UNIVERSIDAD FRANCISCO DE VITORIA
MADRID 4 set. (EUROPA PRESS) -
Diferenças biológicas de gênero poderiam explicar por que algumas pessoas superam uma experiência traumática e outras desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático, de acordo com um estudo da Universidade Francisco de Vitória (UFV).
Para analisar essa diferença entre algumas pessoas e outras quando se trata de sofrer transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), a equipe de pesquisadores liderada pelo neurocientista e professor da Universidade Francisco de Vitoria, Fernando Berrendero, usou um modelo experimental validado em neurociência, no qual foi estudada a resposta de ratos machos e fêmeas expostos a um estímulo condicionado.
Alguns animais conseguiram extinguir sua resposta de medo (resilientes), enquanto outros continuaram a reagir como se a ameaça persistisse (suscetíveis). A partir dessa diferença, os pesquisadores analisaram diversas variáveis fisiológicas e detectaram alterações em três sistemas biológicos principais: o sistema de hormônios do estresse, a microbiota intestinal e uma assinatura genética cerebral. Além disso, foram identificadas "diferenças relevantes entre homens e mulheres", com uma proporção maior de mulheres classificadas como suscetíveis ao medo persistente, diz o estudo.
Especificamente, os animais suscetíveis mostraram uma superativação do eixo do hormônio do estresse, com níveis elevados de corticosterona e do hormônio CRH, juntamente com uma expressão mais baixa do receptor NR3C1, que é responsável por conter a resposta ao estresse depois que o perigo passa. Isso indica um sistema incapaz de "desligar o alarme" do medo, ressalta o especialista.
Por outro lado, os camundongos resilientes apresentaram uma microbiota intestinal mais diversificada e rica em bactérias anti-inflamatórias, enquanto os camundongos suscetíveis tinham um ecossistema bacteriano mais pobre com um possível perfil pró-inflamatório. "A relação entre a microbiota e as emoções não é mais uma hipótese: nossos dados reforçam que a microbiota intestinal pode modular o medo", explicam os autores.
Por fim, a análise genética também revelou 31 genes com atividade alterada na amígdala, uma região cerebral "chave" na regulação do medo. Desses, 14 estão relacionados a distúrbios como ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático, o que abre a porta para novos biomarcadores de vulnerabilidade, dizem os pesquisadores.
"Esses resultados reforçam a necessidade de incluir a variável sexo em estudos pré-clínicos. Durante décadas, os modelos neurocientíficos foram baseados quase que exclusivamente em homens, o que limita nossa compreensão das principais diferenças biológicas", diz Berrendero. Ele também enfatiza que, embora esse seja um modelo animal, suas descobertas abrem novos caminhos para o desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico e terapias personalizadas em humanos.
Por fim, Berrendero conclui que o medo "é universal, mas a maneira como ele é processado e superado depende de fatores biológicos que estamos apenas começando a compreender. Compreender essa variabilidade é essencial para avançar em direção a tratamentos mais eficazes e personalizados.
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