GRANADA 24 abr. (EUROPA PRESS) -
Um estudo da Universidade de Granada, com base na análise do desgaste dentário e na identificação do sexo cromossômico, permite estabelecer que a produção têxtil foi uma atividade desenvolvida por mulheres durante milhares de anos.
Sulcos nos dentes de mulheres pré-históricas permitiram reconstruir, milhares de anos depois, como os papéis de gênero eram aprendidos, praticados e transmitidos nas comunidades do sudeste da Península Ibérica.
Um novo estudo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa GEA da Universidade de Granada (UGR), publicado na prestigiosa revista Journal of Archaeological Science, revela como essas identidades eram construídas naquele território a partir de práticas cotidianas que ficaram inscritas no próprio corpo.
A pesquisa demonstra que o artesanato têxtil provocou diferentes tipos de marcas nos dentes, o que permite explorar a construção social do gênero há mais de cinco milênios.
O trabalho combina, pela primeira vez, a análise do desgaste dentário não mastigatório com técnicas biomoleculares de última geração para determinar o sexo biológico a partir de uma proteína chamada amelogenina, presente no esmalte dentário e diferenciável cromossomicamente.
O estudo baseia-se nas populações enterradas nas necrópoles megalíticas de Panoría (Darro, Granada) e Los Milanes (Abla, Almería).
Nelas, os pesquisadores analisaram mais de 1.400 dentes, identificando padrões específicos de desgaste produzidos pelo uso da dentição na manufatura têxtil.
Trata-se de sulcos profundos, esmalte polido e microestriacões, produzidos pelo contato repetitivo com fibras vegetais como linho, esparto ou cânhamo, o que se associa ao uso dos dentes como uma espécie de “terceira mão” para a elaboração e fixação de fios.
Essas marcas aparecem exclusivamente nos dentes anteriores, nos incisivos e caninos, especialmente na mandíbula, o que reforça sua interpretação funcional.
Graças aos avanços nos estudos proteômicos, é possível identificar o sexo cromossômico a partir da proteína amelogenina presente no esmalte dentário.
Assim, foi possível determinar que todos os dentes com marcas relacionadas ao artesanato têxtil pertenciam a mulheres. Essa associação demonstra que se tratava de uma atividade especificamente feminina, realizada de forma reiterada e socialmente reconhecível.
A partir dessas atividades, é possível analisar como as identidades de gênero foram construídas.
A associação com a atividade têxtil permitiu às mulheres pré-históricas construir uma forma de ser e de estar no mundo, transversal a diferentes grupos sociais e culturais do sudeste peninsular.
De forma especialmente significativa, essa forma de construir identidades de gênero se manteve apesar das mudanças culturais que ocorreram ao longo da pré-história do sudeste peninsular.
Durante milhares de anos, as marcas nos dentes mostram que a associação das mulheres às atividades têxteis permaneceu inalterada.
Esse enraizamento de longo prazo destaca a profundidade histórica das identidades de gênero na pré-história recente do sul da Península Ibérica e seu papel na configuração das estruturas sociais.
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