Publicado 11/06/2026 10:08

ONGs denunciam que o pacto europeu sobre migração "ameaça os direitos dos migrantes e refugiados" e pedem transparência

Pedem ao governo espanhol que aplique o acordo da forma “mais garantista” possível e forneça “mais informações”

Archivo - Arquivo - Imagem de arquivo de um navio da Guarda Costeira turca avistando uma lancha com migrantes nas águas do Mediterrâneo
GUARDIA COSTERA DE TURQUÍA - Arquivo

MADRID, 11 jun. (EUROPA PRESS) -

Várias ONGs, entre elas a Anistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras, Oxfam Intermón e Cáritas, entre outras, denunciaram nesta quinta-feira que o novo Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, que entrará em vigor em 12 de junho, "ameaça os direitos dos migrantes e refugiados" e não é suficientemente "transparente" no que se refere às medidas concretas que serão adotadas em nível nacional.

“Há anos acompanhamos a negociação, aprovação e implementação desses pactos pela Espanha, para contribuir para que prevaleça em todo o processo uma abordagem baseada nos direitos humanos dessas pessoas”, indicaram as organizações em um comunicado divulgado pela Anistia Internacional.

Essa nova política migratória, alertaram, implica “desafios importantes em relação à garantia dos direitos dos migrantes e refugiados”. “A isso se soma o acordo alcançado em 1º de junho sobre o Regulamento Europeu de Retorno, que amplia o uso da detenção e incorpora medidas punitivas e coercitivas para intensificar as deportações”, afirma o texto.

Essas normas, juntamente com a revisão do conceito de país terceiro seguro e a aprovação de uma lista de países de origem considerados seguros — que inclui Estados com graves deficiências em matéria de direitos humanos —, enfraquecem gravemente direitos e garantias já consolidados, conforme explicaram.

Assim, destacaram que entre esses direitos estão o direito de asilo, a proteção contra repatiamentos imediatos, o acesso a defesa jurídica eficaz, o direito à informação e a atenção específica a pessoas em situação de maior vulnerabilidade, e a proteção ao direito à saúde integral das pessoas.

No caso espanhol, apesar dos esforços da sociedade civil organizada e das populações afetadas, “os espaços de diálogo público não se traduziram em informações precisas sobre as medidas concretas que serão implementadas para adaptar o Pacto ao contexto nacional”, lamentaram.

“Diante dessa situação de certa incerteza e preocupação, exigimos que o Governo e as demais forças políticas garantam a transparência e o acesso à informação sobre os planos, protocolos, instruções, recursos e reformas legislativas, entre outros mecanismos de implementação do pacto que agora entrará em vigor”, afirmaram.

Nesse sentido, enfatizaram a importância de “aplicar o pacto da forma mais garantista possível, em conformidade com os Direitos Humanos, e em pleno cumprimento dos direitos estabelecidos no marco jurídico espanhol e dos compromissos internacionais”.

"É imprescindível garantir os recursos necessários para o bom funcionamento do mecanismo de supervisão dos Direitos Humanos que será assumido pelo Provedor de Justiça", sustentaram, antes de insistirem na importância de garantir a participação da sociedade civil e “que lhe seja conferido mandato para investigar e propor sanções em caso de violações dos Direitos Humanos”.

O pacto estabelece uma série de normas e regulamentos para um maior controle das fronteiras externas da União Europeia e oferece aos governos uma ‘solidariedade à la carte’ que lhes permitirá evitar o acolhimento de parte dos migrantes realocados, caso paguem uma compensação por cada transferência recusada.

Após anos de negociações, os Estados-Membros chegaram a um acordo em 2024 sobre um equilíbrio entre a “solidariedade” com os países na linha de frente, como Espanha e Itália, e a “responsabilidade” que lhes é exigida por outros parceiros com receio dos movimentos secundários.

Finalmente, foi acordado um mecanismo de “solidariedade flexível” que obrigará os Vinte e Sete a responder perante um parceiro sobrecarregado com a chegada de migrantes, e que permite que parte das pessoas que chegaram seja realocada ou que seja paga uma compensação por cada migrante recusado.

SITUAÇÃO DA INFÂNCIA

Por sua vez, a ONG Save the Children indicou que “as crianças devem ser protegidas, em vez de colocadas em risco”, e fez um apelo para que o interesse superior da criança “seja priorizado em relação aos objetivos de gestão de fronteiras”, segundo um comunicado.

“As crianças que buscam segurança na Europa podem enfrentar um risco maior de controles biométricos coercitivos e detenções, embora a implementação do pacto também possa representar uma oportunidade para reforçar sua proteção”, afirma o documento.

A especialista em advocacy da Save the Children, Federica Toscano, afirmou que, embora “o pacto já seja uma realidade, o fato de ele realmente proteger as crianças ou expô-las a maiores danos dependerá em grande parte de como for implementado”. “O verdadeiro teste é agora”, acrescentou.

O controle da fronteira e os procedimentos e condições dos centros de acolhimento marcarão, segundo a organização, a diferença entre “proteção e dano”. “Trata-se de crianças e adolescentes que fogem da violência, de surtos de doenças, da pobreza e de abusos em busca de segurança. Existe um risco real de que isso possa tornar a detenção deles a nova norma nas fronteiras da Europa”, acrescentou.

“Embora a legislação europeia seja clara ao estabelecer que a detenção deve ser um último recurso, a realidade é que ela se tornou cada vez mais comum em todo o continente. Já vimos as consequências: crianças detidas em instalações superlotadas e inadequadas, sem a atenção e o apoio de que precisam, o que as deixa expostas à incerteza, à angústia e a danos ainda maiores. Nenhuma criança deveria ser detida simplesmente por buscar proteção”, explicou Toscano.

Este acordo, disse ele, também dá prioridade a um processamento mais rápido nas fronteiras da UE, mas “a rapidez não deve prevalecer sobre os direitos da infância”. "Pode ocorrer uma falta de identificação de vulnerabilidades específicas, o que deixa mais indefesas as crianças que foram vítimas de tráfico ou violência, ou requerentes de asilo. A isso se somam as dificuldades para se reunirem com seus familiares, o que já apresenta muitas barreiras na regulamentação atual. A impossibilidade de se reunirem com suas famílias leva, por vezes, à busca por outras rotas mais inseguras e com maior perigo para a infância”, destacou.

No entanto, ela também considera a possibilidade de que surja uma oportunidade no contexto espanhol para reforçar medidas que atendam às necessidades dos migrantes menores de idade. Em primeiro lugar, que suas necessidades sejam bem identificadas por meio de ferramentas já existentes, como a ETNNA (Avaliação das Necessidades de Crianças Acolhidas), desenvolvida em colaboração com o ACNUR, e que isso permita identificar precocemente as necessidades de proteção, saúde, educação e acompanhamento psicossocial.

“As crianças precisam de estabilidade, continuidade nos cuidados, relações de confiança e acesso a serviços essenciais. Um sistema que deixa crianças e adolescentes confinados em condições inadequadas, submetidos à força e privados de estabilidade não reflete nem os valores da Europa nem suas obrigações legais”, concluiu Toscano.

Para a Save the Children, a UE enfrenta agora uma escolha: “aplicar um sistema que realmente proteja a infância ou um que a exponha a um risco maior”. “A transparência e a prestação de contas serão essenciais para garantir que os direitos da infância sejam respeitados em toda a UE”, reforçou.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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