MADRID 22 ago. (EUROPA PRESS) -
A Universidade de Navarra desenvolveu um novo método personalizado para quantificar com precisão a dose de radiação recebida pelo sangue durante os tratamentos de radioterapia contra o câncer, o que, segundo a instituição, representa um avanço em direção a uma medicina oncológica "mais personalizada, preventiva e segura".
A pesquisa foi liderada por Marina García-Cardosa, pesquisadora do grupo de Física Médica e Biofísica (PhysMed) da Faculdade de Ciências, e reconhecida por instituições internacionais. O estudo foi realizado em colaboração com médicos e pesquisadores do Centro de Câncer da Universidade de Navarra.
Historicamente, a radioterapia tem concentrado seus esforços em evitar danos a órgãos fixos próximos ao tumor, mas o sangue - um tecido móvel e vital que viaja por todo o corpo - foi deixado de fora dos cálculos dosimétricos usuais. A tese de doutorado defendida pelo Dr. García-Cardosa propõe reverter essa omissão com uma abordagem inovadora: tratar o sangue como um "órgão em risco" e adaptar o tratamento para protegê-lo quando for clinicamente viável.
"Cada célula sanguínea que passa por um campo de radiação recebe uma pequena quantidade de energia. Embora essa dose possa parecer baixa, seu efeito pode se acumular ao longo do tratamento e afetar o sistema imunológico ou causar toxicidade hematológica", explica o pesquisador.
UMA FERRAMENTA COM POTENCIAL CLÍNICO
O método, chamado FLIP-HEDOS, integra informações anatômicas específicas do paciente, padrões reais de circulação sanguínea e dados do plano de tratamento de radioterapia para simular com precisão como e quanto sangue é irradiado. Graças à sua abordagem multidisciplinar - combinando física médica, biofísica, oncologia e engenharia - a tecnologia permite o cálculo de cenários personalizados e a avaliação da exposição cumulativa em tratamentos prolongados.
Os resultados revelam que fatores como a proximidade do tumor a grandes vasos sanguíneos, o tipo de radioterapia administrada e a variabilidade do débito cardíaco de cada paciente (a quantidade de sangue que o coração bombeia por minuto) influenciam diretamente a irradiação do sangue e, consequentemente, sua resposta imunológica.
"O sistema imunológico é particularmente sensível à radiação. Células críticas como os linfócitos - responsáveis pela coordenação da defesa do corpo - podem ser afetadas até mesmo por doses muito baixas. Se um número significativo dessas células for danificado, a capacidade do organismo de responder a infecções, inflamações ou até mesmo ao próprio tumor pode ser comprometida. Isso se torna ainda mais importante em tratamentos que combinam radioterapia com imunoterapia", explica García-Cardosa.
De acordo com a Universidade de Navarra, a participação do Cancer Center Universidad de Navarra foi fundamental para a integração da experiência clínica em tratamentos avançados de câncer. Além disso, a pesquisa se beneficiou da assessoria do professor Harald Paganetti, referência internacional em física médica no Massachusetts General Hospital e na Harvard Medical School.
RECONHECIMENTO INTERNACIONAL E APLICAÇÕES FUTURAS
Este trabalho foi distinguido como uma das melhores comunicações orais pela Sociedade Europeia de Radioterapia e Oncologia (ESTRO) na Áustria (maio de 2025) e em congressos especializados, como a Conferência da Sociedade de Pesquisa em Radiação nos Estados Unidos (setembro de 2024) e pela Sociedade Espanhola de Física Médica em nível nacional (maio de 2025). Além disso, parte de seus resultados foi publicada nas revistas científicas "Radiation Physics and Chemistry", "Physics in Medicine & Biology" e "Clinical Cancer Research".
Quanto ao seu potencial em tratamentos de câncer, os autores indicam que a estrutura FLIP-HEDOS poderia ser útil para simular a distribuição de medicamentos ou radiofármacos, bem como para avaliar novas estratégias de radioproteção e toxicidade hematológica. "Pensar no sangue como um órgão dinâmico a ser protegido representa uma mudança de paradigma na radioterapia moderna. Essa pesquisa não apenas responde a uma necessidade científica, mas também a um imperativo clínico: oferecer tratamentos mais seguros sem comprometer a eficácia oncológica", enfatiza o professor Javier Burguete, professor de Física Médica e Biofísica da Universidade de Navarra e diretor da tese.
CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE GLOBAL SOBRE MEDICINA PERSONALIZADA
Para a Universidade de Navarra, em um contexto internacional no qual a medicina de precisão e a proteção do sistema imunológico ocupam um lugar central na agenda científica, essa pesquisa propõe uma inovação tecnológica aplicada à saúde com um impacto real na qualidade de vida dos pacientes.
Além disso, ele acredita que esse avanço levanta novas questões sobre como otimizar a radioterapia e seu efeito no sistema imunológico, ajustar a duração das sessões ou redesenhar a direção dos feixes de radiação para minimizar a exposição do sangue.
A pesquisa contou com o apoio da Agência Espanhola de Pesquisa - dependente do Ministério da Ciência e Inovação -, do Governo de Navarra, da Fundación la Caixa e da Associação de Amigos da Universidade de Navarra, entre outras instituições.
Seus resultados, diz Burguete, "demonstram que a proteção do sangue pode ser importante e influenciar a evolução de um paciente após o tratamento de um tumor". À medida que essas descobertas forem incorporadas à prática clínica, elas poderão marcar um ponto de virada no planejamento terapêutico e no gerenciamento dos efeitos colaterais na oncologia por radiação.
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