MADRID 16 set. (EUROPA PRESS) -
A Real Sociedade Matemática Espanhola (RSME) destacou a “preocupação urgente” diante da “falta de transparência” do modelo de inteligência artificial utilizado pela OpenAI na resolução do problema de Navier-Stokes, “por se tratar de uma ferramenta interna e não acessível ao público”.
Foi o que afirmou a instituição em um comunicado, divulgado pela Europa Press, na qual reconhece que a proposta de solução para o problema de Navier-Stokes apresentada recentemente pela OpenAI “constitui um marco de indubitável relevância para a comunidade matemática internacional”, que evidencia um modelo de pesquisa baseado na colaboração direta entre seres humanos e sistemas de inteligência artificial.
No entanto, ela esclarece que esse avanço “não surge do nada”, mas “baseia-se em uma longa trajetória de trabalho coletivo desenvolvida ao longo de décadas por matemáticos de todo o mundo”, entre os quais se destacam as contribuições anteriores de Diego Córdoba, Luis Martínez-Zoroa e Fan Zheng, bem como os avanços recentes de Levent Alpöge e Tristan Buckmaster.
Sem menosprezar a rapidez com que esse resultado foi alcançado, a RSME considera “indispensável” refletir sobre as implicações profundas desse novo paradigma.
Assim, ela destaca que a pesquisa matemática “vai muito além da mera resolução de problemas ou da produção em massa de respostas ou enunciados cuja veracidade deve ser verificada”.
“Historicamente, nossa disciplina construiu um corpo abstrato de métodos e ideias cujo objetivo final é a compreensão conceitual. Os grandes problemas em aberto sempre funcionaram como faróis orientadores; sua resolução não apenas fornece uma resposta, mas também dá início a um processo humano e coletivo de debates e discussões que acaba validando esse conhecimento e incorporando-o, quando necessário, à matemática ensinada na escola e na universidade”, afirma a declaração.
Em particular, a RSME considera “essencial” distinguir entre a obtenção de uma resposta correta e a construção de uma demonstração matemática “rigorosa, compreensível e verificável” pela comunidade científica.
Nesse ponto, defende que uma afirmação sobre a resolução de um problema aberto “não pode basear-se exclusivamente na confiança depositada em um sistema de inteligência artificial, por mais avançado que seja, nem na plausibilidade dos argumentos que ele produza”.
Para a organização, “a validação independente, a identificação das ideias essenciais e a possibilidade de explicar e reproduzir as etapas de uma demonstração constituem requisitos indispensáveis do conhecimento matemático”: “A inteligência artificial pode contribuir de maneira extraordinária para esses processos, mas não deve substituí-los”.
RISCO DA IA NA PESQUISA
A RSME alerta que existe “um risco real” de que o impulso das empresas de tecnologia em utilizar a matemática como um mero banco de testes (benchmark) “distorça o sentido essencial da pesquisa”.
Nesse aspecto, observa-se um “grave desalinhamento” entre os objetivos comerciais dos desenvolvedores de IA e as metas científicas e educacionais da comunidade matemática. “A produção acelerada de respostas diretas ameaça interromper a cadeia de transmissão humana e o desenvolvimento de habilidades analíticas que tradicionalmente são cultivadas ao longo de anos de formação em pesquisa”, adverte.
A RSME considera especialmente necessário proteger as oportunidades de formação e desenvolvimento profissional das novas gerações de matemáticos. Em sua opinião, o aprendizado da pesquisa “requer tempo, esforço, contato com pesquisadores experientes e a oportunidade de enfrentar problemas cuja dificuldade não se mede apenas pela possibilidade de se obter uma resposta”.
“Qualquer transformação tecnológica da atividade matemática deve preservar esses espaços de aprendizagem e evitar que o acesso desigual a ferramentas avançadas amplie as disparidades existentes entre pesquisadores, instituições e países”, destaca a entidade, que ressalta o valor “de uma sólida formação em matemática”.
DÚVIDAS SOBRE A AUTORIA E O RECONHECIMENTO DO TRABALHO ANTERIOR
Por outro lado, ela ressalta que a apresentação apressada de resultados “levanta dúvidas legítimas” sobre a autoria, o crédito e o reconhecimento adequado dos trabalhos anteriores nos quais se baseiam.
Em um contexto em que a contribuição dos sistemas de inteligência artificial pode ser “difícil de delimitar”, a RSME ressalta que “é especialmente importante estabelecer com clareza quais ideias, desenvolvimentos e verificações correspondem aos pesquisadores e quais provêm das ferramentas utilizadas, bem como reconhecer adequadamente as contribuições anteriores que tornam possível um determinado avanço”.
“A tecnologia oferece o potencial de enriquecer e acelerar o estudo da matemática, mas seu impacto positivo ou destrutivo dependerá, em última instância, das decisões tomadas pelos seres humanos responsáveis por seu desenvolvimento e regulamentação”, acrescenta a RSME, que defende uma inteligência artificial a serviço da pesquisa matemática, capaz de ampliar as capacidades dos seres humanos “sem empobrecer a compreensão, a criatividade nem a dimensão coletiva da ciência”.
Nesse contexto, prevê que o verdadeiro progresso “não consistirá apenas em resolver problemas cada vez mais difíceis, mas também em tornar as ideias que os sustentam acessíveis, verificáveis e fecundas para as gerações futuras”.
Por tudo isso, a RSME se une ao reconhecimento da conquista alcançada, ao mesmo tempo em que insta as instituições, às empresas de tecnologia e à comunidade de pesquisadores a “garantir o acesso aberto e transparente aos modelos, assegurar o respeito rigoroso à autoria e à citação de trabalhos anteriores, preservar a igualdade de oportunidades e defender a formação dos estudantes e o diálogo humano como o cerne indispensável do progresso matemático”.
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