SEBASTIAN CASTANEDA // UE
As distâncias, a falta de infraestrutura e de recursos colocam em risco a vida de milhares de crianças e jovens no norte do Peru, região com forte presença indígena
BAGUA (PERU), 8 (Da correspondente especial da Europa Press, Paula Domínguez)
Pneumonia, anemia, malária, tosse convulsa, HIV e até mesmo desnutrição crônica são apenas algumas das doenças apresentadas pelos pacientes que chegam ao centro de saúde de San Lorenzo, uma das principais cidades da Amazônia peruana, onde mais de 70% da população é indígena.
Nesta localidade situada no departamento de Loreto, a região mais extensa do Peru e que abriga cerca de trinta grupos indígenas, residem cerca de 60.000 pessoas, das quais pelo menos a metade tem menos de 18 anos, portanto, a maioria das pessoas que procuram essa espécie de clínica pública são crianças ou adolescentes.
No entanto, a capacidade do centro para atender às necessidades dos pacientes é muito limitada, o que obrigaria ao seu encaminhamento para outras cidades, não fossem as enormes distâncias e a conectividade limitada que, há décadas, as comunidades da selva amazônica enfrentam — o que faz com que até mesmo algumas famílias desistam de procurar atendimento.
O destino mais próximo de San Lorenzo para encaminhar uma pessoa com quadro clínico complicado fica a 45 minutos de voo ou doze horas de barco, o que coloca em grave risco a vida do paciente. Trata-se de Yurimaguas, cujo centro não dispõe de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica, apesar de atender a populações tão jovens.
“Se Yurimaguas não nos oferecer (uma) solução, temos que nos coordenar com Iquitos”, indica Liseth Durand, responsável pela promoção da saúde em San Lorenzo, em declarações à Europa Press, o que aumenta ainda mais o risco, já que há apenas dois voos por semana de San Lorenzo para Iquitos, enquanto para Yurimaguas há voos diários.
Dessa forma, uma criança que não possa ser atendida em San Lorenzo nem em Yurimaguas precisará ser transferida para quase 850 quilômetros de distância para receber o atendimento médico adequado.
É o que explica Carlos Albrecht, oficial de saúde e nutrição do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no Peru: “Imaginemos que uma criança com pneumonia de Andoas, a dez horas de San Lorenzo, chegue aqui (ao centro médico) dez horas depois e não possa ser tratada. Ele precisa ir para Yurimaguas. Se não houver pequenos aviões, são mais dez ou doze horas até que ele finalmente seja atendido, caso seja aceito. Caso contrário, teria que ir para Iquitos”.
Em resposta, a agência da ONU trabalha em conjunto com organizações indígenas, autoridades peruanas e com financiamento da União Europeia para fortalecer sistemas de alerta precoce que permitam a esses territórios identificar riscos e acionar respostas oportunas diante de emergências que vão além da área da saúde, como, por exemplo, incêndios ou casos de violência de gênero.
Nesse contexto, surgem os comitês comunitários de emergências e desastres, uma espécie de brigadas indígenas organizadas, treinadas e equipadas por entidades como a UNICEF e a Ação Contra a Fome (ACH) com material médico, como kits de primeiros socorros e macas, um computador para solicitar ajuda às autoridades locais e megafones para alertar ou informar a população caso, por exemplo, seja necessário evacuá-la diante do risco de inundação.
Pelo menos cinco comunidades indígenas da província de Datem do Marañón já contam com esse tipo de comitê, entre elas Trueno Cocha e Puerto Industrial, que ficam a cinco e 15 horas, respectivamente, de San Lorenzo em uma “chalupa”, uma pequena embarcação a motor. Esses grupos de gestão de riscos e resposta a emergências proporcionam, assim, uma certa autonomia — embora limitada — a mais de 1.600 pessoas que residem nessas comunidades.
ONU SE ALIA A LÍDERES COMUNITÁRIOS E RELIGIOSOS PARA CONSCIENTIZAR SOBRE PRÁTICAS QUE SALVAM VIDAS
O projeto da UNICEF inclui campanhas de vacinação, com deslocamentos de “brigadas de atendimento integral de dez, 15 ou 20 dias ininterruptos” para levar as vacinas a alguns dos territórios mais remotos da Amazônia, explica a responsável por San Lorenzo, que, ao mesmo tempo, alerta para a dificuldade de garantir que elas cheguem ao destino em boas condições.
“Temos as vacinas, mas a cadeia de frio é muito importante. Se não garantirmos a cadeia de frio, não podemos chegar até a última aldeia, pois não garantimos uma vacina segura. (....) Às vezes, não há pontos de apoio para manter a cadeia e evitar que ela se rompa, ou então eles não têm as condições necessárias para isso”, destaca.
Questionada sobre a atitude da população local em relação às vacinas, Durand reconhece que fatores culturais também influenciam, já que na região convivem e trabalham pelo menos sete grupos indígenas distintos: awajún, wampís, kichwa, candoshi (kandozi), achuar, shawi e chapra, além da população mestiça.
“Eles têm sua cultura, sua maneira de pensar. Além disso, os grupos cristãos demonstram um certo recusa. Alguns se recusam porque dizem que a vacina mata”, observa ela sobre uma região em que as igrejas evangélicas, especialmente as adventistas, tiveram nas últimas décadas um forte crescimento entre os indígenas, embora também haja presença católica.
Assim, as campanhas de sensibilização são fundamentais; por isso, a equipe da UNICEF trabalha com profissionais de saúde e líderes locais com o objetivo de fortalecer suas habilidades de comunicação para fornecer informações oportunas sobre os benefícios das vacinas, mas também sobre nutrição ou práticas como a lavagem das mãos.
“Também nos aproximamos dos pastores evangélicos para envolvê-los em todas essas atividades de mobilização comunitária em Datem del Marañón. Nós os consideramos extremamente importantes para a divulgação de práticas que salvam vidas, como é precisamente a vacinação”, relata Ysabel Limache, oficial de mudança social e comportamental da UNICEF.
É aqui que ganha relevância a abordagem intercultural, que consiste em “conhecer e compreender” o público-alvo, para elaborar estratégias e atividades que se adaptem a esse conhecimento e a essa realidade sociocultural. Para Limache, o segredo está em “fazer com que as pessoas sintam que essas atividades fazem parte de sua vida cotidiana, que não (...) suscitem qualquer tipo de questionamento”, o que facilita a sustentabilidade dos projetos.
Dessa forma, os pacientes que procurarem os diversos centros de saúde encontrarão cartazes e informações em cada uma das línguas nativas, além do espanhol, faladas na região, e as mulheres poderão dar à luz por meio do parto vertical — uma prática tradicional nas comunidades indígenas em que a gestante dá à luz em pé, o que também reduz a dor e facilita a expulsão do bebê.
“Isso se reflete no trabalho que realizamos com o apu — líder — de cada comunidade indígena. Reconhecemos quem são, como são, o que pensam, o nível de influência sobre as famílias, sobre as decisões que as famílias tomam em relação à saúde, à educação (...) Porque, se você optar por fortalecer o que já existe na comunidade, estará criando condições para que essas atividades possam perdurar no tempo, mesmo depois que as instituições deixarem o território”, explica.
Além dos suprimentos e equipamentos, destaca a UNICEF, são a “visão integral” e a “escuta social” que facilitam que as comunidades se empoderem e se auto-organizem em um ambiente isolado e diante de décadas de ausência do Estado.
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