MADRID 10 set. (EUROPA PRESS) -
O coordenador do Grupo de Estudo sobre Cefaleias da Sociedade Espanhola de Neurologia (SEN), o Dr. Roberto Belvís, afirmou que quase metade dos pacientes com enxaqueca, “48,9%, apresentam algum grau de incapacidade associado à doença” e que “um em cada cinco sofre de incapacidade grave”, de acordo com um estudo realizado pelo próprio grupo.
O trabalho, apresentado em coincidência com a comemoração, em 12 de setembro, do Dia Internacional de Ação contra a doença, estimou em mais de seis milhões o número de pessoas que sofrem, na Espanha, dessa doença neurológica caracterizada por provocar episódios recorrentes de dores de cabeça intensas e incapacitantes, que afetam a vida de mais de 1,2 bilhão de cidadãos em todo o mundo.
A enxaqueca “continua tendo um enorme impacto na vida de quem sofre com ela”, explicou Belvís, que acrescentou que “ela está associada a um pior estado de saúde mental”, pois “quase quatro em cada dez pacientes apresentam sintomas depressivos de moderados a graves, e sua qualidade de vida, medida por escalas validadas, situa-se muito abaixo da da população em geral”.
Depois de especificar que a prevalência da doença é de 13,1% da população adulta espanhola, ele também apresentou a estimativa de que entre 9% e 10% dos menores de 18 anos sofrem com ela. Além disso, declarou que “continua sendo muito mais frequente entre as mulheres, as quais são afetadas 2,2 vezes mais do que os homens (17,7% contra 8,2%)”, enquanto a incidência é maior entre adultos e jovens de até 29 anos (17,2%).
Quanto ao consumo de recursos que a doença provoca, foi indicado que, nos últimos seis meses, 68,4% dos pacientes procuraram a Atenção Primária; 14,2%, um neurologista; 45,6% foram ao pronto-socorro e 11,8% foram hospitalizados. “Além disso, afeta seriamente a atividade profissional, com uma perda média de produtividade de 35,8% entre os pacientes que trabalham; e gera um custo anual estimado de 6.704 euros por paciente, dos quais 90% correspondem a custos indiretos decorrentes do absenteísmo e, sobretudo, do presentismo no trabalho”, explicou.
“24,7% das pessoas com enxaqueca sofrem mais de quatro dias de dor por mês e poderiam se beneficiar dos tratamentos preventivos”, afirmou, por outro lado, acrescentando que, “no entanto, apenas 9,5% dos pacientes estão recebendo esse tratamento”. “O uso de anticorpos monoclonais anti-CGRP, considerados o tratamento preventivo mais eficaz e seguro disponível atualmente, mal chega a 1,2% das pessoas com enxaqueca”, acrescentou.
SUBDIAGNÓSTICO E BARREIRAS ADMINISTRATIVAS PARA O ACESSO AOS TRATAMENTOS
Nesse sentido, o especialista insistiu que atualmente existem “tratamentos capazes de mudar radicalmente a vida dos pacientes com enxaqueca”. Por isso, lamenta o “subdiagnóstico que ainda afeta essa doença”, bem como “as barreiras administrativas que limitam o acesso aos tratamentos mais inovadores, mesmo quando as evidências científicas apoiam claramente seu uso”.
Diante disso, ele lembrou que “embora na Espanha estejam disponíveis seis medicamentos anti-CGRP desde 2019, sua prescrição está sujeita a critérios de financiamento muito mais rigorosos do que os estabelecidos pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês)”. Enquanto o órgão regulador comunitário autoriza seu uso a partir de quatro dias de enxaqueca por mês, “o Sistema Nacional de Saúde (SNS) exige que o paciente sofra pelo menos oito dias de enxaqueca por mês e tenha falhado anteriormente com três tratamentos preventivos distintos”, afirmou.
Devido a isso, a SEN, juntamente com a Associação Espanhola de Enxaqueca e Cefaleias (AEMICE) e a Fundação Espanhola de Cefaleias (FECEF), enviou há alguns meses uma carta ao Ministério da Saúde solicitando a eliminação dessas restrições, pedido que, até o momento, não foi atendido.
No entanto, “os tratamentos servem de pouco se o paciente não tiver um diagnóstico correto”, afirmou Belvís, que destacou que “mais de 40% das pessoas que sofrem de enxaqueca na Espanha ainda não foram diagnosticadas, e a isso soma-se o fato de que cerca de 25% dos pacientes com enxaqueca nunca consultaram um médico sobre sua condição".
“Ou seja, há mais de dois milhões de pessoas na Espanha sem diagnóstico e, além disso, alguns estudos indicam que o atraso no diagnóstico da enxaqueca é, na Espanha, superior a seis anos”, continuou ela, ao mesmo tempo em que destacou que é necessária “uma abordagem individualizada da enxaqueca”, bem como “um diagnóstico precoce e preciso”.
Por fim, e após expor que “cerca de 50% das pessoas com enxaqueca se automedicam com analgésicos sem receita médica nem supervisão médica”, e que “12,7% utilizam opioides”, ele destacou que “diante de uma dor de cabeça frequente ou incapacitante que afeta a vida cotidiana, é fundamental consultar um neurologista e não recorrer à automedicação nem se resignar pensando que não há nada a ser feito”.
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