Publicado 26/10/2026 09:10

Lula consegue uma recuperação histórica e inicia seu quarto mandato sob a pressão de um Congresso hostil

BRASÍLIA, 26 de outubro de 2026  -- O atual presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (C), candidato do Partido dos Trabalhadores, no poder, profere um discurso após sua vitória no segundo turno das eleições presidenciais em São Paulo, Brasil, em 2
Paulo Lopes / Xinhua News / Europa Press

O presidente brasileiro enfrenta grandes desafios, como a estabilidade fiscal e o combate à insegurança nas ruas

Lula se destaca como líder da esquerda latino-americana em meio à expansão dos governos conservadores na região

MADRID, 26 out. (EUROPA PRESS) -

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu neste domingo renovar seu mandato, já o quarto, contra seu rival, o senador de extrema direita Flávio Bolsonaro, em uma eleição que já é histórica por ser a única, até o momento, em que o candidato vencedor perdeu no primeiro turno.

Lula superou amplamente as previsões das pesquisas mais otimistas, que apontavam para um empate técnico na disputa, na melhor das hipóteses para ele. O líder brasileiro venceu com 51,79% dos votos, superando até mesmo o resultado das eleições de 2022, nas quais o ex-presidente Jair Bolsonaro, assim como fez seu filho também nesta ocasião, não reconheceu os resultados.

A vitória da esquerda ocorre em um contexto de forte polarização política e social, pelo qual Lula da Silva terá que passar novamente; na noite de sua vitória, ele estendeu a mão para aqueles que não votaram nele. “Quero dizer a vocês que, uma vez que vencemos as eleições, não temos mais adversários. Tenho que governar para 215 milhões”, afirmou o recém-eleito.

Essa profunda polarização representa um grande desafio para a governabilidade do futuro governo, que, assim como na legislatura anterior, terá de lidar com um Congresso onde as forças conservadoras são maioria e no qual, mais uma vez, o bloco lobista do “centrão” será o verdadeiro árbitro da disputa.

Como já é habitual, a região Nordeste do Brasil — onde os programas sociais dos governos de Lula tiveram maior alcance — não lhe deu as costas e foi, mais uma vez, um bastião inexpugnável, com mais de 60% dos votos em vários estados, neutralizando boa parte da vantagem inicial de Bolsonaro.

A essa vantagem incontestável no Nordeste soma-se a mobilização alcançada nas periferias e zonas industriais dos maiores centros urbanos do Sudeste, como São Paulo ou Rio de Janeiro, bem como à sua recuperação em Minas Gerais, estado decisivo em que, desde o retorno da democracia, quem vence lá vence as eleições.

A abstenção deste domingo, que não chega a 20%, foi a mais baixa em um segundo turno desde 2006. Essa maior mobilização foi fundamental para Lula, já que ocorreu justamente nas regiões do Nordeste, como a Bahia ou seu estado natal, Pernambuco, que no primeiro turno optaram por ficar em casa.

A recuperação também foi possível graças a uma reestruturação da campanha eleitoral e à sua maior presença nas ruas, à mensagem de defesa da democracia e das instituições para conquistar o eleitorado menos ideologizado, e às medidas econômicas das últimas semanas, como o perdão de dívidas para os autônomos, o reajuste dos preços dos combustíveis ou a redução da jornada de trabalho, sem desconsiderar seu bom desempenho nos debates televisionados.

GRANDES DESAFIOS

Mesmo assim, durante o mandato anterior, e apesar de não contar com maioria absoluta, Lula demonstrou sua capacidade de negociar com esses grupos, levando adiante iniciativas importantes, como uma reforma tributária histórica, o aumento do salário mínimo, um novo marco fiscal, mais impostos para os ricos, a redução da jornada de trabalho e a consolidação de programas de assistência, como o emblemático Bolsa Família, com o qual tirou milhões de brasileiros da pobreza.

No entanto, ainda tem pela frente desafios tão importantes quanto algumas dessas conquistas, sobretudo o de elaborar novos orçamentos que conciliem os gastos sociais com a rigorosa disciplina fiscal exigida pelos mercados. Atualmente, o Brasil gasta mais do que arrecada, pelo que resta saber como Lula irá cobrir essa diferença.

Lula renovou seu mandato com a promessa de continuar reforçando a rede de apoio social, incluindo mais aumentos salariais e investindo em saúde e educação; e é nesse cenário que ele deverá, mais uma vez, demonstrar sua habilidade política para convencer um Congresso que exigirá o cumprimento do superávit fiscal, mas negará certas medidas de arrecadação, como o aumento de impostos para os ricos.

A recusa, mais do que previsível, da bancada ruralista aos projetos voltados para a transição ecológica e a proteção da Amazônia; ou ainda a regulamentação das plataformas digitais — onde o bolsonarismo age à vontade —, são alguns desses desafios que o novo governo tem pela frente.

No entanto, a questão da segurança pública voltará a ser um dos maiores desafios do próximo governo. Lula concentrou parte de sua campanha em abordar essa questão, ciente dos grandes ganhos que a direita costuma obter com o problema da insegurança nas ruas.

Sua principal proposta passa por uma reforma constitucional para conferir ao governo central maior peso e capacidade de articular uma resposta coordenada por meio de um sistema único de segurança pública, uma espécie de Ministério do Interior, já que atualmente essa questão é de competência, em grande parte, dos estados.

Da mesma forma, a nova estratégia prevê um maior combate às finanças ilícitas do crime organizado, a modernização e o fortalecimento dos diversos corpos policiais, mas também a construção de novas prisões.

Por tudo isso, a vitória da direita nas eleições legislativas destas eleições gerais e a vitória apertada de Lula reduzem a margem de manobra do futuro governo, além de consolidar os conservadores como um bloco coeso, com ampla capacidade de mobilização cidadã e fiscalização institucional.

FIGURA DA ESQUERDA LATINO-AMERICANA

Se há algo que fica claro nessas eleições é que Lula reforçou sua aura como líder da esquerda na América Latina, em um momento em que todos os países da região, com exceção dos pequenos Uruguai e Guatemala, além do México, se inclinaram para posições conservadoras, de extrema direita e libertárias após a vitória de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, ou de Keiko Fujimori, no Peru, entre outros.

Com sua reeleição, ele se consolida como o único porta-estandarte daquela “onda rosa” que levou ao poder outros líderes progressistas da região, alguns dos quais já faleceram ou caíram em desgraça. Ao contrário de outras lideranças mais confrontadoras, Lula tem demonstrado um pragmatismo que lhe permitiu navegar entre os movimentos que reivindicam melhorias sociais e os grandes poderes econômicos.

Lula se destaca, assim, na região como um contrapeso à direita representada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, em sua política de segurança, já deixou claro seu interesse em retomar com mais ênfase aquele olhar para os países que se estendem ao sul da fronteira como aquele “quintal” que ele criou no passado.

No entanto, na noite de sua vitória, Lula ressaltou que isso é “uma demonstração de que este país não será o quintal de ninguém”, reforçando tanto essa postura do Brasil como ator global capaz de conciliar a defesa de sua soberania com suas relações com outros gigantes, como os Estados Unidos e a Europa, quanto o multilateralismo pelo qual vem defendendo nos últimos anos.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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