sangue que detecta anticorpos contra o antígeno Mce1A. Esse antígeno é uma proteína-chave do 'Mycobacterium leprae' que facilita a invasão e a sobrevivência da bactéria nas células humanas. Atualmente, os exames de sangue utilizam o antígeno PGL-I, que também facilita a entrada da bactéria no nervo, mas é tecnicamente menos sensível.
“Ao contrário do teste tradicional, que avalia a presença de um único tipo de anticorpo, o novo teste analisa três classes diferentes de anticorpos (IgA, IgM e IgG), o que aumenta a sensibilidade e ajuda a diferenciar entre a exposição ao bacilo, a infecção ativa e o contato prévio”, explica Lima.
Segundo o pesquisador, o teste tradicional geralmente só dá um resultado positivo nas formas mais graves da doença, quando o bacilo já se proliferou e há lesões presentes. “O Mce1A permite identificar o contato com o bacilo e a doença ativa em um estágio muito mais precoce”, acrescentou.
CONVITE, QUESTIONÁRIO E TESTE
Para obter os resultados, os pesquisadores convidaram aproximadamente 700 pessoas da pesquisa populacional sobre a COVID-19 a participar do estudo sobre a hanseníase. Dessas, 224 aceitaram participar e preencheram o questionário digital, e 195 tiveram amostras de sangue analisadas. Todos os participantes foram convidados a se submeter a uma avaliação clínica presencial com médicos especialistas, uma etapa crucial para a confirmação do diagnóstico.
Dessas pessoas, 37 compareceram à consulta. A análise comparativa dos dados do questionário, dos exames laboratoriais e da avaliação clínica revelou resultados surpreendentes: foram diagnosticados 12 novos casos de hanseníase, o que equivale a aproximadamente um terço dos avaliados. “Trata-se de pessoas que não apresentavam sintomas evidentes, não suspeitavam que estavam doentes e foram diagnosticadas graças ao projeto”, destaca Lima.
Segundo os pesquisadores, o teste de anticorpos IgM para o antígeno Mce1A foi o mais eficaz entre os exames laboratoriais, identificando dois terços dos casos recém-confirmados. A combinação da análise laboratorial com a ferramenta de inteligência artificial alcançou uma sensibilidade de 100%, detectando com sucesso todos os casos suspeitos de hanseníase que foram confirmados durante a consulta presencial.
“O exame de sangue por si só não confirma um diagnóstico de hanseníase, mas é uma ferramenta importante para identificar quem realmente precisa ser avaliado por um especialista”, esclareceu o pesquisador. Segundo Lima, o teste pode fortalecer a triagem diagnóstica no sistema de saúde pública.
Quanto ao custo, a diferença em relação aos testes existentes é mínima. “Do ponto de vista do laboratório, são técnicas muito semelhantes: de baixo custo e fáceis de realizar. Qualquer laboratório clínico tem capacidade técnica para realizá-las. Na prática, a única diferença é a molécula que é analisada”, especificou.
Além de facilitar o diagnóstico precoce da hanseníase, o estudo utilizou mapas georreferenciados para analisar a distribuição espacial dos casos identificados. O mapeamento revelou um padrão difuso de exposição ao bacilo. “Isso se explica pela impossibilidade de avaliar clinicamente todos os participantes. No entanto, nossos resultados mostram que a hanseníase se distribui aleatoriamente por toda a cidade. Não existe uma região específica com maior concentração. Atualmente, observamos que a doença é diagnosticada em pacientes com diferentes perfis socioeconômicos”, concluiu Lima.
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