MADRID 29 maio (EUROPA PRESS) -
Um estudo pré-clínico do qual participaram pesquisadores espanhóis demonstrou pela primeira vez em modelos de ratos a eficácia da terapia genética in vivo, administrada diretamente pela veia, para a anemia de Fanconi.
Esse trabalho, publicado na revista Nature, abre as portas para uma mudança nos procedimentos para a correção de doenças hematológicas genéticas: de tratamentos ex vivo, cujo sucesso já foi demonstrado em pacientes com essa doença rara, para terapias in vivo, um sistema muito mais simples que permitiria estender a aplicação da terapia a um número maior de pacientes.
O trabalho, liderado pelo San Raffaele Telethon Institute for Gene Therapy em Milão (Itália), envolveu uma equipe espanhola da Unidade de Inovação Biomédica do CIEMAT, da Área de Doenças Raras do CIBERER (CIBERER) e do Instituto de Pesquisa em Saúde da Fundación Jiménez Díaz (IIS.FJD).
A anemia de Fanconi é uma doença que se manifesta com frequência na faixa etária pediátrica e afeta as células-tronco da medula óssea dos pacientes. Caracteriza-se pela perda progressiva de células sanguíneas, que frequentemente resulta em infecções graves, astenia e hemorragias, um processo conhecido como falência da medula óssea.
Em um estudo clínico publicado na revista "The Lancet" em dezembro de 2024, pesquisadores espanhóis demonstraram pela primeira vez a eficácia da terapia genética ex vivo para corrigir a insuficiência da medula óssea em pacientes com anemia de Fanconi. Essa terapia envolve a coleta e a purificação de células-tronco de pacientes, seguida da correção do defeito genético e, por fim, da reinfusão das células-tronco corrigidas nos pacientes.
Nesse novo trabalho experimental, a estratégia usada é completamente diferente. Nesse caso, o vetor lentiviral terapêutico foi administrado diretamente por via intravenosa a camundongos recém-nascidos com a doença. Como resultado desse tratamento simples, eles observaram que uma pequena proporção das células-tronco da medula óssea doente apresentou correção de seu defeito genético.
A partir de então, as células corrigidas se expandiram progressivamente na medula óssea e no sangue dos animais. Além disso, as células corrigidas impediram a falência da medula óssea quando os animais foram tratados com um medicamento que danifica as células doentes, refletindo a capacidade dessa estratégia de impedir a falência da medula óssea nesse modelo da doença.
Antes do tratamento dos camundongos com anemia de Fanconi, os pesquisadores da equipe italiana haviam demonstrado a possibilidade de inserir genes marcadores em células-tronco hematopoiéticas de camundongos neonatos saudáveis e também haviam obtido benefícios terapêuticos modestos em outros modelos de doenças, como a ADA-SCID (uma forma de imunodeficiência grave associada à ausência de linfócitos no sangue) e a osteopetrose autossômica recessiva (uma doença que afeta o desenvolvimento ósseo).
"O fato de que, na anemia de Fanconi, as células-tronco corrigidas apresentam uma vantagem proliferativa fez dessa doença um modelo ideal para uma nova terapia lentiviral in vivo. Por esse motivo, e graças à nossa experiência com a doença, iniciamos uma colaboração com pesquisadores do Instituto TIGET de Milão", explica o Dr. Juan Bueren, da equipe do CIEMAT, CIBERER e IIS.FJD que participou do estudo.
"Os resultados obtidos nesse trabalho pioneiro abrem novas perspectivas para o tratamento de doenças hematológicas, em particular a anemia de Fanconi, usando sistemas muito mais simples do que os atualmente em uso, o que nos permitiria estender a aplicação da terapia a um número maior de pacientes", ressalta a Dra. Paula Rio, da mesma equipe de pesquisa.
Esse estudo abre novas perspectivas para a terapia gênica de doenças, que, sem dúvida, exigirá mais trabalho para confirmar, em diferentes modelos experimentais, a segurança associada à administração de vetores lentivirais, capazes de integrar genes terapêuticos ao genoma da célula.
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