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MADRID 21 jul. (EUROPA PRESS) -
Um estudo internacional demonstrou que alguns pacientes submetidos a transplante de fígado podem interromper completamente o tratamento imunossupressor sob supervisão rigorosa, sem aumentar o risco de rejeição nem comprometer a sobrevivência do enxerto.
Os resultados, publicados na revista “Clinical Gastroenterology & Hepatology”, mostram ainda que essa estratégia está associada a uma redução significativa de complicações metabólicas, como hipertensão arterial e diabetes, o que poderia melhorar o prognóstico e a qualidade de vida a longo prazo de pacientes cuidadosamente selecionados.
O trabalho, que contou com um acompanhamento de mais de dez anos, constitui o maior estudo realizado até o momento sobre pacientes com suspensão completa da imunossupressão após um transplante de fígado.
A pesquisa foi liderada por pesquisadores da área de Doenças Hepáticas e Digestivas do CIBER (CIBEREHD), pertencente ao Hospital Universitário Reina Sofía de Córdoba, e contou com a participação de outros grupos do CIBEREHD no Hospital Universitari i Politècnic La Fe de Valência, do Hospital Clínic de Barcelona e da Clínica Universidade de Navarra, em colaboração com 31 centros de transplante de 14 países da Europa, América, Ásia e África.
Segundo os especialistas, a cada ano, o transplante hepático salva a vida de milhares de pessoas. No entanto, os pacientes transplantados devem manter, por tempo indeterminado, um tratamento imunossupressor para evitar a rejeição do órgão. Embora esses medicamentos sejam indispensáveis, seu uso prolongado aumenta o risco de infecções, deterioração da função renal, hipertensão arterial, diabetes, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer — complicações que representam a principal fonte de morbimortalidade a longo prazo.
Ao contrário de outros órgãos sólidos, como o rim, o pulmão ou o coração, o fígado possui características imunológicas únicas que lhe conferem maior capacidade de desenvolver tolerância imunológica. Graças a essa particularidade, diversos ensaios clínicos já haviam demonstrado anteriormente que cerca de 20% dos pacientes selecionados podem interromper a imunossupressão sem desenvolver rejeição, um fenômeno conhecido como tolerância operacional. No entanto, até agora, havia poucos dados sobre a segurança e as consequências dessa estratégia a longo prazo.
MAIS DE UMA DÉCADA DE ACOMPANHAMENTO
O estudo analisou a evolução de 287 pacientes — 223 adultos e 64 crianças — provenientes de 14 países, com acompanhamento superior a dez anos. Quase um terço deles também apresentava biópsias hepáticas realizadas antes da suspensão do tratamento imunossupressor e anos depois, o que permitiu avaliar a evolução histológica do enxerto.
Os resultados mostram que a suspensão completa da imunossupressão continua sendo uma prática excepcional na assistência clínica de rotina — é realizada em menos de 1% dos pacientes transplantados de fígado —, mas pode estar associada a benefícios significativos quando realizada em pacientes cuidadosamente selecionados.
Entre os pacientes adultos, mais da metade apresentou o desaparecimento de doenças metabólicas relacionadas ao tratamento imunossupressor. A prevalência de hipertensão arterial reduziu-se praticamente pela metade e cerca de 60% dos pacientes com diabetes deixaram de apresentar essa doença após a suspensão da medicação. Também foram observadas melhorias significativas nos níveis de colesterol e triglicerídeos. Além disso, nenhum paciente apresentou disfunção do enxerto hepático nem precisou de um retransplante por rejeição.
As biópsias de acompanhamento realizadas anos após a suspensão da imunossupressão frequentemente revelaram inflamação ou fibrose leves, mas esses achados não tiveram impacto sobre a função hepática nem sobre a sobrevida dos pacientes.
“O estudo mostra que a suspensão da imunossupressão é uma estratégia segura em pacientes cuidadosamente selecionados. A sobrevida global cinco anos após a suspensão foi de 93%, sem que nenhum paciente apresentasse perda do enxerto por rejeição. Esses dados reforçam a hipótese de que reduzir a exposição acumulada aos imunossupressores pode diminuir significativamente as complicações crônicas associadas ao transplante hepático”, conclui Manuel L. Rodríguez, coordenador do estudo e pesquisador principal do CIBEREHD no Hospital Universitário Reina Sofía, em Córdoba.
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