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MADRID, 23 ago. (EUROPA PRESS) -
A emergência sanitária mais grave da história recente da República Democrática do Congo (RDC), o surto de ebola declarado no último dia 15 de maio, completa 100 dias com mais de 2.500 mortos e um prognóstico desolador: metade das vítimas fatais foi identificada nas últimas três semanas; segundo a ONU, a doença se espalha em ritmo exponencial; e o conflito endêmico que há anos assola seu epicentro, o nordeste do país, está colocando os profissionais de saúde entre a espada e a parede.
O surto tem seu epicentro na província de Ituri, base de operações de um dos grupos armados mais violentos de toda a África, as Forças Democráticas Aliadas, braço do Estado Islâmico no país. Seus ataques, que costumam deixar dezenas de mortos a cada semana, provocaram êxodos sucessivos que impossibilitaram o acompanhamento adequado da doença.
Muitos desses deslocados acabam na região vizinha de Kivu, que, por sua vez, é palco de outro longo conflito armado: o que opõe o Exército congolês às milícias do Movimento 23 de Março, o M23, que exerce controle sobre as capitais de suas duas províncias e iniciou seu próprio programa de resposta ao surto em relativa coordenação com as agências médicas internacionais, mas sem qualquer diálogo com o governo congolês.
A violência generalizada nas seis províncias onde o surto foi registrado atinge também os profissionais de saúde, vítimas de ataques específicos, “principalmente em comunidades mineradoras e entre grupos de jovens”, segundo a ONU: um total aproximado de 260 ataques que deixaram pelo menos oito profissionais de saúde mortos, sem contar que o ebola já matou outros 43.
Em uma medida de emergência absoluta, a República Democrática do Congo recebeu neste sábado o primeiro lote da vacina Ervebo, de eficácia duvidosa contra a cepa Bundibugyo que caracteriza o surto e para a qual, na verdade, não há vacina conhecida.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Gebreyesus, explicou que as 70.000 doses no total que a RDC espera receber nos próximos dias serão utilizadas em programas adicionais de testes. Os testes clínicos citados pela OMS concluem que “os efeitos colaterais graves da vacina são muito raros” e, no mínimo, espera-se que ela ofereça certa proteção contra o contágio.
UMA MELHORIA IMEDIATA NA RESPOSTA
“Esta epidemia continua se espalhando a um ritmo mais rápido do que a resposta consegue controlar”, alertou o Dr. Javid Abdelmoneim, presidente internacional da MSF. “Os centros de tratamento continuam sendo essenciais para salvar vidas, mas essa resposta precisa de mais do que apenas leitos adicionais”, acrescentou.
“O que é necessário é uma melhor detecção, um isolamento seguro para as pessoas doentes e seus contatos, e apoio à equipe de saúde. Fundamentalmente, a resposta deve ser elaborada junto com as comunidades, e não à margem delas”, acrescentou.
Desde que o surto foi oficialmente declarado, mais de 60% das mortes por ebola na República Democrática do Congo ocorreram fora dos centros de tratamento e, muitas vezes, longe deles. Isso significa que muitas pessoas morrem em suas casas ou em suas comunidades sem receber atendimento médico, e o vírus continua se espalhando antes que os casos sejam detectados.
É preocupante que o número de casos esteja aumentando rapidamente para além do epicentro de Ituri e que a província de Kivu do Norte esteja enfrentando níveis de mortalidade particularmente elevados e uma grande desconfiança em relação à resposta.
Embora, por enquanto, o surto tenha voltado a ficar contido na RDC após uma tentativa de expansão para Uganda, a possibilidade de sua internacionalização está longe de ser descartada. Vale lembrar que, ao longo de 2025, cerca de 236 mil congoleses acabaram se tornando refugiados nos países vizinhos.
“Devemos ser francos: a epidemia está longe de estar sob controle”, afirmou Tedros durante a segunda reunião do Comitê de Emergências do Regulamento Sanitário Internacional. “As fronteiras podem retardar a propagação, mas não impedi-la”, acrescentou o diretor-geral da OMS, que considera imprescindível reforçar a vigilância e a coordenação entre os países para detectar rapidamente novos casos e evitar que se estabeleçam novas cadeias de transmissão.
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