Publicado 28/08/2025 08:09

Rede de microcanais no crânio descrita como chave para doenças neurológicas

Imagem da pesquisa.
CSIC

MADRID 28 ago. (EUROPA PRESS) -

Um estudo descreveu anatomicamente a rede de minúsculos canais no crânio humano que podem ter funções essenciais para a saúde do cérebro. A descoberta, publicada no American Journal of Biological Anthropology, baseia-se na análise de 94 crânios humanos de meados do século XX do norte da Espanha.

A pesquisa, realizada por Emiliano Bruner, do Museu Nacional de Ciências Naturais-CSIC, foi desenvolvida com técnicas de observação direta em material ósseo. O estudo resultou na primeira descrição morfológica e quantitativa desses pequenos canais, conhecidos como microforamina.

Embora até o momento eles só tenham sido detectados por meio de técnicas avançadas de imagens médicas, esse estudo conseguiu identificar e catalogar sua presença, tamanho e distribuição com um nível de detalhe sem precedentes.

As microforaminas são pequenos condutos vasculares, com tamanho entre 0,03 e 2 milímetros, que passam pelos ossos do crânio desde sua camada esponjosa interna (diploe) até a superfície endocraniana, que é a superfície interna do crânio em contato com as meninges, as membranas que cobrem e protegem o cérebro.

"A presença desses canais foi mencionada na literatura científica na década de 1990, e há três anos foi revelado que eles estavam envolvidos na resposta imune e inflamatória do cérebro, mas até hoje não tínhamos uma descrição formal de sua aparência, tamanho e distribuição no crânio humano", diz o autor do estudo, Emiliano Bruner.

UMA ANATOMIA VASCULAR POUCO CONHECIDA

Até agora, essas estruturas dificilmente haviam sido identificadas por meio de histologia ou técnicas de imagem, como a tomografia computadorizada. Agora, este estudo oferece a primeira descrição detalhada de sua morfologia e distribuição por meio de observação direta com ferramentas ópticas simples, como uma lupa.

Bruner descobriu que a distribuição desses microcanais é altamente variável entre os indivíduos: alguns crânios tinham apenas alguns, enquanto outros continham centenas. Além disso, "as variações individuais são notáveis, e cada indivíduo tem um padrão único em termos de tamanho e distribuição dos microcanais", diz Bruner.

As áreas do crânio com a maior densidade dessas estruturas são a parte posterior dos ossos parietais - localizados nas laterais e na parte superior do crânio - e especialmente ao longo da chamada sutura sagital, que une os dois ossos parietais na parte superior central do crânio. Muitos desses microdutos vasculares também foram detectados nas regiões de passagem das artérias meníngeas médias, que transportam sangue para as meninges.

Embora a função exata desses microcanais ainda não seja totalmente compreendida, várias hipóteses são apresentadas com base na localização e em suas conexões com o sistema vascular craniano. Uma possibilidade é que esses microdutos vasculares permitam a passagem de células imunológicas da medula óssea do crânio para o cérebro, contribuindo assim para a resposta a infecções ou processos inflamatórios.

Acredita-se também que eles possam desempenhar um papel na regulação térmica do cérebro, ajudando a dissipar o calor e a manter uma temperatura estável, o que é essencial para a função cerebral. Por fim, sugere-se que eles possam estar envolvidos no sistema glinfático, que é responsável pela remoção de toxinas do cérebro durante o repouso noturno. A alteração desse "sistema de limpeza do cérebro" tem sido associada a várias patologias, como destaca Emiliano Bruner: "A resposta inflamatória do cérebro está relacionada a doenças como Alzheimer, derrame ou depressão".

UMA ESTRUTURA COM MILHÕES DE ANOS

Para os pesquisadores, essa descoberta não tem implicações apenas para a medicina moderna, mas também para a antropologia e a evolução humana. Estruturas semelhantes aos microcanais descritos neste artigo também foram observadas pela equipe de Bruner em fósseis de Homo antecessor, uma espécie humana que viveu na Península Ibérica há mais de 800.000 anos, e em Neandertais, nossos parentes evolucionários mais próximos.

Isso sugere que essas estruturas são importantes há milhares de anos. Na verdade, esses elementos anatômicos permitem a pesquisa em um novo campo que Bruner define como "paleoangiologia, referindo-se ao estudo da anatomia vascular e da patologia em espécies extintas".

"A primeira vez que essas estruturas chamaram minha atenção foi em 2017, quando as detectei em um fóssil da Gran Dolina de Atapuerca, datado de 800.000 anos atrás, mas venho estudando o sistema craniovascular há vinte e cinco anos, e estou especialmente orgulhoso de ter feito essa primeira descrição anatômica de microforamina (microcanais), porque ela abre muitas possibilidades para o estudo evolutivo, mas também para aplicações médicas", acrescenta Bruner.

IMPLICAÇÕES FUTURAS E NOVAS LINHAS DE ESTUDO

Essa descoberta abre uma nova avenida de pesquisa em campos como neurociência, anatomia e paleontologia. Emiliano Bruner enfatiza a necessidade de estudar essas microforaminas com tecnologias avançadas, como a microtomografia ou a ressonância magnética de alta resolução, para entender melhor seu papel na saúde e na doença.

"O trabalho agora consiste em investigar as possíveis diferenças existentes em nossa espécie, mas também em analisar como essas estruturas evoluíram por meio da revisão do registro fóssil do gênero humano. O desafio é tão assustador quanto empolgante", diz Bruner.

Além disso, o paleobiólogo planeja analisar como a presença dessas estruturas varia de acordo com fatores como sexo, idade, população de origem ou mesmo espécie humana, o que poderia ajudar a entender melhor nossa biologia e nossa história evolutiva.

Essa rede de microcanais, até agora oculta a olho nu, pode ser a chave para entender melhor como nossos cérebros funcionam e também como eles evoluíram. "O potencial de importância médica é simplesmente enorme", conclui Emiliano Bruner.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

Contenido patrocinado