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Os profissionais de saúde só conseguem acompanhar um em cada cinco contatos identificados
MADRID, 23 maio (EUROPA PRESS) -
O surto de ebola declarado este mês no norte da República Democrática do Congo (RDC) está, neste momento, fora de controle, pois está se propagando mais rapidamente do que as equipes de resposta conseguem rastrear no leste do país, onde os profissionais de saúde mal conseguiram acompanhar um em cada cinco contatos identificados em um único dia, em meio a extrema violência e constantes êxodos populacionais.
De acordo com o Ministério da Saúde congolês, até 21 de maio, as autoridades da República Democrática do Congo relataram 83 infecções confirmadas, 746 casos suspeitos e 1.603 contatos identificados. No entanto, de acordo com dados do Ministério publicados na sexta-feira, os profissionais de saúde só conseguiram acompanhar 342 contatos naquele dia, aproximadamente 21% do total sob vigilância, informa a Bloomberg. Os últimos números atualizados apontam já para quase 180 mortes suspeitas.
A comparação das estimativas sugere que a resposta está ficando para trás em relação ao surto, apesar de governos e agências internacionais estarem intensificando as medidas de emergência depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a epidemia como uma emergência de saúde pública de importância internacional em 17 de maio.
O surto se espalhou por três províncias, incluindo Kivu do Sul, onde as autoridades confirmaram um caso esta semana perto de Bukavu, a capital provincial, controlada pelos rebeldes do Movimento 23 de Março (M23). Uganda confirmou ainda neste sábado três casos adicionais de ebola ligados a infecções anteriores, entre eles um profissional de saúde, enquanto as autoridades lutam para conter a propagação regional.
É preciso levar em conta que a RDC abrange uma área equivalente a um quarto do território continental dos Estados Unidos. Grande parte do leste só é acessível por estradas precárias, motocicletas ou trilhas que serpenteiam por florestas e montanhas. Grupos armados controlam um território considerável. Milhões de pessoas foram deslocadas pelo conflito.
Além disso, já se observam tensões em torno das medidas de contenção. Parentes de um homem que faleceu no hospital de Rwampara, perto de Bunia, capital da província de Ituri, onde o surto foi detectado pela primeira vez, entraram em confronto com profissionais de saúde depois que as autoridades se recusaram a entregar o corpo para o enterro devido ao risco de infecção, segundo informaram a mídia local.
Durante os distúrbios, as tendas de tratamento do ebola administradas pela organização humanitária Alima foram incendiadas, e seis pacientes fugiram do centro, entre eles três casos confirmados de ebola, segundo relatos da região.
O surto é causado pela rara cepa Bundibugyo do ebola, para a qual não existem vacinas nem tratamentos com anticorpos aprovados. Aparentemente, o vírus circulou sem ser detectado durante meses na província de Ituri antes que as autoridades reconhecessem a gravidade da situação.
DIFICULDADES NOS TESTES
Autoridades de saúde estão tentando rastrear milhares de pessoas que possam ter sido expostas, à medida que as infecções se espalham por áreas mineradoras remotas e centros urbanos como Bunia e Goma, cidades com populações de cerca de 700.000 e 860.000 habitantes, respectivamente.
Os números mais recentes do Ministério sugerem que a transmissão confirmada está se espalhando para além do centro de mineração de ouro de Mongbwalu, inicialmente considerado o epicentro. Embora Mongbwalu continue sendo o maior foco suspeito, as infecções confirmadas estão se concentrando cada vez mais nas áreas sanitárias vizinhas, incluindo Rwampara e Bunia.
Nyankunde, onde se encontra um importante hospital de referência que atende cerca de 200.000 pessoas, também se tornou um foco crescente, com 11 casos confirmados e 340 contatos em acompanhamento, segundo o Ministério.
A OMS alertou que a fraca vigilância e a escassa capacidade dos laboratórios estão dificultando a resposta, antes de alertar que a plataforma de diagnóstico GeneXpert, amplamente utilizada durante surtos anteriores de ebola, não consegue detectar a cepa Bundibugyo. Os kits de PCR específicos para o vírus também estão em falta, conforme informado esta semana pela Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Os países deveriam, segundo a OMS, ampliar rapidamente os testes laboratoriais, o rastreamento de contatos e a divulgação comunitária, ao mesmo tempo em que negociam “corredores de segurança” para permitir que as equipes de resposta cheguem com segurança às comunidades afetadas, indicou a agência de saúde das Nações Unidas em suas recomendações provisórias publicadas na sexta-feira.
O governo congolês informou que a taxa de positividade já chega a 46%, o que sugere que muitas infecções podem continuar sem ser detectadas.
ZONA DE CONFLITO
Para complicar ainda mais as coisas, o surto se desenvolve em uma das regiões mais instáveis do mundo, onde grupos armados controlam amplas áreas, as estradas estão em mau estado e milhões de pessoas se deslocam entre acampamentos de mineração, cidades e países vizinhos. Uma aliança que inclui os rebeldes do M23, apoiados por Ruanda, anunciou na sexta-feira sua própria estrutura de resposta ao ebola no território sob seu controle, instando as comunidades a cooperarem com os profissionais de saúde e a evitar a politização do surto.
“Um vírus formidável, de inegável poder destrutivo, diante do qual nenhum cálculo político, nenhuma discordância, nenhum interesse particular pode prevalecer sobre a necessidade absoluta de proteger a população”, afirmou o chefe da Aliança do Rio Congo, o braço político da milícia, Corneille Nangaa, em relação ao surto declarado este mês na província de Ituri, vizinha da região de Kivu, onde os rebeldes controlam as capitais de suas duas províncias, Norte e Sul.
Para o líder do grupo, “chegou a hora de compreender que esta crise transcende as filiações políticas, as divisões e as oposições”, em referência ao conflito que há anos opõe o M23 ao governo congolês, cujos aspectos internacionais (o M23 recebe apoio da vizinha Ruanda, enquanto o Exército da RDC conta com a assistência do Burundi) representam, por si só, uma ameaça de propagação adicional.
O risco dentro do país é agora considerado “muito alto”, enquanto os países vizinhos enfrentam uma ameaça regional “alta”, segundo a OMS. Uganda reforçou os controles de fronteira e suspendeu as conexões de transporte de passageiros com o Congo após relatar cinco casos confirmados de ebola. Ruanda também reforçou as medidas de detecção e anunciou na sexta-feira que a maioria dos viajantes estrangeiros que visitaram recentemente a RDC terá a entrada negada, enquanto os residentes que retornarem deverão cumprir quarentena obrigatória.
O surto também colocou em evidência a crescente preocupação com a fragilidade dos sistemas globais de resposta a surtos epidêmicos após anos de crise. “Estamos atrasados, ainda não temos a situação sob controle”, declarou esta semana Anne Ancia, representante da OMS no Congo.
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