Publicado 21/02/2026 06:37

O Peru encerra mais um capítulo de sua crise institucional com a queda do sétimo presidente em uma década.

Archivo - Arquivo - 15 de outubro de 2025, Lima, Lima, Peru: “José Jeri, denunciado por estupro” pode ser lido em um cartaz quando milhares de manifestantes tomaram as ruas de Lima mais uma vez contra o novo presidente do Peru, José Jeri, que enfrentou ac
Europa Press/Contacto/Carlos Garcia Granthon

A destituição de José Jerí reafirma novamente o poder do Congresso de nomear e destituir presidentes MADRID 21 fev. (EUROPA PRESS) -

O Congresso do Peru destituiu esta semana, em uma moção de censura, José Jerí, o sétimo presidente que tentou governar o país nos últimos dez anos, a dois meses do primeiro turno das novas eleições, em mais um capítulo de uma perene debacle institucional sem paralelo na região, onde a instabilidade se tornou um modelo de governança.

Os quatro meses de Jerí à frente do governo representaram o segundo mandato mais curto da última década, superado apenas pelo breve mandato de Manuel Merino, que foi obrigado a deixar o cargo cinco dias depois que duas pessoas morreram e outras cem ficaram feridas pela repressão policial durante a onda de protestos que abalou o país em novembro de 2020.

Ex-presidente do Congresso, Jerí foi empossado em outubro de 2025 após a destituição de Dina Boluarte, desacreditada por inúmeros casos de corrupção, pela repressão mortal aos manifestantes nos protestos de 2022, além de aparecer nas pesquisas como a líder mais mal avaliada da América Latina.

Sua nomeação gerou rejeição no mesmo dia, após a divulgação de uma série de mensagens sexistas em suas redes sociais, mas principalmente por uma acusação de agressão sexual pela qual ele aceitou como punição se submeter a terapia.

Uma forma de tratar as mulheres que voltou a ser questionada durante seu mandato, depois que também se soube que várias jovens foram contratadas pelo Estado após fazerem visitas noturnas à residência oficial.

No entanto, o principal escândalo que motivou a maioria das sete moções de censura que se acumularam nestes quatro meses tem a ver com os encontros clandestinos que manteve com empresários chineses de reputação duvidosa, num caso que a imprensa local batizou de “Chifa Gate”, em referência ao nome com que são conhecidos no Peru os restaurantes de comida asiática.

A imprensa revelou imagens desses encontros com Zhihua Yang, um empresário com acordos com o Estado, em algumas das quais se vê o ex-presidente usando um capuz. Diante do alvoroço, Jerí tentou se desculpar e justificou as reuniões como parte da organização dos eventos do Dia da Confraternidade Peruano-Chinesa. Paralelamente, soube-se que o também empresário chinês Ji Wu Xiaodong, processado por tráfico ilegal de madeira, visitou o presidente várias vezes no Palácio Presidencial, apesar de estar em prisão domiciliar.

A INCAPACIDADE MORAL PERMANENTE A destituição de Jerí reafirmou mais uma vez o poder do Congresso de nomear e destituir presidentes. Desta lista, o único que conseguiu cumprir seu mandato constitucional foi Ollanta Humala, entre 2011 e 2016, agora na prisão, destino recorrente, por outro lado, da grande maioria dos chefes de Estado eleitos.

Com exceção de Francisco Sagasti, que completou o mandato desde a saída de Merino e as eleições de 2021, nas quais Pedro Castillo se impôs — destituído e agora preso por tentar dissolver o Congresso —, os demais foram destituídos por meio da chamada vacância presidencial, pela qual basta uma votação para declarar o presidente moral ou fisicamente incapaz.

Esse mecanismo, do qual os congressistas desfrutam, diminui a capacidade do presidente, que muitas vezes começa sem força suficiente para tecer alianças parlamentares em um sistema político viciado por interesses particulares e até mesmo sem um apoio sólido de seu próprio partido, como ficou evidente no caso de Pedro Castillo, abandonado pelo Perú Libre.

No que diz respeito a Jerí, sua saída veio com uma moção de censura, muito mais fácil de executar, pois basta o apoio de uma maioria simples. No entanto, alguns constitucionalistas alertaram que o mecanismo legal era a destituição, já que a censura é para ministros e congressistas, não para o chefe de Estado.

Agora, o próprio Congresso elegeu José Balcázar, deputado octogenário do partido de esquerda Perú Libre, punido por prevaricação quando exercia o cargo de juiz do Supremo, acusado de roubar pela sua ordem dos advogados e, como parlamentar, conhecido por se opor à lei contra o casamento infantil.

CÁLCULO ELEITORAL Em poucas semanas, os peruanos irão às urnas para eleger o nono presidente nos últimos dez anos entre uma lista de até 36 candidatos, entre os quais se destacam a ultradireitista Keiko Fujimori — em sua quarta tentativa de chegar à Casa Pizarro —; o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga, ex-ministros como Jorge Nieto ou Fiorella Molinelli e o fugitivo da justiça Vladimir Cerrón.

Nunca antes os peruanos puderam escolher entre tantos candidatos, alguns dos quais, caso não cheguem à Presidência, poderão ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados ou no Senado, já que a partir de julho de 2026 o sistema bicameral retornará ao Peru, reforçando ainda mais o poder do Legislativo.

Escândalos e a pior crise de segurança dos últimos anos à parte, a saída de Jerí responde ao cálculo eleitoral dos partidos com vários congressistas que aspiram manter seu assento na próxima legislatura. Um jogo político que também se desenvolveu durante a última votação para eleger Balcázar, que se beneficiou dessa disputa entre as direitas peruanas.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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