O filho do ex-presidente brasileiro sai fortalecido de uma eleição que pode marcar o fim do projeto de Lula, mais de 20 anos depois
Flávio, que conta com o apoio do Senado, busca reformar o Poder Judiciário e tem como alvo o ministro do Supremo Alexandre de Moraes.
MADRID, 5 out. (EUROPA PRESS) -
O candidato por exclusão, Flávio Bolsonaro, já está de olho na Presidência do Brasil após ter vencido neste domingo com 47% dos votos, graças, em grande parte, ao voto oculto de um eleitorado desencantado com o desgaste do projeto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa, incapaz durante a campanha de oferecer alternativas sem recorrer ao passado.
Flávio obteve neste segundo turno resultados melhores do que os de seu pai nas eleições de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que teve de intervir, mesmo correndo o risco de infringir as medidas cautelares, em plena campanha para apoiar seu filho mais velho diante das desavenças com sua madrasta, Michelle, que se tornou a candidata mais votada para o Senado em Brasília.
Somente os problemas judiciais do restante do clã Bolsonaro e a recusa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — que foi reeleito com mais de 60% dos votos, infligindo mais uma derrota ao candidato de Lula, o ministro Fernando Haddad, consolidaram a candidatura do senador pelo Rio de Janeiro, que tem procurado se distanciar do carisma populista do pai, projetando uma imagem de moderação.
“Inicialmente, havia muitos setores dentro do bolsonarismo que preferiam Tarcísio porque o viam como pouco perigoso”, explicou à Europa Press Anna Ayuso, pesquisadora sênior para a América Latina do CIDOB. O motivo, segundo ela, é a rejeição muito alta que o sobrenome Bolsonaro suscita em parte do país.
“A rejeição a Lula e a rejeição a Bolsonaro são quase idênticas, giram em torno de 45%”, e o objetivo era convencer esses 10% de indecisos dos quais acaba dependendo o resultado, aprofundou Ayuso.
No entanto, sua agenda não difere em nada da de seu pai: mão dura contra a criminalidade, leis mais punitivas, desregulamentação, cortes nos serviços públicos, políticas extrativistas em relação ao meio ambiente e alinhamento com as diretrizes de Washington, em sintonia com o novo panorama que se vive na região.
“Tradicionalmente, ele não foi o mais próximo de seu pai. Seus irmãos mais novos eram muito mais próximos ideologicamente. Ele quis se apresentar como moderado, (...) mas, no fundo, suas propostas não diferem muito”, avaliou a pesquisadora.
Ayuso acredita que Flávio Bolsonaro é “menos carismático” que seu pai, mas, por outro lado, é “uma pessoa mais preparada” e, por isso, tem tentado se apresentar como o mais capacitado para dialogar com as diferentes forças políticas que terá de satisfazer, embora parta com a vantagem de contar com um Congresso alinhado.
Caso sua vitória seja confirmada no próximo dia 25 de outubro — já que, desde o retorno da democracia ao Brasil em 1989, o vencedor do primeiro turno sempre repetiu a vitória no segundo —, o novo governo de Bolsonaro terá diante de si um cenário parlamentar muito menos hostil do que aquele que Lula encontrou.
A correlação de forças coloca o Partido Liberal (PL) de Bolsonaro como o mais votado em ambas as câmaras e o influente “centrão” — que, apesar das reminiscências do centro em seu nome, é um bloco inclinado à direita — com presença suficiente para apoiar as medidas de segurança e de liberalização econômica do governo.
A incógnita é se Flávio Bolsonaro vai articular esse apoio do “centrão” distribuindo ministérios, como fez Lula, ou se apostará em retomar o caminho de seu pai, que não se limitava à distribuição de cargos-chave, mas também passava por verbas e orçamentos, o que, na opinião de Ayuso, “de certa forma promove a corrupção”.
