MADRID 27 maio (EUROPA PRESS) -
A diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), María Neira, alertou que a integração do risco climático no planejamento da saúde “continua sendo insuficiente”, uma vez que ainda “existe uma lacuna” entre o conhecimento científico e sua aplicação na prática clínica.
“É necessário avançar rumo a uma integração real entre saúde humana, animal e ambiental, superando barreiras institucionais e setoriais”, destacou Neira na inauguração do III Congresso Nacional One Health, organizado pela Plataforma One Health em colaboração com o Instituto de Saúde Carlos III (ISCIII).
Durante sua exposição, Neira explicou que, durante anos, as mudanças climáticas foram explicadas como um problema ambiental. “No entanto, cada vez fica mais evidente que estamos diante de uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. Essa tem sido, provavelmente, uma das principais lacunas na comunicação da crise climática”, indicou.
Nesse ponto, ele ressaltou que têm sido utilizados indicadores técnicos — emissões, graus de temperatura — sem traduzi-los em seu impacto real: mais doenças cardiovasculares, mais crises respiratórias, mais infecções, mais mortes prematuras ou a expansão de doenças transmitidas por vetores.
Essa realidade é ainda mais tangível na Europa, especialmente no sul. “As ondas de calor serão mais frequentes e intensas, a poluição urbana continuará afetando milhões de pessoas, a escassez de água se tornará um fator crítico e os incêndios florestais terão consequências cada vez mais graves para a saúde”, destacou Neira.
Nessa linha, ela observou que a crise climática já não pode ser entendida sem a saúde; ela atua como um multiplicador dos riscos que os sistemas de saúde já estão enfrentando. Por isso, da OMS, a mensagem é clara: “Não se trata de um investimento de longo prazo, mas de benefícios imediatos. Reduzir a poluição do ar, transformar o transporte ou apostar em energias limpas não apenas reduz as emissões: salva vidas hoje”.
“'ONE HEALTH' É FALAR DO FUTURO DA SAÚDE PÚBLICA”
Por sua vez, a diretora do ISCIII, Marina Pollán, destacou que “One Health” “é falar do futuro da saúde pública” e ressaltou o compromisso do Instituto com essa abordagem integradora. Ela também observou que a saúde humana “não pode ser entendida sem a saúde animal e ambiental, especialmente diante de desafios globais como pandemias, mudanças climáticas e resistência aos antimicrobianos, entre outros”.
“A colaboração em iniciativas como este congresso ‘One Health’ reforça nossa vocação de serviço público para gerar conhecimento científico útil que proteja a saúde das pessoas, dos animais e do nosso planeta”, afirmou.
Em seguida, Maite Martín, presidente da Plataforma One Health, órgão responsável pela organização do Congresso, destacou que “chegou a hora de a comunidade científica sair dos laboratórios e dos escritórios onde se gera o conhecimento para participar ativamente da vida pública. Cabe agora à comunidade científica um exercício de responsabilidade e, também, de autocrítica".
Para a presidente da Plataforma, "a desinformação e as notícias falsas que ameaçam a saúde individual e coletiva não cresceram apenas pela força de quem as difunde, mas também pelos espaços que deixamos vazios quando não participamos de forma ativa, clara e constante na vida pública. Somente uma ciência transparente, comprometida e com vocação pública — que participe, explique e dialogue — pode combater eficazmente essa ameaça e proteger o bem-estar da sociedade”.
IMPLEMENTAÇÃO DA ABORDAGEM “ONE HEALTH” NAS POLÍTICAS PÚBLICAS
O primeiro dia do Congresso foi palco da apresentação do Guia de implementação da abordagem 'One Health' nas políticas públicas. Trata-se de um documento de consenso, resultado do trabalho conjunto de organizações provenientes de diferentes áreas — saúde, meio ambiente, âmbito social, acadêmico e setorial — que buscam avançar de forma decidida do marco teórico para a aplicação prática dessa abordagem nas políticas públicas.
Nesse sentido, o guia propõe um conjunto de orientações operacionais para acompanhar as instituições nas etapas necessárias para traduzir a abordagem “One Health” em mudanças reais e sustentáveis, centradas nos seguintes domínios: governança e marco institucional; vigilância, saúde ambiental e saúde pública preventiva; saúde nos territórios e determinantes sociais (obesidade e sua relação com a abordagem “One Health” e as resistências antimicrobianas), e educação, pesquisa e capacidades transformadoras.
"Este Guia surge com a ambição de servir ao bem comum, facilitando que a abordagem 'One Health' se traduza em ação, por meio de orientações compartilhadas que promovam políticas integradas e preventivas, tendo a saúde e a justiça social como eixos centrais. Sua elaboração simboliza a maturidade da Plataforma e seu firme compromisso com uma governança da saúde baseada na colaboração, na evidência e na corresponsabilidade entre setores”, concluiu Martín.
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