VALÊNCIA, 13 ago. (EUROPA PRESS) -
Um estudo liderado por pesquisadores do grupo Land and Atmospheric Remote Sensing (LARS) do Instituto de Engenharia Hídrica e Ambiental (IIAMA) da Universidade Politécnica de Valência (UPV) reconstruiu, pela primeira vez, a história da cratera de gás de Darvaza (Turcomenistão), popularmente conhecido como a “Porta do Inferno”, e quantificou, por meio de observações diretas por satélite, as emissões de metano que ele liberou ao longo de mais de cinco décadas.
O trabalho, publicado na revista “Geophysical Research Letters”, estima que esse local singular tenha emitido mais de 900.000 toneladas de metano desde sua formação, tornando-se uma das fontes persistentes mais importantes desse potente gás de efeito estufa já documentadas até o momento.
A pesquisa foi liderada por Adriana Valverde, juntamente com Javier Gorroño, Javier Roger e Luis Guanter, pesquisadores do IIAMA-UPV; Itziar Irakulis-Loitxate, pesquisadora do IIAMA durante o desenvolvimento do estudo e que atualmente trabalha para o UNEP-IMEO; e Zhipeng Pei, da Universidade de Wuhan (China).
Além de quantificar as emissões, o trabalho esclarece uma das grandes incógnitas sobre esse local singular: quando ele realmente começou a queimar.
A partir da análise de imagens históricas do programa Landsat, em operação desde 1972, os pesquisadores determinaram que o incêndio começou entre setembro de 1987 e fevereiro de 1988, várias décadas após a formação da cratera. Esta é a primeira vez que se consegue determinar com essa precisão o início da combustão.
“Até agora, havia inúmeras incógnitas sobre a história da cratera. A combinação de imagens históricas e satélites hiperespectrais de última geração nos permitiu reconstruir sua evolução e quantificar, pela primeira vez por meio de observações diretas, o impacto climático de suas emissões de metano”, explica Adriana Valverde, primeira autora do estudo.
A pesquisa também esclarece outra questão que há décadas gera controvérsia: a data de formação da cratera. Enquanto algumas fontes a situam em 1963, outras em 1971.
“O que podemos afirmar com certeza é que o cráter já existia em 25 de outubro de 1972, conforme demonstra uma imagem do satélite Landsat 1. No entanto, com as informações disponíveis, não é possível determinar se ele se formou pouco antes dessa data ou vários anos antes”, acrescenta a especialista do IIAMA.
CINCO SATÉLITES
Para quantificar as emissões, a equipe analisou dados obtidos entre 2020 e 2025 por cinco missões espaciais hiperespectrais (EnMAP, PRISMA, EMIT, GF-5A e ZY-1E), detectando 44 colunas de metano com taxas de emissão compreendidas entre 0,6 e mais de 3 toneladas por hora.
No total, durante esse período, a cratera liberou aproximadamente 71.000 toneladas de metano, uma quantidade equivalente a cerca de 6 milhões de toneladas de CO2 equivalente, considerando um horizonte temporal de 20 anos.
Esse número coloca Darvaza entre as maiores fontes persistentes de metano observadas por satélite.
Os pesquisadores constataram que, embora a intensidade do incêndio tenha diminuído desde 2023 como consequência das medidas adotadas pelo país para tentar reduzir suas emissões, estas não diminuíram proporcionalmente. Esse comportamento indica que uma parte significativa do gás continua escapando diretamente para a atmosfera por meio de múltiplas fraturas subterrâneas, sem chegar a queimar, o que questiona a eficácia das ações realizadas.
“Nossos resultados mostram que parte do metano evita a combustão e continua sendo liberado diretamente na atmosfera, o que evidencia a complexidade geológica do sistema”, destacam os membros do grupo LARS.
Além do caso específico de Darvaza, o trabalho demonstra o enorme potencial da teledetecção para identificar e monitorar grandes fontes de metano em regiões remotas onde quase não há medições in situ. Os autores destacam que esse tipo de emissão persistente continua sub-representado em muitos inventários internacionais; por isso, o uso combinado de satélites hiperespectrais e imagens históricas constitui uma ferramenta fundamental para aprimorar o conhecimento sobre as emissões globais de metano e elaborar estratégias eficazes de mitigação.
“A observação da Terra está transformando nossa capacidade de detectar emissões que até pouco tempo atrás eram invisíveis. Essas informações são essenciais para apoiar políticas climáticas, verificar medidas de mitigação e avançar rumo a uma gestão mais eficiente de um dos gases de efeito estufa com maior impacto no curto prazo”, concluem os pesquisadores do grupo LARS-IIAMA.
O estudo contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade de Wuhan, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-IMEO) e do Environmental Defense Fund, o que consolida a liderança internacional do grupo LARS do IIAMA-UPV no desenvolvimento de novas metodologias para o monitoramento de emissões de metano por satélite.
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