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MADRID, 18 jul. (EUROPA PRESS) -
No próximo dia 12 de agosto, a Espanha vivenciará um eclipse total de Sol que poderá ser observado ao entardecer e que, sem o uso de proteção adequada, pode causar danos irreversíveis aos olhos.
Nesse contexto, Elena Salobrar, professora do Departamento de Imunologia, Oftalmologia e Otorrinolaringologia e pesquisadora do Instituto de Pesquisas Oftalmológicas Ramón Castroviejo da Universidade Complutense de Madri, explica que o olho humano é “um instrumento óptico extraordinário, capaz de se adaptar a condições de luz muito diferentes, desde a penumbra de uma noite escura até o meio-dia de verão”. No entanto, há uma fonte de luz para a qual ele não foi projetado: olhar diretamente para o Sol.
“A razão está em nossa própria anatomia. Nosso sistema de lentes do olho, formado pela córnea e pelo cristalino, foi projetado para focar a imagem na retina, atuando como uma lupa natural. Quando voltamos o olhar para o Sol, toda a energia luminosa e térmica se concentra em um ponto minúsculo da retina, a área chamada fóvea, que é justamente onde nossa visão é mais nítida. O resultado é devastadoramente simples: uma queimadura irreversível localizada no tecido mais precioso do nosso sistema visual”, alerta.
O que agrava o perigo é que a retina não possui receptores de dor; portanto, não há aviso, nem ardor nem dor. A pessoa pode estar causando danos irreversíveis à retina sem sentir absolutamente nada naquele momento.
Em condições normais, a pesquisadora lembra que olhar diretamente para o Sol se torna “insuportável” em frações de segundo: o ofuscamento, o reflexo de desviar o olhar e a contração da pupila atuam como mecanismos de defesa.
Mas durante um eclipse parcial ou nos instantes que antecedem e sucedem à fase total, ocorre algo paradoxal, já que “a redução da luz ambiente engana o cérebro”. A cena escurece, a pupila se dilata em busca de mais luz, e a pessoa sente que “pode” olhar sem incômodo.
No entanto, a radiação que continua chegando, especialmente aquela que não é visível, mas que é extremamente nociva — a ultravioleta e a infravermelha —, não diminui na mesma proporção que a luz visível. “O olho está agora mais aberto e mais exposto, justamente quando a guarda está baixa”, alerta a especialista.
O nome desse fenômeno é retinopatia solar, e seu mecanismo é duplo. Por um lado, a radiação ultravioleta gera radicais livres que danificam as células fotorreceptoras (conos e bastonetes). Por outro, a energia infravermelha produz um efeito térmico direto, literalmente “cozinhando” o tecido retiniano em nível microscópico.
Os sintomas da retinopatia solar nem sempre são imediatos. Podem surgir horas após a exposição, o que faz com que muitas pessoas afetadas não associem a causa ao efeito.
Entre as manifestações mais frequentes estão a visão embaçada ou distorcida, especialmente no centro do campo visual; escotoma central: uma mancha escura ou cinza permanente exatamente no ponto de maior acuidade visual; metamorfopsia: percepção distorcida das formas, como se as linhas retas se curvassem; e sensibilidade aumentada à luz (fotofobia) e dor de cabeça.
“Em casos leves, parte do dano pode ser revertida com o tempo, já que algumas células fotorreceptoras têm certa capacidade de regeneração. Mas, em exposições prolongadas ou repetidas, as lesões são permanentes. Não existe tratamento cirúrgico nem farmacológico que repare uma fóvea queimada. A medicina, nesse caso, só pode observar”, ressalta Salobrar.
ÓCULOS DE SOL COMUNS NÃO SIRVEM COMO PROTEÇÃO
Óculos de sol comuns não servem para observar o eclipse solar. A proteção existe, é acessível e eficaz, mas deve atender a requisitos muito específicos.
