MADRID 27 ago. (EUROPA PRESS) -
Uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Instituto de Parasitologia e Biomedicina López-Neyra (IPBLN), centro do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), identificou, pela primeira vez, marcadores genéticos associados às diferentes manifestações clínicas da arterite de células gigantes (ACG), a vasculite mais comum em pessoas com mais de 50 anos, que causa enfraquecimento ou bloqueio do fluxo sanguíneo.
Os resultados, publicados na revista “Annals of the Rheumatic Diseases”, demonstram que a ACG pode ser dividida em quatro subgrupos genéticos com características clínicas diferenciadas, um avanço que abre caminho para uma medicina mais personalizada.
A arterite de células gigantes provoca inflamação das artérias de grande e médio calibre e pode causar complicações graves, como perda permanente da visão, acidente vascular cerebral ou aneurismas. No entanto, nem todos os pacientes desenvolvem os mesmos sintomas nem apresentam a mesma evolução clínica, uma heterogeneidade que, até agora, dificultava tanto o diagnóstico precoce quanto a tomada de decisões terapêuticas.
Para abordar essa questão, os pesquisadores analisaram dados genéticos de quase 3.500 pacientes com arterite de células gigantes e mais de 15.500 controles saudáveis provenientes de dez países da Europa e da América do Norte. Participaram do estudo hospitais e centros de pesquisa de dez países, constituindo um dos maiores esforços colaborativos internacionais realizados até o momento para investigar a base genética das diferentes manifestações clínicas dessa doença.
QUATRO PERFIS GENÉTICOS COM RISCOS DIFERENTES
As análises permitiram identificar 14 regiões do genoma associadas especificamente a diferentes formas de apresentação da doença, sete delas localizadas na região HLA, fundamental para a resposta imunológica. Além disso, o estudo aponta genes candidatos envolvidos em processos inflamatórios e vasculares que poderiam explicar por que alguns pacientes desenvolvem sintomas específicos.
“Este trabalho demonstra que a genética não apenas influencia o risco de desenvolver a doença, mas também a forma como ela se manifesta em cada paciente”, explicou Gonzalo Borrego, pesquisador de pré-doutorado do IPBLN-CSIC e primeiro autor do estudo.
Um dos aspectos mais inovadores do trabalho foi a aplicação de um modelo estatístico que permitiu classificar os pacientes em quatro perfis genéticos com características clínicas diferenciadas: um grupo com predominância de comprometimento craniano, outro com um padrão misto, um terceiro com doença principalmente extracraniana e um quarto com elevada predisposição a sofrer complicações isquêmicas graves, como a perda permanente da visão.
DIAGNÓSTICO PRECOCE
“A identificação desse último grupo é especialmente relevante porque poderia permitir reconhecer, desde fases muito precoces, os pacientes com maior risco de desenvolver complicações irreversíveis”, destaca Ana Márquez, pesquisadora titular do IPBLN-CSIC e autora principal do estudo.
“Embora ainda seja necessário validar esses resultados em estudos de pesquisa que analisem dados ao longo de um período de tempo, também chamados de estudos prospectivos, nossos dados mostram que as informações genéticas podem agregar valor para melhorar a estratificação clínica dos pacientes”, acrescenta Márquez.
Os resultados do estudo sugerem que as informações genéticas poderiam, no futuro, ser incorporadas à prática clínica para melhorar a classificação dos pacientes, facilitar um diagnóstico mais preciso e ajudar a identificar precocemente aqueles que apresentam maior risco de desenvolver complicações graves.
“Há anos sabemos que a arterite de células gigantes é uma doença muito heterogênea, mas desconhecíamos grande parte das bases biológicas que explicam essa diversidade clínica”, destaca Javier Martín, professor de pesquisa do IPBLN-CSIC e coautor principal do trabalho.
“Este estudo representa um passo importante para compreender essa heterogeneidade e estabelece as bases para o desenvolvimento de estratégias diagnósticas e terapêuticas mais individualizadas”, concluiu Martín.
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