MADRID 8 jun. (EUROPA PRESS) -
O pesquisador do Departamento de Biologia Celular e Histologia da Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madri, José Ángel Morales, explicou que, quando as pessoas se reúnem para observar um eclipse, não estão apenas olhando para o céu, mas também ativando alguns dos circuitos mais profundos e antigos do cérebro humano relacionados à fascinação, uma mistura de curiosidade, surpresa e emoção que, segundo ele, não é um simples fenômeno cultural, mas um processo biológico com base científica estudada na neurociência.
Assim, Morales indica que um dos modelos neurobiológicos mais aceitos descreve a fascinação como uma resposta a uma lacuna de informação. “Percebemos que há algo relevante que desconhecemos, e isso gera uma espécie de tensão cognitiva que queremos resolver”, assinalou Morales. Esse marco teórico, proposto pelo psicólogo George Loewenstein e respaldado por estudos neurocientíficos posteriores, sugere que a busca pelo conhecimento atua como um potente motor interno.
“Um eclipse se encaixa perfeitamente nesse mecanismo. Sabemos o suficiente para antecipá-lo, mas sua raridade, complexidade e espetacularidade geram incerteza. É difícil não olhar”, acrescenta o especialista.
Nesse sentido, ele ressalta que, quando algo fascina, como o momento em que a Lua começa a cobrir o Sol, regiões como o córtex cingulado anterior e a ínsula anterior são ativadas, pois estão envolvidas na detecção do inesperado e na direcionamento da atenção para ele.
Paralelamente, diminui a atividade da chamada rede neuronal padrão, associada a processos autorreferenciais como a ruminação ou o pensamento centrado em si mesmo. Essa mudança no equilíbrio cerebral ajuda a explicar uma sensação comum durante experiências intensas: a de “esquecer-se de si mesmo” e concentrar-se completamente no que está a acontecer.
UM SISTEMA QUE RECOMPENSA PELA APRENDIZAGEM
Segundo o pesquisador, à medida que o eclipse avança, outro mecanismo-chave entra em ação: o sistema de recompensa do cérebro. Regiões como o estriado e o núcleo accumbens liberam dopamina, um neurotransmissor fundamental para a motivação e o prazer. “Aqui ocorre algo interessante: o cérebro não responde apenas a recompensas materiais, mas também à informação. Em outras palavras, aprender ou resolver um enigma é intrinsecamente gratificante”, destaca Morales.
Além disso, o fascínio não se limita à emoção do momento. Durante estados de grande curiosidade, o hipocampo, uma estrutura essencial para a memória, é ativado em coordenação com o sistema dopaminérgico. Morales lembra que diversos estudos demonstraram que isso melhora a consolidação da memória: “Lembramo-nos com clareza de onde estávamos quando vimos o eclipse. O cérebro marca esse momento como relevante”.
Essas experiências intensas também podem ser acompanhadas por respostas fisiológicas, como arrepios ou pele de galinha, resultado da interação entre o sistema emocional e o sistema nervoso autônomo; os mesmos mecanismos que são ativados quando se ouve música ou se contempla uma obra de arte.
UMA FASCINAÇÃO COM INTENSIDADE DIFERENTE
No entanto, o especialista afirma que nem todos experimentam essa fascinação com a mesma intensidade. Estudos baseados em neuroimagem indicam que algumas pessoas, devido à sua organização cerebral, são menos propensas a esse tipo de experiência.
Nesse contexto, Morales sustenta que, sob determinadas condições, como a depressão ou a doença de Parkinson, nas quais a sensibilidade à recompensa costuma ser menor, a capacidade de experimentar interesse ou admiração pode ser atenuada. Isso poderia estar relacionado a disfunções nos circuitos de recompensa (estriado) e na integração emocional (núcleo accumbens).
De fato, o pesquisador aponta que pessoas com alta necessidade de fechamento cognitivo (preferência por respostas definitivas e aversão à ambiguidade) experimentam menos espanto. “Um eclipse, com seu caráter efêmero e imprevisível, poderia gerar mais desconforto do que fascínio nessas pessoas”, acrescenta.
“Longe de ser um simples luxo emocional, o fascínio, como gatilho da curiosidade, pode ser entendido como um mecanismo adaptativo que nos impulsiona a explorar, aprender e compreender o ambiente. Dessa perspectiva, um eclipse não é apenas um espetáculo visual, mas um estímulo que ativa um sistema projetado para transformar a surpresa em conhecimento”, conclui Morales.
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