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MADRID 29 ago. (EUROPA PRESS) -
A guerra no Irã já ultrapassa seis meses, enquanto Washington, em uma nova reviravolta em sua estratégia, iniciou uma campanha de sanções destinada a asfixiar a economia iraniana e isolar o país internacionalmente, uma nova fase que aponta para uma postura mais pragmática do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja popularidade está em queda diante das eleições de meio de mandato, as “midterms”, nas quais está em jogo a manutenção do controle absoluto do Congresso.
Há meio ano, Trump ordenou o ataque surpresa contra o Irã, em uma ofensiva conjunta com Israel, com o objetivo de neutralizar o poder militar de Teerã e derrubar a República Islâmica, que, já em seu primeiro dia, dizimou a liderança política e militar da República Islâmica, com a morte do líder histórico Ali Khamenei e da cúpula política e militar.
À campanha de intensos bombardeios — entre eles, um ataque a uma escola primária em Minab que deixou 155 mortos, a maioria meninas —, seguiram-se ataques a infraestruturas energéticas que geraram as primeiras fissuras entre os Estados Unidos e Israel, enquanto Teerã respondeu lançando uma ofensiva em escala regional contra alvos norte-americanos e gerando tensões com os países vizinhos.
Enquanto o número de mortos civis aumentava no lado iraniano ao longo de semanas de conflito e a República Islâmica elegia Mojtaba Jamenei como sucessor de seu pai no cargo de líder supremo, Teerã transferiu a guerra para o estratégico estreito de Ormuz, que se tornou, durante o mês de março, o epicentro das tensões, e declarou o fechamento da rota marítima, o que abalou a situação dos mercados energéticos internacionais e disparou os preços do petróleo e do gás.
Assim, Washington exigiu que seus parceiros se juntassem à operação para controlar o estreito de Ormuz e manteve desentendimentos com aliados europeus em relação ao uso de bases militares no território do continente, enquanto os objetivos do governo norte-americano iam mudando e se limitavam a apontar a necessidade de enfraquecer a capacidade militar do Irã, com referências superficiais ao programa nuclear.
Em abril, em meio a outra onda de ataques sistemáticos contra o país da Ásia Central, Trump firmou uma trégua com o Irã que suspendeu o conflito e abriu espaço para negociações que, apesar de algumas escaladas militares, resultaram em um acordo para um memorando de entendimento em meados de junho, com a mediação do Paquistão e do Catar, acordo que estabelecia as bases para um pacto que pusesse fim às hostilidades e definisse os limites às aspirações nucleares de Teerã.
De qualquer forma, a calmaria durou poucas semanas depois que, no início de julho, Washington retomou os ataques militares em meio a acusações de que a República Islâmica não estava cumprindo o acordo, quando começou a atacar embarcações que navegavam pelo Estreito de Ormuz, alegando uma interpretação estrita do memorando que, na opinião de Teerã, consolidava o controle sobre o estratégico estreito, que se tornou seu principal trunfo nas negociações.
Agora, em uma nova reviravolta, os Estados Unidos suspenderam a campanha militar contra a República e deram início a uma nova fase do conflito, que envolve uma série de sanções econômicas que visam isolar internacionalmente o Irã e provocar o colapso de sua economia por meio de sanções — ainda não especificadas — contra os atores comerciais de Teerã.
O IRÃ E OS EUA ESTÃO INTERESSADOS EM ENCONTRAR UMA SAÍDA PARA A GUERRA
De qualquer forma, seis meses depois, a guerra encontra-se em um “impasse” no qual nem os Estados Unidos conseguem impor sua vontade ao Irã, nem o Irã consegue uma retirada militar norte-americana, como explica à Europa Press o pesquisador do CIDOB Mariano Aguirre, que destaca que Trump “precisa desesperadamente que a situação com o Irã se estabilize” e está disposto a sacrificar perdas econômicas diante de um calendário eleitoral que lhe é desfavorável.
“A guerra está lhe causando um dano imenso diante das eleições de meio de mandato em novembro”, argumenta ele, após destacar a queda em sua popularidade e a perda de apoio a um conflito que não entusiasma nem o eleitorado republicano, nem os aliados e ideólogos do presidente. Aguirre ressalta que a guerra tem um impacto econômico nas classes populares e no setor primário, o que provocou um aumento nos preços da energia e um surto de inflação que afeta “o bolso e os gastos do dia a dia”.
Dessa forma, ele aponta que Washington precisa de um acordo “custe o que custar” que permita que o petróleo volte a fluir pelo Estreito de Ormuz, principal rota marítima para os mercados mundiais de energia, depois de ter fracassado nos objetivos que havia estabelecido inicialmente para a ofensiva.
“Os Estados Unidos carecem de uma estratégia de médio e longo prazo”, aponta Aguirre, também membro associado da Chatham House, que considera que Trump “está dando palos no escuro” e baseia sua tática principalmente na retórica e em transmitir à população americana uma mensagem de otimismo sobre uma rápida resolução da crise, uma estratégia que, segundo o especialista, evidencia que o presidente dos Estados Unidos não compartilha da visão de Benjamin Netanyahu, que considera a guerra contra o Irã uma oportunidade histórica para derrotar o que percebe como uma ameaça existencial e que se tornou o maior obstáculo para uma saída diplomática para a guerra.
Por outro lado, o Irã, paradoxalmente, compartilha do interesse dos Estados Unidos em reabrir o estratégico estreito, já que ele é uma ferramenta fundamental para suas receitas energéticas e seu desbloqueio representaria um alívio para uma situação econômica “em níveis mínimos”. “Grande parte da população está sofrendo com a escassez de alimentos. Eles enfrentam graves problemas decorrentes da destruição da infraestrutura e têm problemas inflacionários extremamente graves”, afirma o especialista.
Dessa forma, Teerã deseja chegar a uma solução acordada para a crise, ciente de que a passagem de Ormuz lhe confere uma vantagem estratégica que, de qualquer forma, “não é eterna”, como alerta Aguirre, que considera que “é uma questão de tempo até que Ormuz perca importância”.
A isso somam-se os interesses de toda a região, com países como Catar, Arábia Saudita ou Omã focados na contenção do Irã e em garantir que os esforços diplomáticos levem a uma paz negociada e duradoura no Golfo. Da mesma forma, a China promove seus interesses nos bastidores e vem enfatizando que a situação só pode ser resolvida por meio de negociações e que as sanções anunciadas pela Casa Branca são ilegais, já que os Estados Unidos evitaram mencionar Pequim em suas ameaças comerciais aos parceiros do Irã.
“Não acredito que Trump consiga resolver esse problema em três meses, mesmo que destruísse o Irã, e acredito que isso terá um forte impacto nas eleições”, resume o especialista do CIDOB, em um contexto em que o calendário eleitoral joga contra os interesses do presidente norte-americano no Irã.
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