VALÊNCIA 14 jul. (EUROPA PRESS) -
Um estudo internacional recente revela novas descobertas sobre o comportamento do microquasar SS 433, um dos sistemas estelares mais exóticos conhecidos na galáxia. Os resultados, publicados na prestigiosa revista *Nature Astronomy*, servem de base para a investigação de outros fenômenos do universo.
A pesquisa é liderada por Jose López Miralles, ex-membro do Departamento de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Valência (UV) e atualmente cientista de operações espaciais na Agência Espacial Europeia, e conta com a participação de Manel Perucho Pla e José María Martí, professores e pesquisadores do Departamento de Astronomia e Astrofísica e do Observatório Astronômico da UV, além de David Vallés Pérez, que integrou o mesmo departamento durante o estudo, detalha a instituição acadêmica.
Os microquasares são sistemas estelares binários (duas estrelas orbitando juntas), nos quais uma delas é um objeto compacto (um buraco negro ou uma estrela de nêutrons) que captura matéria de sua companheira. Esse processo forma um disco de acreção ao redor do objeto compacto, que emite um par de jatos potentes de plasma no espaço, também conhecidos como jets, que atuam como aceleradores cósmicos de partículas. A ejeção desses fluxos de partículas é a consequência mais espetacular da transferência de matéria entre os dois corpos, provocada pela interação entre a gravidade, as partículas e os campos magnéticos.
O corpo celeste objeto de estudo apresenta dois jatos potentes. O trabalho tem como objetivo estabelecer uma possível conexão entre a topologia do campo magnético e a natureza (contínua ou discreta) dos jatos. Dessa forma, “oferece uma possível solução para um comportamento complexo que ainda não havia sido explicado”, destaca Manel Perucho.
“A formação desses jatos é um dos fenômenos mais energéticos do universo — destaca Jose López Miralles —. Mesmo assim, ainda há dúvidas sobre sua origem e evolução. O microquasar SS 433 é um laboratório natural excepcional para responder a esse tipo de pergunta”.
“No centro do microquasar existe um sistema binário formado por uma estrela ativa e um buraco negro”, observa Perucho. “O buraco negro atrai as camadas externas da estrela que chegam à sua zona de influência gravitacional. Nesse processo, forma-se um jato de plasma que se propaga por distâncias da ordem de dezenas de anos-luz, interage com o restante da supernova que originou o buraco negro e gera uma estrutura conhecida como Nebulosa do Manatí, que se encontra a cerca de 18.000 anos-luz da Terra, na constelação de Áquila”.
REVELAM DETALHES SOBRE OS JATOS RELATIVÍSTICOS EM SS 433
Por meio de simulações numéricas de última geração que modelam a evolução dos campos magnéticos do jato, realizadas em supercomputadores potentes da Rede Espanhola de Supercomputação, o trabalho evidencia que a topologia do campo magnético observada pode surgir naturalmente a partir de colisões entre ejeções de matéria expelidas com velocidades ligeiramente diferentes. As interações ocorrem em escalas inferiores a um parsec, uma unidade frequentemente utilizada em astronomia que equivale a 3,26 anos-luz.
Essas interações também dão origem à formação de nódulos de plasma mais massivos, dinamicamente mais estáveis e, portanto, com maior probabilidade de se propagarem por distâncias maiores sem se desintegrarem. “Para realizar essas simulações, foram utilizados quatro milhões de horas de CPU”, afirma Miralles.
A pesquisa “demonstra, mais uma vez, que as simulações numéricas representam o laboratório no qual é possível aproximar-se da compreensão de fenômenos e eventos que, sem elas, seriam intratáveis”, conclui José Mª Martí. Além disso, “apresenta uma possível explicação para o comportamento do objeto SS 433 em uma região na qual ocorrem mudanças significativas tanto na orientação do campo magnético que podemos observar quanto na dinâmica do sistema”.
O MARCO PARA COMPREENDER NOVOS ENIGMAS
A equipe de pesquisa conclui que os resultados oferecem uma explicação plausível e coerente para um conjunto de observações do microquasar estudado. Além disso, “abrem caminho para a aplicação dessas ideias à análise de outros sistemas e podem ajudar a compreender alguns dos fenômenos mais extremos do universo”.
Portanto, continuar trabalhando no quadro iniciado, acrescenta a equipe, “será fundamental para compreender como se propagam os jatos dessa enigmática fonte galáctica”.
Manel Perucho é o diretor do grupo de pesquisa em Astrofísica Relativista e de Altas Energias da UV, do qual José Mª Martí também faz parte. A análise foi realizada no âmbito da tese de doutorado de Jose López Miralles, que atualmente trabalha na SSC Space Netherlands como cientista de operações espaciais para a Agência Espacial Europeia.
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