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Os avanços da Rússia no campo de batalha e uma Europa em segundo plano prejudicam a posição de Kiev MADRID 24 fev. (EUROPA PRESS) -
A Ucrânia vive nesta terça-feira o quarto aniversário da invasão em grande escala lançada pelo presidente russo, Vladimir Putin, com um cenário pouco promissor em que a Rússia ganha pouco a pouco terreno no leste do país devido à falta de apoio militar da administração de Donald Trump — que deixou essa responsabilidade nas mãos dos parceiros europeus — e negociações tripartidas com Moscou e Washington que levam Kiev a aceitar concessões complicadas para pôr fim à guerra. “Nos últimos 12 meses, só vimos um agravamento da situação. Vimos avanços russos nas linhas de frente e um aumento de 31% nas baixas e feridos entre a população civil”, afirma Olena Prokopenko, analista do German Marshall Fund, em declarações à Europa Press. Prokopenko destaca que 2025 se tornou o ano mais letal para a Ucrânia desde 2014, quando a Rússia ocupou a península da Crimeia e começou a guerra no leste da Ucrânia. Jack Watling, pesquisador do Real Instituto de Serviços Unidos (RUSI), think tank britânico focado em segurança e defesa, concorda com essa análise. Em uma publicação, ele destaca que, durante o último ano, os avanços russos foram possíveis graças à “crescente letalidade do fogo russo e à diminuição do número de tropas ucranianas”, o que permitiu avanços “persistentes” da Rússia que, dessa forma, conseguem “minar as posições defensivas da Ucrânia”.
No plano militar, Kiev foi obrigada a realizar melhorias tecnológicas nas unidades ucranianas, mas “se a Rússia continuar a obter avanços constantes ou mesmo acelerados, o Kremlin manterá o esforço”, afirma. “Se o progresso desacelerar significativamente, a percepção de Putin sobre suas perspectivas pode mudar à medida que os riscos políticos internos aumentam”, explica o analista do centro britânico.
2026, O ANO DA PAZ NA UCRÂNIA?
A Ucrânia enfrenta um cenário difícil ao entrar no quinto ano de conflito, uma vez que à deterioração na frente se soma o fato de que a estratégia ocidental em relação a Moscou “fracassou estrondosamente”, lamenta Prokopenko, que insiste que apenas “a pressão econômica e militar sobre a Rússia podem levar à resolução desta guerra e à paz”.
“Vimos que a Rússia negou constantemente a possibilidade de um cessar-fogo, mesmo que fosse de curto prazo”, acrescenta, insistindo que o papel de Trump é fundamental para entender o agravamento da perspectiva ucraniana. “Ele não foi capaz de convencer a Rússia de que um cessar-fogo é o primeiro passo para uma paz duradoura”, indica a analista sobre o líder norte-americano, apontando que Washington insiste em conversações nas quais o Kremlin não está interessado. “A Rússia não só não está interessada em conversações sérias e reais, como nem sequer está verdadeiramente na mesa de negociações. As rodadas que vimos foram puramente técnicas e são mais relevantes para uma etapa posterior, quando for tomada uma decisão política; mas não há nenhuma decisão política”, reflete Prokopenko sobre alguns contatos que, de fato, deram à Rússia uma margem de vários meses para continuar com seus planos militares de “conquistar a Ucrânia como um todo”.
Nesse sentido, a analista do German Marshal Fund destaca à Europa Press que o papel dos Estados Unidos neste último ano “foi muito negativo” para os interesses de Kiev, tanto no que diz respeito à cessação da ajuda no campo de batalha quanto no âmbito político. “Agora Putin se sente muito mais encorajado a não cooperar nas negociações”, alerta, insistindo que o líder russo “não vê nenhuma consequência política e, até recentemente, também não via nenhuma consequência econômica” em manter sua “roteiro”.
Watling, por sua vez, reitera que Moscou mantém uma “postura maximalista” em relação às suas ambições no país vizinho. “Eles acreditam que podem sustentar a guerra até 2027 e percebem o processo de negociações em curso como um veículo para introduzir uma cunha na aliança transatlântica”, adverte.
Assim, ele considera que, enquanto a atenção internacional se concentra nas negociações “impostas às partes” pelos Estados Unidos, a própria retórica de Washington contra a Europa e seus passos para se retirar dos compromissos de segurança com os aliados tornam as opções para a Ucrânia difíceis em qualquer cenário de negociação.
Trump coloca o foco em que Kiev aceite ceder territórios na região de Donbas em troca de apoio militar pós-guerra, ao mesmo tempo em que questiona a confiança em Washington como ator comprometido com a segurança europeia. “O resultado é que qualquer colapso de um cessar-fogo durante sua implementação deixaria a Ucrânia em uma posição militar muito mais enfraquecida. Em resumo, a oferta dos Estados Unidos é ruim”, observa. A posição russa, por sua vez, é que, enquanto vir margem para ganhar no campo de batalha o que está em jogo na mesa de diálogo, “manterá as negociações em andamento, mas, em essência, prolongará o processo sem avanços reais”, adverte Watling.
Para Prokopenko, aceitar essas concessões e renunciar ao Donbass “daria à Rússia um trampolim para conquistar mais território ucraniano”. “Para a Ucrânia, não faz sentido, nem militar nem politicamente, aceitar essas concessões se não vemos seriedade por parte dos Estados Unidos”, argumenta.
O DIFÍCIL PAPEL DA EUROPA Esta situação deixa a Europa fora de jogo. Apesar de continuar a ser o único apoio firme da Ucrânia no plano militar e o maior apoio financeiro de Kiev, é sistematicamente relegada para segundo plano nas conversações entre ucranianos, russos e americanos para pôr fim ao conflito.
“A Europa está se rearmando, mas isso leva tempo, por isso muitos Estados europeus consideram que um cessar-fogo repentino em termos desfavoráveis exporia o continente a graves riscos”, adverte o analista do RUSI, que sustenta que os Estados Unidos e a Europa têm interesses diametralmente opostos no contexto ucraniano.
Washington busca um cessar-fogo rápido e restabelecer a cooperação econômica com a Rússia, enquanto a Europa está em processo de reforçar sua defesa e mantém uma série de sanções contra o Kremlin, com quem cortou todas as relações econômicas. Em sua opinião, a chave está na capacidade da Rússia de manter a máquina de guerra, enquanto Kiev pode infligir danos em ataques de longo alcance. “A economia russa pode sustentar a guerra, mas à medida que as reservas diminuem e a dívida cresce, ela também se torna mais vulnerável a perturbações. A questão é se a Europa está disposta a exercer essa pressão”, explica.
Na mesma linha, Prokopenko considera que a economia é a questão fundamental que pode fazer descarrilar os planos da Rússia, ao mesmo tempo que a Europa pode tomar medidas como fornecer armamento de longo alcance a Kiev. Neste sentido, pede que se avance na canalização das sanções para a defesa e a resiliência económica da Ucrânia, a fim de enviar uma “mensagem política forte” por parte da Europa de que tem cartas para jogar. “A Europa paga tudo o que está relacionado com a defesa da Ucrânia neste momento e concedeu à Ucrânia um empréstimo de 90 mil milhões de euros em dezembro, pelo que a Europa já está a pagar a conta e os Estados Unidos têm de fazer mais da sua parte”, indica.
De qualquer forma, ele menciona que a Europa pode reforçar sua imagem de independência no apoio a Kiev usando os ativos congelados, uma das medidas que a Casa Branca não apoia, mas que os líderes europeus têm em suas mãos. “Mais uma vez, a Europa conta com um conjunto sólido de ferramentas que deveria usar”, ressalta.
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