RELAÇÃO COM A JUSTIÇA
Se Flávio acabou se tornando o candidato por exclusão, isso se deve em grande parte aos problemas judiciais em que estão envolvidos tanto seu pai quanto seu outro irmão, Eduardo, agora foragido nos Estados Unidos e acusado de se aproveitar daquele país para conseguir a imposição de tarifas e sanções contra autoridades brasileiras.
O principal alvo é o juiz do Supremo Tribunal Federal e responsável pela instrução dos grandes processos contra os Bolsonaro, Alexandre de Moraes, que está envolvido em um caso de suposta corrupção e tráfico de influências — situação que a família agora está aproveitando para promover sua reforma do Poder Judiciário.
Essa reestruturação passa por submeter esse magistrado a um impeachment, reconfigurar o Supremo Tribunal Federal com três novos juízes conservadores, além de outro que substitua De Moraes, graças à sua maioria no Senado, e assim reverter o equilíbrio ideológico, além de estabelecer novos marcos de controle por parte do Poder Legislativo.
Sem esquecer também uma das principais bandeiras de sua campanha: conceder anistia a todos os condenados — mais de 1.400 — por terem participado, de uma forma ou de outra, da violência pós-eleitoral de janeiro de 2023.
“Ele disse isso diretamente: o que vai fazer é conceder anistia a todos os que participaram, não apenas ao pai dele, mas a todos os que foram condenados. Ele disse isso desde o início”, destacou Ayuso, doutora em Direito Internacional Público pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB).
“É verdade que isso pode gerar tensão, pois o pai tomou uma decisão a seu favor nessa disputa que já ocorreu com a madrasta, mas, no fim das contas, o exercício do poder une muito mais do que quando estavam na oposição”, avaliou Ayuso, que destacou o peso significativo do clã na política brasileira.
Além do ex-presidente, e a chegada mais do que previsível de seu primogênito ao Palácio da Alvorada após a eleição decisiva de 25 de outubro, seus filhos Carlos e Jair Renan conquistaram uma cadeira no Senado e na Câmara dos Deputados, respectivamente, assim como seu irmão Renato e sua esposa, Michelle. “Eles já formam um núcleo familiar que imagina como seria se se revezassem no poder”, alertou Ayuso.
PROJEÇÃO INTERNACIONAL
Com a vitória de Flávio Bolsonaro no Brasil, a extrema direita latino-americana acaba por conquistar o grande espaço que ainda lhe restava na região, após os sucessos alcançados nos processos eleitorais dos últimos anos e a queda do chavismo na Venezuela.
Para Ayuso, a principal mudança na política externa do Brasil está no alinhamento mais do que provável com o governo de Donald Trump, principalmente em matéria de segurança e combate ao narcotráfico, o que, no entanto, lhe rendeu certas críticas dentro do movimento conservador.
“Flávio propõe submeter-se à política de segurança dos Estados Unidos, que é hegemônica, intervencionista e militarista na luta contra o tráfico de drogas. Essa é uma mudança muito significativa, pois Lula foi um dos poucos que enfrentou Trump na região”, argumentou a especialista.
Ayuso explicou que essa clara determinação do filho de Bolsonaro em se alinhar com os Estados Unidos também “gerou certo mal-estar” em certos setores, inclusive em vários dos mais conservadores, já que no “Brasil a ideia de independência e soberania é muito forte” e há “muito nacionalismo”.
Um nacionalismo muito presente também em um Ministério das Relações Exteriores “muito profissionalizado”, que, seja quem for o presidente em exercício, sempre parte das premissas de defesa da soberania do Brasil, do multilateralismo e de erguer o país como um ator internacional fundamental, em grande parte devido ao seu peso regional.
“Essa questão de se submeter aos Estados Unidos durante a campanha foi ocultada”, afirmou Ayuso, que prevê, no entanto, uma relação com a China — embora não tão próxima — marcada pelo pragmatismo que obriga o Brasil a não se desentender com seu maior parceiro comercial e a continuar promovendo essa aliança regional que é o Mercosul.
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