CSIC/ JUAN MANUEL CALVO MARTÍN
MADRID, 5 jun. (EUROPA PRESS) -
O consumo de insetos era “esporádico e acidental” na Europa, na Ásia Central e Oriental, enquanto teria sido mais frequente nas regiões tropicais e entre as populações neandertais. Essa é a principal conclusão do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE), centro conjunto do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) e da Universidade Pompeu Fabra (UPF), conforme informado nesta sexta-feira pelo órgão científico nacional.
Para chegar a esse resultado, os autores da pesquisa, publicada na revista “Science Advances”, realizaram análises genômicas para reconstruir o consumo de insetos desde 9.000 até mais de 102.000 anos atrás. Dessa forma, a equipe do IBE analisou 745 amostras de tártaro dentário provenientes de indivíduos com até 33.000 anos de idade.
Segundo o CSIC, o tártaro analisado pelos autores conserva traços de DNA das espécies consumidas regularmente na dieta, o que levou os cientistas a concluir que os humanos modernos do norte da Eurásia não praticavam a entomofagia de forma habitual. Além disso, as espécies de insetos identificadas nas amostras indicam que eram consumidas acidentalmente, por meio do consumo de água ou alimentos contaminados.
Diante disso, a análise realizada em 18 amostras de cálculo dentário neandertal mostra uma presença de DNA de insetos superior à encontrada em humanos anatomicamente modernos. De acordo com o CSIC, essa abundância é comparável à observada em chimpanzés ocidentais, que recorrem à entomofagia como complemento de sua dieta na savana, especialmente durante épocas de seca.
Os autores explicaram que os restos de DNA mais abundantes no tártaro dos neandertais correspondem aos dipterídeos, o grupo de insetos ao qual pertencem moscas e mosquitos. De fato, destaca-se a presença destes últimos. Segundo eles, esses resultados corroboram uma hipótese recente sobre o consumo regular de cadáveres de animais infestados por larvas de mosca.
"A abundância de restos de mosquitos reforça a possibilidade de que os cadáveres de suas presas permanecessem em poças e áreas pantanosas, ambientes ideais nos quais os insetos depositam seus ovos”, explicou Pablo Librado, pesquisador principal do IBE que liderou o estudo.
OS NEANDERTAIS DIGERIAVAM MELHOR OS INSETOS
Além disso, os cientistas estudaram os genes humanos envolvidos na digestão da quitina, um carboidrato complexo (polissacarídeo) que constitui o exoesqueleto dos insetos. Dessa forma, concluíram que os genes da quitinase — enzima presente no estômago que decompõe a quitina — em populações humanas do norte da Eurásia apresentam mutações que conferem menor capacidade de digerir o exoesqueleto dos insetos, uma característica que se manteve nos últimos 9.000 anos, desde o advento da agricultura.
No entanto, eles concluíram que os neandertais possuíam variantes do gene da quitinase que facilitavam a digestão dos insetos. Por sua vez, detectaram variantes genéticas associadas a uma maior expressão dessas enzimas nas populações que habitam zonas próximas ao trópico. Segundo o CSIC, a expressão dessas enzimas diminui gradualmente à medida que as populações se afastam em direção a latitudes mais altas.
“É necessário ingerir grandes quantidades de insetos para compensar o elevado gasto calórico que sua coleta implica. Nos trópicos, há maior disponibilidade de insetos sociais, como cupins e formigas: sua biomassa e diversidade permitem uma exploração sustentável durante todo o ano, o que contribui até mesmo para o controle de pragas”, acrescentou Piñero.
BAIXA DISPONIBILIDADE DE INSETOS LONGE DOS TRÓPICOS
Além dos fatores culturais ou religiosos, a baixa disponibilidade de insetos longe dos trópicos pode ter sido um fator-chave no abandono da entomofagia pelas populações europeias, segundo o especialista. Isso teria levado a uma menor capacidade de digestão do exoesqueleto dos insetos. No entanto, atualmente, o processamento industrial permite aproveitar suas propriedades nutritivas sem a necessidade de digerir esse componente, além de permitir sua produção em massa em fazendas de insetos comestíveis.
Nesse sentido, o grupo de pesquisa em Genômica de Populações Antigas liderado por Librado no IBE estuda o processo de domesticação, utilizando principalmente insetos como espécies-modelo. Para isso, comparam os genomas de espécies de insetos recentemente aprovadas para consumo humano com os de espécimes extraídos de coleções entomológicas.
“Investigamos a evolução da domesticação em animais, o que também pode nos fornecer informações que melhorem a exploração de insetos para consumo, tanto como ração para a pecuária quanto para consumo humano”, concluiu.
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