MADRID 11 jun. (EUROPA PRESS) -
Um estudo do Instituto de Diagnóstico Ambiental e Estudos da Água (IDAEA-CSIC), em colaboração com a Universidade de Florença, demonstrou que diversos aditivos plásticos presentes em embalagens alimentícias comuns podem migrar para o peixe durante o armazenamento doméstico na geladeira e no freezer.
A pesquisa, publicada na revista Environment International, avaliou pela primeira vez essa transferência em condições reais de conservação a frio e constatou que a migração aumenta com o tempo de armazenamento.
O trabalho analisou a migração de ftalatos, ésteres organofosforados, bisfenóis e plastificantes alternativos aos ftalatos a partir de embalagens habitualmente utilizadas para a conservação de peixe fresco.
Trata-se de substâncias químicas utilizadas para conferir flexibilidade, resistência e estabilidade aos plásticos. Entre os materiais estudados pela equipe do IDAEA encontram-se embalagens utilizadas para a conservação de peixe fresco, como bandejas de poliestireno, bandejas compostáveis, filmes e sacos para congelamento. Os experimentos foram realizados com salmão, atum e merluza armazenados em refrigeração (+4 ºC durante 48 horas) e congelamento (-18 ºC durante 30 dias).
“Até agora, a maioria dos estudos avaliava a presença desses contaminantes diretamente no alimento após a compra. Para este trabalho, queríamos nos aproximar de uma situação mais realista e investigar o que ocorre quando o consumidor guarda o peixe em casa por vários dias ou semanas em condições de frio, antes de ser consumido”, explica Maria Vittoria Barbieri, pesquisadora do IDAEA-CSIC e autora principal do estudo.
Além disso, a pesquisadora acrescenta que os trabalhos relacionados à possível migração de aditivos da embalagem para o alimento se concentravam em avaliar o efeito do calor como variável que acelera essa migração; no entanto, não existem estudos que avaliem esse processo em condições de frio".
PRESENÇA DE ADITIVOS DAS 4 FAMÍLIAS QUÍMICAS
Os resultados mostram a presença de aditivos das quatro famílias químicas nas embalagens analisadas, incluindo o bisfenol A, e a migração para o peixe tanto em condições de refrigeração quanto de congelamento. Nesse processo, o tempo de contato com a embalagem destaca-se como um fator que contribui significativamente para a transferência dos aditivos plásticos. Dos 49 contaminantes estudados, observaram-se taxas de migração de até 100% para determinados compostos, como os bisfenóis.
Algumas substâncias, como o adipato de di(2-etilhexilo) (DEHA), utilizado como plastificante alternativo, apresentaram taxas de migração muito elevadas em todos os peixes analisados e até mais de 95% no salmão.
O comportamento dos contaminantes variou de acordo com as características do peixe. Os compostos mais lipofílicos (solúveis em gordura) migraram com maior facilidade para peixes gordurosos, como o salmão, enquanto outros compostos, como alguns bisfenóis, apresentaram maior transferência em espécies com maior teor de água, como a merluza.
Diversos estudos demonstraram que alguns aditivos plásticos apresentam efeitos toxicológicos para a saúde, como desregulação endócrina e potencial carcinogênico.
De fato, nos últimos anos, organismos como a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) revisaram e reduziram os níveis de exposição diária considerados seguros para a população, especialmente para o bisfenol A, reduzindo em 2023 seu índice de segurança em 20.000 vezes — de 4.000 nanogramas por quilograma de peso corporal por dia para 0,2 nanogramas —, refletindo a crescente preocupação com seu impacto na saúde e na segurança alimentar.
O estudo inclui uma avaliação da exposição a esses aditivos por ingestão para adultos, crianças e bebês. Para estimar a quantidade de aditivos plásticos ingerida por cada grupo populacional por meio do consumo de peixe, as pesquisadoras combinaram os dados de concentração de cada substância detectada no peixe com dados oficiais de consumo de peixe fresco na Espanha.
Posteriormente, dividiram o resultado pelo peso corporal médio de cada grupo: 5 kg para bebês de 6 a 12 meses, 12 kg para crianças de 1 a 3 anos e 70 kg para adultos. Dessa forma, obtiveram uma ingestão diária estimada por quilograma de peso corporal para esses três perfis de consumidor. Por fim, o risco foi calculado por meio da comparação com os valores de referência estabelecidos por autoridades internacionais, como a EFSA.
Os resultados indicam que o peixe conservado em embalagens plásticas apresenta níveis de exposição superiores aos do peixe fresco recém-adquirido. As estimativas de risco mais elevadas foram observadas no caso da merluza congelada por 30 dias em bandeja compostável. Por outro lado, os cenários de menor risco foram aqueles em que o peixe foi refrigerado em sacos plásticos.
Em praticamente metade dos cenários analisados, o limite de risco estabelecido foi ultrapassado. Essa ultrapassagem foi determinada principalmente pela presença de bisfenol A, responsável por quase 100% do índice de risco. Por outro lado, a contribuição dos demais contaminantes detectados foi mínima.
“Considerando apenas a exposição por ingestão de peixe, o valor recomendado para o bisfenol A é ultrapassado, mas é preciso levar em conta que os níveis de exposição são ainda maiores se considerarmos também a ingestão dos demais alimentos, bem como a exposição por inalação e por contato dérmico”, aponta a diretora do IDAEA-CSIC e coautora do estudo, Ethel Eljarrat.
O estudo evidencia que as condições reais de armazenamento doméstico deveriam ser mais levadas em conta nas avaliações de segurança alimentar e no projeto de materiais em contato com alimentos, prestando especial atenção a compostos como o bisfenol A e alguns plastificantes alternativos, como o DEHA, que apresentaram altas taxas de transferência para os alimentos.
Além disso, Eljarrat alerta que “é urgente dispor de dados toxicológicos para os novos aditivos que estão sendo introduzidos no mercado, a fim de poder avaliar também seu impacto na saúde”.
Nesse contexto, a União Europeia aprovou em 2024 uma nova regulamentação para restringir progressivamente o uso de bisfenóis, entre eles o bisfenol A, em materiais em contato com alimentos, uma medida que entrou em vigor em janeiro de 2025 e que concede um período de transição de trinta e seis meses para sua aplicação definitiva. As autoras destacam a importância de continuar avançando na substituição desses compostos e na avaliação dos novos compostos alternativos.
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