MADRID 3 out. (EUROPA PRESS) -
Geólogos e biólogos liderados pela Universidade do Colorado em Boulder ressuscitaram micróbios antigos que haviam ficado presos no gelo, em alguns casos por até 40.000 anos.
O estudo é uma amostra do permafrost do planeta. Esse é o nome de uma mistura congelada de solo, gelo e rocha que se encontra sob quase um quarto da terra no hemisfério norte. Trata-se de um cemitério gelado onde os restos de animais e plantas, juntamente com a abundância de bactérias e outros microorganismos, ficaram presos no tempo.
O grupo descobriu que, se o permafrost descongelar, leva algum tempo para que os micróbios que ele contém se tornem ativos. Mas depois de alguns meses, como se estivessem acordando de um longo cochilo, eles começam a formar colônias prósperas.
"Essas não são amostras mortas, longe disso", disse Tristan Caro, principal autor do estudo e ex-aluno de pós-graduação em ciências geológicas da Universidade do Colorado em Boulder, em um comunicado. Elas ainda são capazes de abrigar vida robusta, capaz de decompor a matéria orgânica e liberá-la como dióxido de carbono.
Caro e seus colegas publicaram suas descobertas em setembro no Journal of Geophysical Research: Biogeosciences.
A pesquisa tem amplas implicações para a saúde do Ártico e de todo o planeta, acrescentou Sebastian Kopf, coautor do estudo.
DESCONGELAMENTO ALARMANTE
Atualmente, o permafrost do mundo está descongelando em um ritmo alarmante devido à mudança climática induzida pelo homem. Os cientistas temem que essa tendência possa desencadear um ciclo vicioso. À medida que o permafrost descongela, os micróbios que vivem no solo começam a decompor a matéria orgânica, liberando-a no ar na forma de dióxido de carbono e metano, ambos gases de efeito estufa potentes.
"Essa é uma das maiores incógnitas em termos de feedbacks climáticos", disse Kopf, professor de ciências geológicas da Universidade do Colorado em Boulder. "Como o derretimento de todo esse solo congelado, onde sabemos que há toneladas de carbono armazenado, afetará a ecologia dessas regiões e a taxa de mudança climática?"
COMPRIMENTO LONGO
Para explorar essas incógnitas, os pesquisadores viajaram para um local único: o Permafrost Tunnel do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA. Essa instalação de pesquisa se estende por mais de 107 metros através do solo congelado sob a região central do Alasca.
Quando Caro entrou no túnel, que tem a largura aproximada de um poço de mina, ela pôde ver os ossos de antigos bisões e mamutes saindo das paredes.
"A primeira coisa que você percebe quando entra é que o cheiro é terrível. Parece um porão mofado que ficou abandonado por muito tempo", disse Caro, que agora é pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Tecnologia da Califórnia. "Para um microbiologista, isso é muito empolgante porque os cheiros interessantes geralmente são microbianos."
No estudo atual, os pesquisadores coletaram amostras de permafrost com idades entre alguns milhares e dezenas de milhares e dezenas de milhares de anos das paredes do túnel. Em seguida, adicionaram água às amostras e as incubaram em temperaturas de 3 e 12 graus Celsius, frias para os seres humanos, mas extremamente altas para o Ártico.
"Queríamos simular o que acontece em um verão no Alasca sob condições climáticas futuras, em que essas temperaturas atingem mais profundamente o permafrost", disse Caro.
Com um detalhe: os pesquisadores contaram com água composta de átomos de hidrogênio excepcionalmente pesados, também conhecidos como deutério. Isso permitiu que eles rastreassem como os micróbios absorveram a água e, em seguida, usaram o hidrogênio para construir as membranas de material gorduroso que envolvem todas as células vivas.
O que eles observaram foi surpreendente. Nos primeiros meses, essas colônias cresceram lentamente, em alguns casos substituindo apenas uma em cada 100.000 células por dia. No laboratório, a maioria das colônias de bactérias pode se renovar completamente em questão de horas.
Porém, em seis meses, tudo mudou. Algumas colônias de bactérias chegaram a produzir estruturas viscosas chamadas "biofilmes" que podem ser vistas a olho nu.
EM CÂMARAS SELADAS
Caro disse que esses micróbios provavelmente não poderiam infectar as pessoas, mas a equipe os manteve em câmaras seladas mesmo assim.
Ele acrescentou que as colônias não pareciam se reativar muito mais rapidamente em temperaturas mais altas. Os resultados podem oferecer lições para o descongelamento do permafrost no mundo real: após uma onda de calor, pode levar vários meses para que os micróbios se tornem ativos o suficiente para começar a emitir gases de efeito estufa no ar em grandes quantidades.
Em outras palavras, quanto mais longos forem os verões no Ártico, maiores serão os riscos para o planeta.
"Pode haver um único dia quente no verão do Alasca, mas o que importa muito mais é o prolongamento da temporada de verão, a ponto de essas temperaturas quentes se estenderem até o outono e a primavera", disse Caro.
Ele acrescentou que ainda há muitas questões em aberto sobre esses micróbios, como, por exemplo, se os organismos antigos se comportam da mesma forma em locais de todo o mundo.
"Há uma enorme quantidade de permafrost no mundo, no Alasca, na Sibéria e em outras regiões frias do norte", disse Caro. "Nós só coletamos amostras de uma pequena parte dele.
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