A pesquisadora comenta a esse respeito que o erro mais comum é confundir óculos “escuros” com óculos “seguros”. Os óculos de sol convencionais, mesmo os mais escuros, bloqueiam apenas entre 70% e 90% da luz visível, mas deixam passar grande parte da radiação ultravioleta e infravermelha quase sem filtragem.
“Elas são, nesse contexto, inúteis e perigosas. É por isso que nunca se deve usar óculos de sol para observar um eclipse”, afirma a professora da UCM.
Os óculos para eclipse homologados devem atender à norma internacional ISO 12312-2, que estabelece que a transmitância — quantidade de luz que atravessa um material — não pode ultrapassar 0,0032%. Elas bloqueiam mais de 100.000 vezes mais luz do que óculos de sol comuns.
São fabricados com um filtro de polímero preto ou com lâminas de Mylar metalizado que absorvem e refletem igualmente a radiação visível, ultravioleta e infravermelha.
COMO RECONHECER OS ÓCULOS DE ECLIPSE HOMOLOGADOS?
O selo ISO 12312-2 deve estar impresso nas hastes. Como dica, ao olhar através delas, só deve ser visível o disco solar, nada mais: nenhuma lâmpada acesa, nenhuma janela iluminada. Se for vista qualquer outra fonte de luz, o filtro não é suficiente.
Outras opções válidas para a observação direta incluem os filtros solares para telescópios e binóculos, que devem ser sempre colocados na lente objetiva, nunca na ocular, e a clássica projeção indireta com uma caixa estenopeica, que permite ver a imagem do Sol projetada sobre uma superfície sem expor os olhos em nenhum momento.
“Pode servir desde uma escumadeira de cozinha ou um coador até cruzar os dedos, deixando pequenos orifícios entre eles, ou o clássico furo em uma folha feito com a ponta de um lápis. Resumindo, um orifício bem pequeno por onde a luz possa passar”, esclarece Salobar.
Há um instante, “breve e mágico”, em que os óculos podem ser retirados sem risco: durante a fase de totalidade de um eclipse total de Sol, quando o disco lunar cobre completamente o solar.
Nesse momento, a coroa solar, aquela atmosfera externa tênue e luminosa que normalmente é invisível, se espalha pelo céu como um halo prateado. “É um dos espetáculos mais impressionantes que a natureza oferece e pode ser observado a olho nu”, afirma a pesquisadora.
No entanto, a janela de oportunidade é curta e exige atenção: assim que o primeiro clarão do Sol reaparecer pela borda da Lua, é preciso colocar os óculos novamente de imediato, pois “esse instante já seria suficiente para causar danos”.
“Os antigos, à sua maneira, já compreendiam que o Sol merecia um respeito especial. Hoje sabemos por quê: porque nossa retina é delicada, porque nosso olho funciona como uma lupa e porque a dor chega tarde demais, quando já não há mais nada a fazer. Um eclipse é uma oportunidade única para contemplar o cosmos com novos olhos. A condição é, precisamente, preservá-los para continuar a desfrutá-lo”, conclui a pesquisadora.
Na mesma linha, o diretor da unidade de Retina e Vítreo do Instituto Oftalmológico Fernández-Vega, Álvaro Fernández-Vega, ressalta que, embora observar esse evento “seja uma experiência memorável, olhar diretamente para o Sol sem a proteção adequada pode causar danos graves e permanentes aos olhos”.
O perigo de olhar diretamente para o Sol reside no fato de que sua luz pode danificar a retina. Dentro da retina, existe uma área especialmente sensível chamada fóvea, responsável pela visão mais precisa: graças a ela, podemos ler, distinguir pequenos detalhes ou perceber corretamente as cores.
“Essa área concentra uma grande quantidade de células fotorreceptoras, responsáveis por transformar a luz em sinais visuais. Por isso, qualquer lesão na fóvea pode provocar uma perda significativa da visão central ou, em alguns casos, irreversível”, alerta Fernández-Vega.
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