MADRID 8 jul. (EUROPA PRESS) -
Um estudo internacional, fruto da colaboração entre o Centro Nacional de Pesquisas Cardiovasculares Carlos III (CNIC) e a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), identificou um mecanismo fundamental que regula a forma como o organismo utiliza a gordura armazenada para produzir energia.
Os resultados, publicados na revista “The EMBO Journal”, mostram que o cálcio presente no interior das mitocôndrias atua como um sinal que determina se essas organelas permanecem unidas ou se separam das gotículas lipídicas, onde as células armazenam a gordura.
As mitocôndrias são as estruturas celulares responsáveis por gerar a maior parte da energia necessária para o funcionamento dos tecidos. No tecido adiposo marrom, um tipo de gordura especializado na produção de calor e no gasto energético, uma parte das mitocôndrias permanece fisicamente associada às gotículas lipídicas, formando as chamadas mitocôndrias peridropletais. Essas mitocôndrias desempenham um papel essencial na gestão das reservas energéticas celulares.
A pesquisa, cuja primeira autora é Rebeca Acín-Pérez, pesquisadora do CNIC e do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede sobre Fragilidade e Envelhecimento Saudável, mostra que o aumento dos níveis de cálcio no interior das mitocôndrias provoca alterações em sua morfologia e favorece sua separação das gotículas lipídicas. “Esse processo é essencial para que as enzimas responsáveis pela degradação das gorduras, conhecidas como lipases, possam acessar os lipídios armazenados e convertê-los em energia”, afirma Acín-Pérez.
Os autores observaram ainda que essa separação das mitocôndrias ocorre antes do início da lipólise, atuando como uma espécie de interruptor molecular que dá início à mobilização das reservas de gordura.
O estudo também identifica as proteínas que regulam esse mecanismo. Especificamente, o transportador mitocondrial de cálcio NCLX controla a saída de cálcio das mitocôndrias. Quando a atividade do NCLX diminui, aumenta o acúmulo de cálcio mitocondrial, o que favorece a separação das mitocôndrias das gotículas lipídicas e aumenta a utilização da gordura como fonte de energia. Por outro lado, quando o NCLX está ativo, as mitocôndrias tendem a permanecer associadas às reservas lipídicas.
Os pesquisadores também identificaram um papel relevante para a fosfodiesterase PDE2A, uma proteína que regula indiretamente esse sistema ao modular os níveis intracelulares de cálcio.
Além de descrever esse mecanismo biológico, o trabalho demonstra que sua manipulação farmacológica pode ter importantes consequências metabólicas. Em modelos animais de obesidade, a inibição da PDE2A aumentou a associação entre as mitocôndrias e as gotículas lipídicas, reduziu a degradação da gordura e favoreceu o uso da glicose como combustível energético. Essa mudança metabólica foi associada a uma melhora no controle energético e a um aumento do gasto metabólico.
Em conjunto, os resultados revelam que a interação entre as mitocôndrias e as gotículas lipídicas é um processo dinâmico e finamente regulado por sinais intracelulares, como o cálcio. “Compreender como essa relação é controlada oferece uma nova perspectiva sobre os mecanismos que regulam o metabolismo energético e abre possíveis caminhos para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas contra a obesidade e outras doenças metabólicas”, destacam os autores.
O trabalho dá continuidade à colaboração científica entre o grupo liderado por José Antonio Enríquez, chefe do Grupo de Genética Funcional do Sistema de Fosforilação Oxidativa no CNIC, e a equipe dirigida por Orian Shirihai na Faculdade de Medicina David Geffen da UCLA (EUA), uma aliança que tem contribuído nos últimos anos para ampliar o conhecimento sobre a função mitocondrial e seu papel na regulação metabólica.
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