MADRID 30 mar. (EUROPA PRESS) -
A co-coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Transtornos do Desenvolvimento Neurológico da Sociedade Espanhola de Neurologia Pediátrica (SENEP), a doutora Begoña Huete, alertou que “as crianças que passam longas horas diante de estímulos digitais podem apresentar falta de resposta ao nome, escasso contato visual e uma preferência pelo isolamento, comportamentos que imitam os autistas”, o que vem aumentando nos últimos anos.
“Isso deve nos conscientizar da importância de educar as famílias sobre os riscos da digitalização precoce”, indicou ela, em relação ao chamado ‘autismo digital’, que não constitui uma categoria diagnóstica oficial, mas se traduz em crianças com sintomas semelhantes aos do transtorno do espectro autista (TEA) devido ao uso excessivo de telas. Isso interfere nos processos mais importantes do desenvolvimento neurológico, relacionados à interação social recíproca.
Por ocasião da comemoração, nesta quinta-feira, 2 de abril, do Dia Mundial do Autismo, os profissionais alertaram para esse aumento de casos nesse sentido nas consultas de neuropediatria. Diante disso, Huete defende que distinguir entre um TEA de base neurobiológica e o impacto do uso excessivo de dispositivos digitais é fundamental.
Conforme ele apontou, o cérebro infantil requer interação humana, cara a cara, para aprender não apenas a linguagem expressiva, mas também a pragmática da linguagem, a atenção conjunta e a regulação emocional. “Quando esses estímulos naturais são substituídos por uma tela, o que observamos é um ‘atraso’ no desenvolvimento das áreas pré-frontais que, felizmente, em muitos casos pode ser revertido com a retirada das telas e por meio de programas de estimulação”, afirmou.
Na mesma linha, posicionou-se a Associação Espanhola de Pediatria (AEP), que recomenda exposição zero a telas até os seis anos; de uma hora por dia, no máximo, entre os sete e os 12; e de duas horas, incluindo o horário escolar, dos 13 aos 16; e sempre sob a supervisão de um adulto.
CONDIÇÃO DE NEURODESENVOLVIMENTO DE BASE NEUROBIOLÓGICA
Quanto a esse transtorno, a SENEP lembrou que se trata de uma condição de neurodesenvolvimento de base neurobiológica, que se manifesta fundamentalmente por meio de dificuldades persistentes na comunicação social e na interação, bem como pela presença de padrões de comportamento, interesses ou atividades restritivas e repetitivas. Na Espanha, estima-se que afete uma em cada 100 pessoas, o que implica uma população de aproximadamente 500.000 pessoas.
Além disso, conforme indicado por Huete, houve um aumento progressivo dos diagnósticos nas últimas duas décadas, incremento que não responde a um único fator etiológico, mas a uma interação complexa de fatores clínicos, diagnósticos e sociais. “A transição dos critérios do ‘DSM-IV’ para o ‘DSM-V’, em 2013, implicou a fusão de categorias que antes eram independentes, como a síndrome de Asperger e o transtorno generalizado do desenvolvimento não especificado, sob o único guarda-chuva do TEA”, explicou.
Além disso, destacou a formação dos neuropediatras, que aperfeiçoaram sua capacidade de observação clínica, o que permite identificar sinais que antes eram atribuídos a outros transtornos de aprendizagem ou de linguagem. “A maior conscientização social também desempenha um papel fundamental, e pais e educadores estão hoje mais atentos aos sinais de risco, o que reduziu a idade média de suspeita, embora o diagnóstico final continue ocorrendo por volta dos quatro a cinco anos”, precisou.
O responsável pelo diagnóstico é o neuropediatra, que realiza uma avaliação multidisciplinar, que inclui a história clínica detalhada, a observação do comportamento, e um exame físico e neurológico minucioso, em busca de estigmas cutâneos, traços dismórficos que sugiram síndromes genéticas ou alterações no perímetro cefálico", continuou ele, acrescentando que também "coordena o encaminhamento a outros especialistas, como fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais, garantindo um plano de ação coerente e baseado em evidências".
DESIGUALDADES “INACEITÁVEIS” ENTRE COMUNIDADES AUTÓNOMAS
Essa especialista destacou que a detecção do TEA “é o início de uma etapa de acompanhamento”. No entanto, a fragmentação administrativa desse processo provoca “desigualdades inaceitáveis entre as comunidades autônomas”, de modo que cada região regula seus serviços com critérios, orçamentos e tempos de espera diferentes, e onde a falta de recursos é uma reclamação constante das famílias, mostrou ela.
“A partir dos seis anos, ocorre uma lacuna de recursos devido ao término dos serviços públicos de atenção precoce, o que pode deixar as famílias em situação de vulnerabilidade se não dispuserem de meios econômicos para acessar as terapias privadas”, afirmou.
Por fim, destacou que essa é uma condição que acompanha a pessoa por toda a vida. “A administração de supostos medicamentos, dietas extremamente restritivas ou de terapias de quelação ou desparasitação carece de evidência científica” e “pode colocar em risco a integridade física das crianças”, concluiu.
Diante disso, Huete destacou a necessidade do reconhecimento oficial da Área de Capacitação Específica (ACE) em Neuropediatria, uma demanda histórica para garantir a excelência no atendimento e que permitiria padronizar as competências necessárias para o diagnóstico e acompanhamento de transtornos complexos como o TEA, bem como investir no desenvolvimento futuro e no bem-estar emocional das crianças e de suas famílias.
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