MADRID 12 ago. (EUROPA PRESS) -
A psicóloga escolar e professora do Mestrado Universitário em Prevenção e Intervenção Psicológica em Problemas de Conduta da Universidade Internacional de Valência (VIU), Leydis Morejón, alertou sobre os riscos de sobrecarregar as crianças com atividades durante o verão e destacou que reservar tempo para o tédio, sob supervisão adequada, é “uma vacina contra a dependência permanente de estímulos externos”.
“Estamos educando crianças muito estimuladas, mas às vezes pouco descansadas; muito acompanhadas, mas pouco autônomas; muito ocupadas, mas nem sempre mais felizes”, alertou Morejón, esclarecendo que o problema não é que as crianças pratiquem esportes, frequentem aulas de música, idiomas ou acampamentos, mas que a agenda não lhes deixe espaço para respirar, inventar, se frustrar, negociar ou simplesmente existir.
Assim, diante das jornadas de verão estruturadas com precisão milimétrica, a psicóloga cunhou o conceito de “tédio preventivo”, definindo-o como o “período de descanso emocional e mental da infância”. Conforme explicou, assim como a terra não é sempre semeada — pois, no fim, não haveria colheita —, o cérebro de uma criança também não pode estar sempre ocupado, dirigido e estimulado de fora, mas precisa de períodos de repouso.
“Esse tempo em que nada é semeado é justamente o que permite que algo próprio possa brotar”, ressaltou ela, para destacar que esses espaços de aparente vazio permitem que a criança aprenda a se autorregular, a criar sua própria brincadeira, a tolerar a espera e a descobrir seus interesses sem a orientação constante de um adulto. Nesse ponto, ela convidou a permitir o tédio sem resolvê-lo imediatamente, oferecendo às crianças um ambiente seguro, acolhedor e receptivo, no qual possam desenvolver seus próprios recursos e autonomia.
Da mesma forma, a psicóloga mencionou a ansiedade competitiva que, às vezes, leva as famílias a matricular as crianças em uma determinada atividade por medo de que elas fiquem para trás em relação aos colegas. “Vivemos em uma cultura do ‘por via das dúvidas’ que faz com que muitas decisões familiares não sejam tomadas com base na necessidade real da criança, mas sim no medo”, lamentou ela.
Na opinião dela, as famílias não devem se perguntar o que mais colocar na agenda, mas sim o que seu filho precisa para chegar a setembro mais descansado, seguro, equilibrado e com vontade de aprender, já que uma criança cansada ou sobrecarregada não aprende melhor nem se torna mais habilidosa.
ORIENTAÇÕES PARA MUDAR O VERÃO
Nesse contexto, Leydis Morejón resumiu em seis orientações práticas o que as famílias devem fazer durante o verão. Em primeiro lugar, ela insistiu em questionar se uma atividade é organizada porque a criança precisa dela ou para acalmar a própria ansiedade do adulto ao vê-la sem fazer nada.
Da mesma forma que se reserva tempo para os deveres de casa ou atividades extracurriculares, ela destacou a importância de reservar momentos sem telas, sem instruções e sem a orientação constante de um adulto. Nessa linha, ela recomendou colocar à disposição da criança materiais simples, como caixas, tecidos, contos, tintas, peças de construção ou elementos da natureza, que a obriguem a usar a imaginação.
Embora seja necessário reconhecer o desconforto que o tédio representa, ela destacou que deve ser a criança quem encontre uma solução, transmitindo-lhe confiança em suas capacidades e não a sensação de abandono. Da mesma forma, a psicóloga instou a não interromper a brincadeira apenas porque ela não é produtiva, não é organizada ou não tem um resultado bonito, já que seu valor reside no processo interno de criação.
Por fim, ela destacou que o adulto precisa rever sua própria relação com o descanso, pois se os filhos veem seus pais sempre ocupados e respondendo mensagens, aprendem que parar é perder tempo. “O lar será um espaço de brincadeira livre quando o descanso for vivido como algo saudável e não como algo que gera culpa”, afirmou.
Morejón fez um apelo às famílias, às instituições de ensino e aos futuros professores e orientadores para que mudem o paradigma e deixem de medir a qualidade de um dia pela quantidade de atividades realizadas.
Segundo ele, quando uma criança fica bloqueada, é incapaz de brincar de forma autônoma, depende de uma tela para se acalmar ou apresenta problemas de autorregulação na sala de aula, não se trata de uma criança “difícil” ou “malcriada”, mas de um ecossistema desequilibrado que não lhe proporcionou oportunidades reais de lidar com o silêncio, a frustração e a autonomia.
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