OLEKSANDRA TROIAN/ISTOCK - Arquivo
MADRID, 30 abr. (EUROPA PRESS) -
Uma revisão publicada na revista 'Clinical Reviews in Allergy & Immunology', com o apoio da Rede de Doenças Inflamatórias (RICORS-REI), identificou novos biomarcadores que poderiam transformar a abordagem clínica das alergias a alimentos vegetais e levá-la a um modelo de medicina personalizada e de precisão, melhorando a prevenção e o tratamento dessas alergias.
O trabalho, intitulado “Medicina de precisão na alergia a alimentos vegetais: uma revisão sistemática de biomarcadores sob uma abordagem clínica”, foi realizado também com o apoio — e no âmbito de pesquisa — da Sociedade Espanhola de Alergia e Imunologia Clínica (SEAIC).
A revisão, liderada pela Dra. María José Goikoetxea, da Clínica Universidade de Navarra, e cujos coautores principais são a Dra. Maria Luisa Somoza e o Dr. Emilio Núñez Borque, centra-se no papel fundamental dos biomarcadores — sinais e substâncias mensuráveis no organismo — para orientar o diagnóstico, estratificar o risco dos pacientes e orientar o tratamento.
“Esta revisão sistemática era necessária porque o campo da alergia a alimentos vegetais cresceu de forma muito heterogênea, estudando múltiplos biomarcadores em contextos distintos, mas sem uma integração clara voltada para a prática clínica”, explicou Núñez, pesquisador pós-doutorado Sara Borrell no Grupo de Pesquisa ‘Imunidade Tipo 2 e Doenças Alérgicas’.
“Embora disponhamos de múltiplos testes diagnósticos, nenhum deles, por si só, oferece um critério definitivo nem funciona da mesma forma em todas as populações. Organizar as ferramentas disponíveis, identificar novos biomarcadores e detectar lacunas de conhecimento era fundamental”, explicou Goikoetxea.
NOVOS BIOMARCADORES NA ALERGIA
Nesse contexto, os biomarcadores relacionados à microbiota (os microrganismos que coexistem de forma simbiótica com o corpo humano) estão demonstrando um papel emergente na alergia alimentar, segundo explica Goikoetxea. O estudo confirma a utilidade do sequenciamento da microbiota oral ou intestinal para detectar a sensibilização (o processo inicial em que o sistema imunológico reconhece uma substância inofensiva — alérgeno — como uma ameaça e produz anticorpos contra ela), e, além disso, sugere que também poderia ser útil para medir o limiar a partir do qual uma substância provoca uma reação, embora, neste último aspecto, as evidências não sejam tão abundantes.
O trabalho destaca também o potencial do teste de ativação de basófilos (BAT). Os basófilos são um tipo de glóbulos brancos e sua contagem pode indicar alterações no sistema imunológico. O estudo aponta que o BAT não só pode antecipar se um paciente tolerará um alimento, mas também estimar o limiar exato de reação e a gravidade do episódio alérgico.
Para realizar esta revisão, a equipe analisou 71 estudos clínicos de alta qualidade publicados entre 2019 e 2024. Segundo Núñez, a maioria dos biomarcadores analisados nesses trabalhos continua sendo os “clássicos”. Ou seja, aqueles que constituem a base da prática clínica atual em alergia, como a imunoglobulina E específica (IgE específica) ou os testes cutâneos.
“No entanto, há 22,5% dos estudos que se concentram em novos biomarcadores, ainda em fase de validação, o que reflete que o campo está começando a explorar abordagens mais inovadoras”, explica Núñez.
Entre esses novos biomarcadores, o pesquisador destaca a análise das características e alterações que ocorrem nas células dos pacientes, seja por meio da detecção da expressão de proteínas específicas (por exemplo, marcadores de ativação) ou da quantificação de diferentes populações celulares (por exemplo, variações no número de linfócitos). “Embora ainda não estejam totalmente incorporadas à prática clínica, essas abordagens emergentes têm um alto potencial”, ressalta.
No entanto, o estudo também lembra que a maioria dessas tecnologias ainda se encontra em fases iniciais de validação. Sua incorporação à prática clínica de rotina é limitada por fatores logísticos e econômicos, incluindo a necessidade de equipamentos especializados e pessoal altamente qualificado.
A PESQUISA SE CONCENTRA NA GRAVIDADE E NA TOLERÂNCIA
Para estruturar esta revisão, os pesquisadores classificaram as evidências em cinco áreas-chave: sensibilização, tolerância, gravidade, limiar clínico e acompanhamento terapêutico. A análise revelou uma tendência clara na pesquisa: a maioria dos estudos se concentra na gravidade (25 trabalhos) e na tolerância (23), baseando-se principalmente em marcadores clássicos já bem estabelecidos. No entanto, outras áreas importantes, como o limiar a partir do qual ocorre a reação alérgica ou a pesquisa sobre os mecanismos iniciais de sensibilização, estão muito menos desenvolvidas.
Essa distribuição indica que a pesquisa responde diretamente às necessidades mais imediatas da prática clínica diária; por exemplo, determinar se um paciente, especialmente uma criança, corre o risco de sofrer uma reação grave diante de uma exposição mínima.
Quanto aos alimentos com maior destaque na pesquisa, o amendoim é o alérgeno alimentar mais estudado em nível mundial, seguido por frutas secas e trigo. Por outro lado, há uma certa escassez de pesquisas centradas em frutas e sementes.
“Este trabalho, além de fornecer um quadro claro que organiza os biomarcadores de acordo com sua utilidade clínica real, revela lacunas importantes, especialmente em aspectos como o limiar clínico ou a evolução para a tolerância, que são fundamentais para a tomada de decisões médicas”, destaca Núñez.
Em conjunto, as descobertas apontam para um futuro em que exista uma alergologia de precisão, capaz de adaptar as decisões clínicas às características biológicas individuais de cada paciente. No entanto, o desafio não é apenas científico, mas também estrutural: transferir esses avanços do laboratório para o consultório exigirá investimento, padronização e acesso às novas tecnologias.
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