MADRID, 29 ago. (EUROPA PRESS) -
Mais da metade dos jovens adultos aparentemente saudáveis e sem histórico de doenças cardiovasculares apresenta aterosclerose silente, uma condição responsável pela maioria das doenças cardiovasculares, de acordo com um novo estudo internacional do qual participou o Centro Nacional de Pesquisas Cardiovasculares Carlos III (CNIC).
Assim, a aterosclerose começa muito antes do surgimento dos primeiros sintomas, de acordo com esse estudo internacional liderado pelo Dr. Borja Ibáñez, diretor científico do CNIC, cardiologista do Hospital Universitário Fundação Jiménez Díaz e chefe de grupo no CIBER de Doenças Cardiovasculares (CIBERCV), e pelo Dr. Henning Bundgaard, professor de Cardiologia no Rigshospitalet de Copenhague (Dinamarca).
Os resultados, apresentados em uma sessão “Hot Line” do Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC 2026) e publicados no “The New England Journal of Medicine”, mostram que, dos mais de 16.000 participantes incluídos no estudo, 57,1% apresentavam placas de aterosclerose, apesar de não terem desenvolvido sintomas nem terem sido previamente diagnosticados com doença cardiovascular.
A aterosclerose é a principal causa de doença cardiovascular e é responsável pela maioria dos infartos do miocárdio e dos derrames. A cada ano, cerca de 20 milhões de pessoas morrem de doenças cardiovasculares em todo o mundo, e a maioria dessas mortes é causada pela aterosclerose. No entanto, a doença pode permanecer assintomática por décadas, enquanto as placas de ateroma se desenvolvem progressivamente nas artérias.
O estudo parte de uma ideia simples, mas revolucionária: passar do modelo atual, baseado na estimativa da probabilidade de doença cardiovascular a partir de fatores de risco tradicionais, como pressão arterial, colesterol e tabagismo, para um novo paradigma no qual a doença seja detectada diretamente por meio de técnicas de imagem antes que apresente sintomas.
Dessa forma, as intervenções preventivas e o tratamento dos fatores de risco poderiam ser orientados pela presença real da aterosclerose silenciosa, e não apenas por uma estimativa indireta do risco.
Os dados provêm da primeira fase do REACT, um dos maiores estudos realizados até o momento para mapear a presença de aterosclerose silente ao longo da vida adulta.
Nesta primeira etapa, foram recrutadas 16.808 pessoas com idades entre 18 e 70 anos, todas sem histórico conhecido de doença cardiovascular. Cada participante foi avaliado por meio de técnicas avançadas de imagem para detectar placas de aterosclerose nas artérias carótidas, femorais e coronárias.
Além disso, foram analisados fatores de risco cardiovasculares, biomarcadores no sangue, amostras para estudos ômicos e imagens da retina, gerando um dos bancos de dados mais completos sobre aterosclerose desenvolvidos até o momento.
AFETA 1 EM CADA 13 JOVENS ENTRE 18 E 29 ANOS
Os dados apresentados agora indicam que a doença está presente mesmo em adultos muito jovens. Aproximadamente uma em cada 13 pessoas com idades entre 18 e 29 anos já apresentava aterosclerose em alguma artéria do corpo, proporção que aumentava progressivamente com a idade até atingir 9 em cada 10 pessoas entre 60 e 70 anos.
Além disso, a maioria das pessoas que apresenta aterosclerose nas artérias do coração (coronárias) também a apresenta nas artérias do pescoço ou das pernas (carótidas ou femorais). Isso é importante do ponto de vista do rastreamento, já que o exame por ultrassom das artérias carótidas e femorais é mais fácil, rápido e não invasivo.
“Em nosso paradigma, os aparelhos de ultrassom portáteis, que podem ser utilizados por qualquer profissional de saúde, serão adotados como padrão para o rastreamento de doenças cardiovasculares desde as fases iniciais da vida”, afirma Ibáñez.
DIFERENÇAS ENTRE HOMENS E MULHERES
O estudo também revela diferenças importantes entre homens e mulheres. Nos homens, a prevalência aumentava desde fases mais precoces, com um perfil aterosclerótico entre cinco e dez anos mais precoce do que o das mulheres.
Nas mulheres, o aumento mais acentuado foi observado entre os 40 e os 60 anos, um período que coincide, em termos gerais, com a transição menopáusica. Essas descobertas apontam para a conveniência de estudar estratégias preventivas adaptadas ao sexo e à fase da vida.
Nesse sentido, o CNIC mantém aberta uma linha de pesquisa paralela e complementar dedicada ao estudo da doença aterosclerótica na mulher.
UMA NOVA FORMA DE PREVENÇÃO
Outra das descobertas mais relevantes é que os métodos convencionais utilizados atualmente para estimar o risco cardiovascular (escalas de risco como o SCORE2) identificam apenas uma pequena proporção das pessoas que já apresentam aterosclerose silente.
Para Ibáñez, esses resultados refletem a necessidade de evoluir para uma nova forma de prevenir as doenças cardiovasculares. “Durante décadas, estimamos o risco cardiovascular com base em fatores como idade, pressão arterial ou colesterol. Este trabalho demonstra que agora podemos dar um passo além e detectar diretamente a doença antes que ela cause um infarto ou um AVC”.
Na opinião dele, “a prevenção cardiovascular do futuro deve ser mais precisa e personalizada. Se identificarmos a aterosclerose em seus estágios iniciais, poderemos intervir mais cedo, adaptar melhor os tratamentos e reduzir a carga da doença cardiovascular”.
O professor Bundgaard considera que os resultados representam uma oportunidade única para transformar a prevenção cardiovascular. “Até agora, as decisões preventivas baseavam-se em uma estimativa de risco, mas não sabíamos se a doença já estava presente. O REACT demonstra que a aterosclerose pode ser detectada décadas antes do surgimento das manifestações clínicas e fornece o atlas mais completo da evolução dessa doença ao longo da vida adulta”, destacou.
O pesquisador acrescenta que os resultados obtidos constituem a base científica necessária para avaliar um novo modelo preventivo. “Identificar e tratar a aterosclerose assintomática o mais cedo possível é fundamental para reduzir a carga global de doenças cardiovasculares. Nossos resultados apoiam a realização de estudos prospectivos que avaliem se uma estratégia preventiva orientada por técnicas de imagem, inclusive utilizando ultrassom portátil, pode melhorar os padrões atuais. Se isso for confirmado, significará a incorporação da medicina de precisão à doença cardiovascular mais comum”, concluiu.
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático