GRANADA 7 set. (EUROPA PRESS) -
Um estudo realizado nas cavernas de Malalmuerzo, Carigüela e Majolicas (Granada) revela que o canibalismo ibérico durante o Neolítico não foi uma prática uniforme nem ocorreu em um único momento, mas sim episódios recorrentes, porém separados no tempo, associados a diferentes contextos sociais e motivações.
Mais de 50 anos depois que essas cavernas se tornaram referências para o estudo do canibalismo pré-histórico, uma equipe internacional analisou cerca de mil ossos desses sítios por meio de datação por radiocarbono e novas técnicas de análise tafonômica (o estudo de todos os processos que afetam os restos ósseos desde a morte até sua descoberta). Os resultados permitiram reconstruir, com uma precisão sem precedentes, quando e como esses episódios ocorreram.
A equipe estudou cerca de mil restos humanos provenientes das três cavernas para apurar se eles foram manipulados intencionalmente. Os restos ósseos foram examinados ao microscópio para detectar marcas de corte, fraturas, golpes e marcas de dentes, e distinguir entre fraturas ocorridas no osso fresco e aquelas que ocorreram algum tempo após a morte.
Além disso, combinaram estatística e aprendizado de máquina para distinguir se essas fraturas foram acidentais ou causadas por ação humana. Também estimaram a idade dos indivíduos encontrados (com base nos dentes e no grau de desenvolvimento esquelético) e realizaram datações diretas por radiocarbono.
Os resultados mostram que, além das semelhanças no tratamento dos cadáveres (marcas de corte, indícios compatíveis com fervura ou marcas de dentes), cada sítio arqueológico conta uma história diferente: Malalmuerzo apresenta indícios de violência, Carigüela é um exemplo da recorrência dessas práticas (além de apresentar um tratamento muito particular dos crânios) e Majolicas parece ter sido palco de práticas rituais.
“Durante décadas, houve uma tendência de interpretar o canibalismo pré-histórico como um comportamento único. Nosso trabalho mostra que não é possível falar de um único 'canibalismo neolítico', mas que, por trás de evidências arqueológicas semelhantes, podem existir realidades sociais muito diferentes”, explica Antonio Rodríguez-Hidalgo, pesquisador Ramón y Cajal do Instituto de Arqueologia de Mérida. “Somente integrando a cronologia, o contexto arqueológico e as informações preservadas nos ossos é que podemos nos aproximar de seu significado”, acrescenta.
VIOLÊNCIA COLETIVA
A caverna de Malalmuerzo apresenta um dos resultados mais notáveis: um possível episódio de violência coletiva ocorrido por volta do ano 5.000 a.C. “Em Malalmuerzo, encontramos fraturas que indicam uma morte violenta. Além disso, as análises indicam a presença de restos mortais de todas as faixas etárias, o que sugeriria um evento violento no qual todos ou quase todos os indivíduos de um grupo teriam sido assassinados e, posteriormente, consumidos”, detalha Rodríguez-Hidalgo.
Por sua vez, as datações de Carigüela apontam para vários episódios ocorridos em diferentes momentos do Neolítico. Nessa caverna encontra-se uma das descobertas mais singulares: dois crânios modificados para servir como recipientes cranianos (‘crânios-copo’).
O episódio mais recente entre os documentados (por volta de 3800 a. a.C.) corresponde à caverna de Majolicas, onde as práticas de canibalismo não parecem estar relacionadas a episódios de violência e na qual foram encontrados ossos tingidos de vermelho, provavelmente com cinábrio, um mineral raro e de grande importância simbólica, associado a práticas rituais e funerárias.
UM PADRÃO TEMPORAL COMUM A TODA A EUROPA
Os resultados situam os sítios arqueológicos de Granada dentro de um panorama europeu mais amplo: “As evidências conhecidas sugerem que o canibalismo não foi um fenômeno contínuo durante o Neolítico europeu, mas que se concentra em determinados momentos e regiões; um padrão temporal comum a toda a Europa e no qual também se enquadram os episódios dessas três cavernas”, explica o pesquisador Francesc Marginedas, também autor do artigo e pesquisador da Universidade de Viena.
Mais especificamente, as práticas antropofágicas do Neolítico europeu concentram-se em três períodos: final do sexto milênio a.C., meados do quinto milênio a.C. e final do terceiro milênio, já na Idade do Bronze. Os pesquisadores desconhecem a razão última dessa coincidência temporal.
“Não podemos afirmar que todos os episódios tenham uma causa comum, mas sim que, ao longo de todo o Neolítico, de forma descontínua, porém recorrente, existe um cenário de conflito e/ou manipulação de restos mortais que, segundo intuímos, reflete mudanças na organização social, nas relações intergrupais e na relação com a morte e a violência”, detalha Palmira Saladié, pesquisadora do IPHES-CERCA e autora principal do estudo.
A pesquisa destaca o valor científico das coleções arqueológicas históricas e demonstra que a aplicação de novas metodologias a materiais escavados há décadas permite obter informações inéditas. O trabalho tem, além disso, uma dimensão singular: entre seus autores está o pesquisador que divulgou esses conjuntos na década de 70, Miguel C. Botella, na época diretor do Laboratório de Arqueologia Forense da Universidade de Granada e atualmente professor emérito da mesma instituição.
“Foram seus trabalhos que contribuíram para transformar Malalmuerzo, Carigüela e Majolicas em referências para o estudo do canibalismo na pré-história recente europeia”, acrescenta Marginedas. Meio século depois, Botella participa da reavaliação desses mesmos vestígios por meio de novas abordagens, entre elas datações diretas por radiocarbono e novos procedimentos de análise tafonômica.
“Foi um privilégio trabalhar ao lado do professor Miguel C. Botella na revisão de conjuntos que ele próprio transformou em referências há mais de cinquenta anos. Retomar esses materiais com novas ferramentas nos permitiu levantar questões que, na época, eram impossíveis de responder”, destaca Saladié.
A pesquisa, publicada no ‘Journal of Archaeological Science’, é uma colaboração internacional co-liderada por pesquisadores do Instituto de Arqueologia de Mérida (IAM) — centro conjunto do CSIC e da Junta da Extremadura — e do Institut Català de Paleoecologia Humana i Evolució Social (IPHES-CERCA).
Também participaram do trabalho a Universitat Rovira i Virgili (URV), a Universidade de Viena (Áustria), a Fundação Museu do Homem Americano (Brasil), o Conicet-Instituto Nacional de Antropologia e Pensamento Latino-Americano (Argentina) e a Universidade de Granada. A pesquisa contou com financiamento do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades e da Fundação Palarq.
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