MADRID, 30 abr. (EUROPA PRESS) -
Um sistema celular de “limpeza seletiva” de proteínas, denominado autofagia mediada por chaperonas, apresenta atividade reduzida em pacientes com esclerose lateral amiotrófica (ELA), atuando como um “mecanismo-chave” na degeneração dos neurônios motores, conforme revelou uma equipe do Instituto de Neurociências (IN), centro conjunto do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) e da Universidade Miguel Hernández (UMH).
Conforme descrito no trabalho, publicado na revista “Acta Neuropathologica Communications”, esse mecanismo celular ajuda a manter o equilíbrio interno dos neurônios e sua disfunção poderia favorecer o acúmulo de proteínas tóxicas, uma das características da ELA. O estudo aponta esse sistema como um possível alvo terapêutico para frear a progressão da doença.
Os neurônios motores são responsáveis por controlar os movimentos voluntários e involuntários e são especialmente vulneráveis na ELA. Em mais de 90% dos casos, eles acumulam uma proteína chamada TDP-43 fora de sua localização habitual, formando agregados tóxicos.
O organismo possui mecanismos para evitar esse acúmulo, entre eles a autofagia, um sistema de limpeza e reciclagem celular. No entanto, nem todos os tipos de autofagia funcionam da mesma forma. Enquanto a macroautofagia atua como um sistema geral de eliminação de resíduos, a autofagia mediada por chaperonas é altamente seletiva e é responsável pela degradação de proteínas específicas, como a TDP-43.
Os pesquisadores utilizaram tecido da medula espinhal de pacientes incluídos em ensaios clínicos, bem como amostras de controle de doadores sem a doença, para avaliar, por meio de técnicas de imuno-histoquímica e imunofluorescência, a presença de LAMP2A, uma proteína que atua como indicador da atividade da autofagia mediada por chaperonas.
Dessa forma, descobriram que os neurônios motores saudáveis apresentam alta atividade desse sistema, enquanto, em pacientes com ELA, essa atividade está notavelmente reduzida. “Esses dados indicam que a atividade da autofagia mediada por chaperonas está claramente diminuída nos neurônios motores de pacientes com ELA”, afirmou o pesquisador Daniel Garrigós García, primeiro autor do artigo.
O diretor do laboratório de Neurobiologia das doenças mentais, neurodegenerativas e neurooncológicas do IN, Salvador Martínez, destacou que os neurônios motores precisam de “níveis muito elevados” de autofagia mediada por chaperonas para sobreviver e, quando esse mecanismo diminui, como ocorre na ELA, “são precisamente essas células que sofrem primeiro e acabam morrendo”.
NOVAS ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS
Salvador Martínez destacou a necessidade de “identificar mecanismos celulares diretamente envolvidos na sobrevivência dos neurônios para avançar em novas estratégias terapêuticas”.
Este trabalho também mostra que as alterações observadas são específicas da limpeza e reciclagem de proteínas celulares e que apresentam diferenças significativas entre pacientes e controles. “Conseguimos observar esse mecanismo diretamente em tecido humano, algo que não havíamos conseguido em modelos animais”, assinalou Martínez, que destaca que o estudo foi possível graças à doação altruísta de tecido por parte de pacientes e famílias para o avanço da pesquisa sobre ELA.
A partir desses resultados, os pesquisadores sugerem que esse mecanismo poderia se tornar um novo alvo terapêutico e abrir caminho para novas estratégias que permitam retardar a progressão da doença. “Nosso objetivo é tentar modular essa via para aumentar sua atividade”, explicou o professor, que ressaltou que ainda se encontram em fases iniciais de pesquisa.
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