MADRID 14 abr. (EUROPA PRESS) -
Os dois hemisférios do hipocampo estão conectados por um circuito cerebral para coordenar a memória espacial, de acordo com um estudo realizado em ratos e liderado pelo Instituto de Neurociências (IN), centro misto do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) e da Universidade Miguel Hernández de Elche (UMH).
Este trabalho, publicado na revista 'Cell Reports', descreveu pela primeira vez uma conexão entre os dois hemisférios em ratos, na qual os neurônios da região CA1 do hemisfério direito enviam projeções para a parte mais inferior (subículo) da formação hipocampal no hemisfério esquerdo. Esses resultados demonstram que essa comunicação é necessária para se orientar e lembrar de locais. Nesse sentido, o hipocampo é uma das principais regiões do cérebro, “diretamente relacionada” ao funcionamento da memória e das emoções.
O cérebro está dividido em dois hemisférios que processam a informação de forma parcialmente especializada, mas precisam se coordenar constantemente. As conexões específicas que permitem essa comunicação em regiões envolvidas na memória, como o hipocampo, “são em grande parte desconhecidas”.
UMA VIA NECESSÁRIA PARA FUNÇÕES COGNITIVAS FUNDAMENTAIS
O pesquisador principal do estudo e diretor do laboratório de Cognição e Interações Sociais do Instituto de Neurociências, Félix Leroy, declarou que sabiam que essa região era “fundamental” para a memória, mas não compreendiam como os dois hemisférios se comunicavam. Por isso, com este trabalho, identificaram uma via específica e demonstraram que ela é “necessária” para funções cognitivas fundamentais.
Para realizar essa descoberta, os pesquisadores utilizaram técnicas de mapeamento neuronal que permitem acompanhar o percurso das conexões entre neurônios, bem como ferramentas optogenéticas, que permitem controlar a atividade de neurônios específicos por meio da luz. Dessa forma, eles conseguiram bloquear seletivamente essa conexão em camundongos e observar seus efeitos no comportamento.
A primeira autora do estudo, Noelia Sofía de León Reyes, destacou que esse circuito atua como “uma ponte” entre as duas regiões e permite integrar as informações necessárias para nos orientarmos e lembrarmos onde as coisas estão.
Como o estudo demonstrou, quando a comunicação entre os hemisférios é interrompida, os ratos apresentam “dificuldades para lembrar” a localização de objetos e para tomar decisões em tarefas que exigem memória espacial. Mesmo assim, outras ações, como a ansiedade ou o reconhecimento de objetos, “permanecem intactas”. “Isso nos indica que essa conexão não é apenas estrutural, mas tem uma função muito específica na memória espacial”, acrescentou Leroy.
A equipe também estudou essa conexão em um modelo de camundongo com uma alteração genética equivalente à deleção 22q11.2, uma condição humana que aumenta significativamente o risco de desenvolver esquizofrenia e outros transtornos neuropsiquiátricos. Nesses animais, os pesquisadores observaram tanto déficits na memória espacial quanto uma redução das conexões entre os hemisférios no hipocampo. Além disso, os machos apresentaram déficits mais pronunciados em alguns testes.
“Observamos que, quando esse circuito está alterado, a capacidade de orientação e de memória também fica comprometida. Isso sugere que a desconexão entre os hemisférios poderia contribuir para os problemas cognitivos em transtornos psiquiátricos”, explicou De León Reyes.
Nesse contexto, os resultados trouxeram uma nova peça para entender como o cérebro integra as informações entre os hemisférios e como sua alteração pode levar a déficits cognitivos.
TRANSFERIR ESTA DESCOBERTA PARA OS SERES HUMANOS
Os autores, por sua vez, apontaram que essa descoberta poderia ter implicações de longo prazo no âmbito clínico, já que essas conexões poderiam ser estudadas em seres humanos por meio de técnicas de neuroimagem, como a tractografia, combinadas com testes cognitivos.
“A longo prazo, isso poderia contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias para detectar alterações cerebrais associadas a transtornos como a esquizofrenia”, observou Leroy.
O trabalho combina diferentes abordagens experimentais em ratos para identificar e analisar esse circuito cerebral. O estudo contou com a colaboração do laboratório de Marta Nieto, do Centro Nacional de Biotecnologia (CNB-CSIC); de Joseph A. Gogos, da Universidade de Columbia (Estados Unidos); e da especialista do IN-CSIC-UMH, Cristina García Frigola.
Além disso, foi possível graças ao financiamento do Programa Severo Ochoa para Centros de Excelência da Agência Estatal de Pesquisa – Ministério da Ciência, Inovação e Universidades, da Generalitat Valenciana, da Fundação 'la Caixa', da Fundação Severo Ochoa e do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH).
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático