Publicado 09/02/2026 12:46

A grande vitória de Takaichi no Japão: a aposta pessoalista lhe dá um capital político sem precedentes

5 de fevereiro de 2026, Tóquio, Japão: Apoiante do Partido Liberal Democrático visto segurando um cartaz da presidente do partido, Sanae Takaichi, em Ginza, enquanto mobiliza eleitores para as eleições para a Câmara dos Representantes.
Europa Press/Contacto/James Matsumoto

MADRID 9 fev. (EUROPA PRESS) -

O Partido Liberal Democrático (PLD) da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, confirmou as previsões dos dias que antecederam as eleições antecipadas deste domingo, que apontavam para uma grande vitória para sua formação, e contará com uma maioria de dois terços no Parlamento, podendo levar adiante as tão esperadas reformas políticas impulsionadas pela primeira-ministra.

A aposta em convocar estas eleições para aproveitar a sua elevada popularidade, apenas alguns meses depois de se ter tornado a primeira mulher chefe de governo na história do país asiático, saiu-lhe bem ao PLD, que conquistou 316 assentos e contará com o apoio de dois terços dos deputados, o que o torna o melhor resultado eleitoral para um partido desde a Segunda Guerra Mundial.

Isso facilitará um governo sozinho, mas também abre caminho para Takaichi para a reforma constitucional com a qual Tóquio pode pôr fim à sua era pacifista em pleno aumento da tensão na região, tendo em conta o apoio do presidente americano, Donald Trump, que já felicitou a política ultraconservadora, também conhecida como “Dama de Ferro”.

Com essa supermaioria, a formação terá a oportunidade de levar adiante sua agenda política sem quase nenhum obstáculo, deixando de fora os partidos tradicionais da oposição, que sofreram uma derrota, já que a população parece mostrar sua rejeição à falta de projetos políticos significativos. UM CHEQUE EM BRANCO PARA A ECONOMIA

“O cenário que se abre é realmente o de um cheque em branco para aspirar a reformas e introduzir mudanças que não estiveram ao alcance de nenhum de seus antecessores, já que ela conta com dois terços sozinha na Câmara Baixa”, explicou Oriol Farrés, coordenador do Anuário Internacional CIDOB, em declarações à Europa Press.

Esta vitória representa a maior reviravolta impulsionada pelo PLD desde que o falecido ex-primeiro-ministro Shinzo Abe recuperou o controle do governo em 2012 frente ao Partido Democrático. No entanto, agir com demasiada contundência ou rapidez poderia levar a uma diminuição do apoio e contribuir para um fracasso do Executivo num futuro próximo. Neste sentido, Farrés esclarece que a principal preocupação dos eleitores é a economia: “eles não votaram para reformar a Constituição, mas para empreender reformas econômicas”. “Foi o que (Takaichi) afirmou em suas primeiras declarações, nas quais promete uma enxurrada de investimentos e uma reforma fiscal agressiva, com medidas para conter a inflação ou o congelamento do IVA dos alimentos por dois anos”, sustentou.

“Se ele acertar ou não com essas medidas, acredito que ganhará tempo e crédito para empreender aquelas que são mais próprias de sua corrente de pensamento ultranacionalista, mais centrada na defesa do Japão e na autonomia militar que hoje é limitada pela Constituição”, continuou. O COLAPSO DA OPOSIÇÃO

Embora o partido do governo e seus aliados tenham conseguido manter o status quo, formações opositoras como a Aliança Reformista Centrista (CRA), composta pelo Partido Democrático Constitucional do Japão (CDP) e Komeito, sofreram uma derrota esmagadora, obtendo apenas 49 cadeiras dos 226 candidatos em disputa, o que representa uma derrota massiva.

Por outro lado, aproveitando o desejo da população de acabar com as velhas políticas, há duas formações que saíram bem nas eleições: o ultraconservador e populista Sanseito, um partido trumpista e nacionalista, e o Mirai, que aposta na democracia online e foi fundado em 2025 pelo escritor de ficção científica Takahiro Anno. O Sanseito passou de três para quinze cadeiras, enquanto o Mirai contará com nove deputados. Esta formação, que se autodenomina literalmente “Equipe do Futuro”, foi criada no ano passado, pouco antes das controversas eleições para a Câmara Alta — que representaram um duro golpe para o PLD. Na altura, conquistou nove senadores, algo significativo tendo em conta o funcionamento da política japonesa. Agora, este partido parece ter conquistado o apoio dos eleitores que procuram uma mudança entre políticos mais jovens que apostam em novos caminhos afastados da tradicional oposição ao PLD, embora muitos considerem que terá dificuldades em integrar-se totalmente no sistema no futuro.

A CONQUISTA DA MAIORIA ABSOLUTA Quando questionado sobre os fatores-chave para a vitória de Takaichi, Farrés afirmou que ela se deve em grande parte ao “sucesso da política personalista”. “A popularidade dela é muito superior à do seu partido. Nesse aspecto, não é tão diferente de outras democracias e lideranças políticas em que os líderes procuram conectar-se com os eleitores de forma pessoal e direta, através de hobbies, gostos e expressões”, esclareceu. “Isso tem um sucesso especial entre os eleitores jovens, que não são os eleitores tradicionais do PLD, mas que votaram em Takaichi. O que é mais particular no caso japonês é a fragilidade da oposição, que tem dificuldade em se mostrar como uma alternativa credível de governo, como se depreende do fato de que o PLD, em suas múltiplas encarnações, ocupou o governo de forma quase ininterrupta — com raras exceções — desde sua fundação”, acrescentou.

Além disso, o especialista ressalta que a Aliança Reformista Centrista, criada pouco antes das eleições, “não teve tempo suficiente para se apresentar como uma alternativa credível nem para expor suas propostas políticas”. “Além disso, é uma coalizão centrista, reativa à deriva mais para a extrema direita do PLD sob a liderança de Takaichi”.

Por isso, ele fala de um “desastre eleitoral”, uma derrota que será assumida por seus respectivos líderes, com tudo apontando para uma renúncia iminente. “Será aberto um período de transição, que será difícil porque eles perderam muitos assentos e, portanto, possibilidades de levar sua agenda ao Congresso e questionar as políticas de um PLD desenfreado”, acrescentou.

MILITARIZAÇÃO DO JAPÃO A nível regional, espera-se que a vitória de Takaichi gere preocupação na China, que já teve seus desentendimentos com Tóquio e que poderia considerar restrições e medidas de pressão contra o Japão como protesto contra reformas que não serão bem-vindas", apontou, não sem antes sublinhar que os gastos militares "aumentarão".

Essa remilitarização do país e o crescente gasto com defesa têm sido bem vistos por países terceiros, como os Estados Unidos, onde Trump “demonstra boa sintonia”, como afirmou Farrés. “Os Estados Unidos buscam socializar os custos de defesa na Ásia, por isso verão com bons olhos que o Japão dê um passo adiante nessa direção”, acrescentou.

No entanto, essa ideia pode não ser um fator importante para explicar o resultado eleitoral, uma vez que “pode ter mais a ver com a agenda doméstica” e com a Casa Branca, para “mostrar a Trump que o Japão está comprometido com a defesa na Ásia (...) e que o custo da defesa que Washington considera demasiado elevado poderia ser socializado”, declarou. A REFORMA CONSTITUCIONAL

A primeira-ministra do Japão não renuncia, por enquanto, ao seu objetivo de reformar a Constituição, uma questão sobre a qual parece não haver consenso entre a população, mas com a qual ela segue os passos de Abe. Essa reforma pode estar agora ao seu alcance, embora não pareça ser uma prioridade para os eleitores, que teriam que validá-la em um referendo.

Levar adiante essa emenda, que é um ponto de atrito dada a significativa divisão existente na sociedade, tendo em vista que coloca o país à beira do belicismo, poderia jogar contra ela, como enfatiza o CIDOB, por considerar que “exigiria enormes esforços de sua parte e poderia apresentá-la aos eleitores como uma distração das questões que mais lhes importam”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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