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Um suposto plano para assassinar o presidente Chaves e a presença de Nayib Bukele marcam a reta final da campanha eleitoral MADRID 31 jan. (EUROPA PRESS) -
A Costa Rica vai às urnas neste domingo para eleger o presidente e renovar o Parlamento após a campanha eleitoral mais longa de sua história recente, na qual o aumento da insegurança e do crime organizado dominaram a agenda de todos os candidatos, entre os quais se destaca Laura Fernández, a aposta do governo para dar continuidade ao legado do líder de direita Rodrigo Chaves, que pode vencer no primeiro turno.
Fernández, ex-ministra e ex-chefe de gabinete de Chaves, aparece em destaque nas intenções de voto, com números que ultrapassam os 40%, margem necessária para evitar um segundo turno. No cenário de um segundo turno, apenas a possível união dos demais candidatos — até vinte, mas apenas cinco com chances de obter representação — poderia questionar sua vitória.
A candidata do Partido Pueblo Soberano (PPSO) prometeu mão dura para conter esse aumento da insegurança e dos homicídios violentos em um país que não possui exército e acostumado a ser, durante décadas, um dos mais estáveis nessa região conturbada do mundo que é a América Central.
O Centro de Investigação e Estudos Políticos (CIEP) da Universidade da Costa Rica aponta que dois em cada três eleitores acreditam que a situação de segurança piorou. Mesmo assim, e apesar de o país ter passado por uma das suas fases mais violentas dos últimos tempos, 58% apostam neste modelo, baseado durante estes anos na tensão e no confronto com as instituições.
“Nos últimos 25 anos, a Costa Rica tem tendido a se ‘centroamericanizar’, a perder parte dessa solidez institucional, socioeconômica, do estado de bem-estar social e de suas estruturas que a tornavam muito diferente dos demais países da região”, explica Salvador Martí i Puig, professor de Ciências Políticas e pesquisador do think tank Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona (CIDOB).
Apesar de ser um país relativamente estável, nos últimos anos “o Estado vem perdendo brilho”, observa Martí i Puig, devido ao aumento da desigualdade e da pobreza provocadas pelas políticas neoliberais dos últimos governantes, mas também por outros fatores, como a chegada maciça de migrantes nicaraguenses ou a globalização do crime.
Nesse cenário surgiu Rodrigo Chaves, que tem “todos os componentes de um populista de direita e liberal”, define o pesquisador do CIDOB, ao estilo de outros presidentes como o norte-americano Donald Trump, o argentino Javier Milei ou o salvadorenho Nayib Bukele, também protagonista durante a campanha.
BUKELE E O PLANO PARA MATAR CHAVES Dois fatores irromperam na reta final da campanha: a suposta tentativa de matar o presidente Chaves e a visita do presidente salvadorenho Nayib Bukele, que em poucos anos se tornou uma figura de primeiro plano, não apenas no cenário centro-americano, mas também em outras latitudes muito mais ao sul do continente.
Bukele participou, junto com seu homólogo costarriquenho, de um evento para promover a criação de uma prisão de segurança máxima na província de Alajuela, próxima à capital, San José, inspirada, como o próprio presidente costarriquenho se encarregou de reafirmar, no mediático Cecot salvadorenho.
O Tribunal Supremo de Eleições (TSE) rejeitou até mesmo um recurso para cancelar a visita diante das denúncias por seu caráter marcadamente eleitoralista, no âmbito de uma campanha em que Chaves, desviando-se da Constituição e da tradição política do país que não permitem ao presidente participar na mesma, fez proselitismo por Fernández e atacou os candidatos da oposição.
O mesmo tribunal, em outubro de 2025, solicitou sem sucesso ao Parlamento que levantasse a imunidade concedida ao cargo de Chaves para poder investigar se ele violou as leis eleitorais ao participar da campanha. Um mês antes, a Câmara Legislativa rejeitou outra tentativa de destituição, desta vez do Supremo Tribunal, por um caso de corrupção que também afetava um de seus ministros.
No entanto, Bukele, que tem cada vez mais peso na região, não só deixou sua marca visitando essas futuras instalações penitenciárias batizadas com o acrônimo ilustrativo de Cacco (Centro de Alta Contenção do Crime Organizado), mas também contando com a candidatura de José Aguilar Berrocal, marido de uma de suas primas, nas urnas.
CONTROLE DA ASSEMBLEIA Apesar de ter saído ileso de duas investigações, uma por corrupção e outra por beligerância política durante a campanha, graças ao apoio da Assembleia Legislativa, Chaves reiterou em várias ocasiões a necessidade de seu partido controlar a Câmara para implementar as mudanças que, em sua opinião, a Costa Rica precisa, entre elas uma possível revisão da Constituição.
O objetivo declarado é conseguir até 40 deputados em uma Assembleia com 57 cadeiras. É nesse cenário que um desses candidatos residuais, como Aguilar Berrocal, parente de Bukele, poderia fazer a diferença com apenas algumas cadeiras e completar as aspirações de Chaves, adverte Martí i Puig.
A candidata do partido no poder, de 39 anos, não só se beneficia da grande popularidade do ainda presidente Chaves, mas também de uma oposição altamente atomizada, com propostas que, por si só, na melhor das hipóteses, alcançariam 9% dos votos.
SEGUNDO TURNO? Embora remota, a possibilidade de algum desses candidatos conseguir chegar ao segundo turno apresentaria um cenário diferente para as eleições de 5 de abril. Desses vinte candidatos, três são os que poderiam colocar em dúvida a vitória de Fernández neste domingo. A ex-primeira-dama Claudia Dobles, do progressista Partido Ação Cidadã; Ariel Robles, da Frente Ampla, outra proposta da esquerda; e Álvaro Ramos, do histórico Partido Liberação Nacional (PLN).
“As pessoas percebem que há probabilidades porque esses três grandes partidos se uniriam e poderiam chegar também a 40% (...) Se houver um segundo turno, está tudo em aberto”, aponta Martí i Puig.
De qualquer forma, o grande número de forças em disputa antecipa um Congresso fragmentado, no qual será complicado que um único partido consiga os 29 assentos que oferecem uma maioria simples, pelo que se imporá uma lógica permanente de negociação. Tudo isso em meio a um clima de claro descontentamento com a classe política, embora os indecisos sejam cada vez menos à medida que se aproxima o domingo. Dos 55% registrados pelas pesquisas em outubro de 2025, nesta mesma semana já havia descido para 26% o eleitorado que afirmava ainda não ter certeza do seu voto. O desinteresse eleitoral tem sido recorrente nos últimos anos, depois que o país havia registrado, há algum tempo, níveis de participação superiores a 80%. Nas últimas eleições, 40% dos eleitores ficaram em casa.
Embora o voto seja obrigatório na Costa Rica, não há medidas punitivas para quem não comparece às urnas, como ocorre em outros países latino-americanos, como o Chile, onde essa imposição costuma beneficiar propostas antissistema inclinadas para posições mais conservadoras. Portanto, no caso da Costa Rica, ninguém pode se apropriar dessas dinâmicas.
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