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MADRID, 11 abr. (EUROPA PRESS) -
Os Estados Unidos e o Irã se reúnem neste sábado no Paquistão para iniciar um novo processo de negociação que ponha fim às hostilidades e restaure a livre navegação no estreito de Ormuz, em meio a linhas vermelhas mútuas e dúvidas sobre o alcance do cessar-fogo acordado “in extremis” quando expirava o ultimato dado por Donald Trump para destruir a infraestrutura civil iraniana e suas ameaças de “apagar uma civilização”.
Quarenta dias após a guerra iniciada por Washington e Tel Aviv, as negociações em Islamabad voltam a colocar sobre a mesa as divergências entre as partes e trazem à tona as desconfianças mútuas, uma vez que os Estados Unidos e Israel já lançaram um ataque surpresa em meio a várias rodadas de negociações para um acordo nuclear com o Irã no final de fevereiro.
Essas conversas indiretas facilitadas por Omã não produziram resultados e acabaram fracassando com o início da guerra contra Teerã, que já em seu primeiro dia resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei e da cúpula política e militar iraniana.
Agora, seis semanas após a ofensiva, que deixou mais de 3.000 mortos no país da Ásia Central e levou à instabilidade em uma dezena de países do Golfo e do Oriente Médio, Washington busca que as conversas restabeleçam a normalidade no estratégico estreito de Ormuz, palco de tensões devido aos ataques a navios cargueiros e petroleiros em uma rota fundamental para o comércio mundial de petróleo.
A delegação norte-americana é liderada desta vez pelo vice-presidente, JD Vance, que antes de viajar para o Paquistão sinalizou que há “diretrizes claras” de Trump sobre como negociar com Teerã e advertiu a parte iraniana para que não tente “enganar” Washington, com a ameaça velada de que retomará a ofensiva contra a República Islâmica e de que o cessar-fogo acordado com Teerã é uma “trégua frágil”.
Por sua vez, o presidente do Parlamento iraniano, Mohamad Baqer Qalibaf, condicionou o início das negociações ao levantamento das sanções e à extensão da trégua ao Líbano.
LINHAS VERMELHAS DOS EUA E DO IRÃ
De qualquer forma, a mesa de negociações em Islamabad apresenta um equilíbrio muito precário, uma vez que as linhas vermelhas e as condições mútuas dificultam a existência de uma base mínima para avançar nas conversas.
Enquanto os Estados Unidos propõem que Teerã reabra o Estreito de Ormuz e alegam que isso faz parte do cessar-fogo, o Irã ressalta que o primeiro passo de Washington deve ser o levantamento das sanções e a garantia da extensão da trégua ao Líbano, depois que o Exército israelense intensificou a ofensiva contra o país vizinho e o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, se recusa a interromper os ataques, alegando que está em uma campanha contra a milícia xiita do Hezbollah, apesar de aceitar sentar-se para negociar em breve com as autoridades do Líbano.
A esse respeito, Vance minimizou o fato de o Líbano não estar incluído no cessar-fogo, como defende a Casa Branca, e alertou que seria “uma bobagem” que as negociações com o Irã “desmoronassem” devido à continuação das hostilidades em um terceiro país. “Nunca fizemos essa promessa. Nunca demos a entender que seria assim”, ressaltou, apesar de o mediador, o Paquistão, ter feito referência explícita de que o Líbano estava incluído no acordo.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, garantiu que “o Irã e os Estados Unidos, juntamente com seus aliados, concordaram com um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano e os demais locais”, embora a confusão tenha se mantido após essas declarações e haja pouca margem para que Islamabad pressione Israel a interromper os ataques.
Assim, sem um ponto de equilíbrio claro, os Estados Unidos e o Irã continuam demonstrando profundas divergências sobre o tipo de acordo que pode ser alcançado. O presidente norte-americano afirmou que o acordo deve explicitamente prever o fim dos planos nucleares do Irã, incluindo o desmantelamento de suas usinas, a cessação do enriquecimento de urânio e a retirada do material nuclear que ainda se encontra em depósitos subterrâneos em Isfahan.
Em troca, ele oferece o “alívio de tarifas e sanções”. Trump, que nos últimos dias garantiu que as negociações estão no caminho certo, indicou que “muitos” dos 15 pontos apresentados em sua proposta do final de março “já foram acordados”.
Por outro lado, o Irã defende seu direito de manter suas atividades nucleares, que sempre alegou terem fins exclusivamente civis. Assim, o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã (OEAI), Mohamad Eslami, negou que Teerã vá interromper o enriquecimento de urânio apesar das exigências de Washington e destacou que essas “pretensões” de limitar o programa nuclear iraniano são “meros desejos que irão para a sepultura”.
Quanto ao conflito, ele propõe uma solução de longo prazo com a cessação das hostilidades em toda a região, o fim das sanções e um novo protocolo para a passagem pelo Estreito de Ormuz, sobre o qual pede que sua autoridade seja reconhecida.
A ÚLTIMA ADVERTÊNCIA DE TRUMP
Nesse contexto, Trump avisou na tarde da última sexta-feira que retomará os ataques contra o Irã se as iminentes negociações em Islamabad não produzirem resultados concretos em um prazo aproximado de 24 horas, pois neste momento os navios de guerra norte-americanos estão se reabastecendo com “as melhores armas já criadas”, que serão utilizadas se “não houver acordo”.
O presidente norte-americano transmitiu suas ameaças em duas frentes. Primeiro, em declarações ao “New York Post”, Trump garantiu que o Exército dos Estados Unidos está equipando seus navios no Golfo Pérsico “com as melhores armas já fabricadas, inclusive a um nível superior ao que usávamos antes para alcançar uma aniquilação total”.
Pouco depois, já em sua plataforma Truth Social, Trump instou a parte iraniana a reiniciar o diálogo que entrou em colapso com o início, no final de fevereiro, da guerra que ele lançou junto com Israel contra o Irã, mas admitiu que Teerã tem em mãos um trunfo poderoso, que é seu controle sobre o estratégico estreito de Ormuz. “Parece que eles não percebem que não têm cartas para jogar além de uma extorsão global de curto prazo por meio do uso de rotas de trânsito internacionais. A única razão pela qual continuam vivos é para negociar”, acrescentou antes de afirmar que o Irã não se encontra nem remotamente na posição de força que as autoridades iranianas vêm reivindicando há semanas.
De qualquer forma, essa mensagem segue a postura do Pentágono, que sinalizou que o Exército dos Estados Unidos continua mobilizado na região do Oriente Médio e vigia o cumprimento da trégua temporária. “Continuamos presentes, continuamos vigilantes e continuamos preparados caso sejamos solicitados”, argumentou o comandante do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), o almirante Brad Cooper.
Enquanto isso, Teerã redobrou suas ameaças bélicas ao insistir que, se as ameaças e os bombardeios no Líbano continuarem, os contatos diplomáticos “não fazem sentido”. “Nossos dedos permanecem no gatilho”, advertiu o presidente iraniano, Masud Pezeshkian, como mais uma demonstração da desconfiança mútua.
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