MADRID 23 jul. (EUROPA PRESS) -
Uma equipe internacional, com a participação do Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN-CSIC), descobriu que os ursos-pardos (Ursus arctos) são capazes de “mentir”, após monitorar 164 exemplares na cordilheira cantábrica por meio de 117.000 horas de gravações com câmeras de fototrap.
Os resultados, publicados no Journal of Mammalogy, demonstraram que sete dos ursos observados foram capazes de manipular os sinais que utilizam para se comunicar, com o objetivo de parecerem maiores do que seu tamanho real permitia.
“Embora se trate de um comportamento excepcional, é a primeira vez que ele é documentado em ursos, o que demonstra que sua comunicação é mais complexa do que se pensava”, destaca o pesquisador do MNCN, Vincenzo Penteriani.
A comunicação animal baseia-se em sinais que transmitem informações confiáveis sobre a identidade, o sexo, a idade ou a capacidade competitiva de um indivíduo.
No caso do urso-pardo, a altura em que deixam marcas visuais e olfativas parece ser um indicador do tamanho corporal e, portanto, de sua força ou de seu papel dominante. Esse é um tipo de informação que, até agora, era considerada impossível de falsificar.
No entanto, este novo estudo permitiu comprovar que pouco menos de 5% dos mais de 100 exemplares observados realmente o fizeram. “Nossos resultados indicam que a comunicação nessa espécie não é totalmente honesta nem totalmente desonesta, mas sim um equilíbrio dinâmico entre emissores e receptores que evolui constantemente”, explica Penteriani.
Para investigar esse comportamento, a equipe monitorou 164 ursos diferentes, que foram filmados em 14 pontos de marcação na Cordilheira Cantábrica entre os anos de 2021 e 2024.
Foram instaladas plataformas junto a árvores e postes habitualmente utilizados para o marcamento, com o objetivo de verificar se os ursos aproveitavam essas estruturas para deixar sinais a uma altura superior à que alcançariam naturalmente.
Após analisar as mais de 117.000 horas de gravação obtidas, os resultados mostraram que sete machos adultos e jovens, 4,3% do total, realizaram marcações exageradas, seja utilizando as plataformas, seja escalando para deixar sinais químicos (odor que exalam ao se esfregarem) e visuais mais altos do que sua estatura real lhes permitia.
Os autores destacam registros como o observado em 2021 em um dos pontos de marcação. Os ursos-pardos costumam deixar suas marcas na altura máxima que alcançam quando se erguem sobre as patas traseiras, cerca de dois metros de altura.
No entanto, os pesquisadores observaram um sinal visual a três metros de altura, uma elevação inatingível para qualquer exemplar apoiado no solo. A descoberta de um galho quebrado logo abaixo da marca sugere que o animal subiu para fazê-la.
“Para um macho não dominante ou um indivíduo jovem, essa estratégia poderia oferecer vantagens, pois, ao parecerem maiores, eles poderiam dissuadir rivais mais fortes, reduzindo a probabilidade de um confronto direto, evitando o custo que isso pode acarretar e até mesmo aumentando suas oportunidades reprodutivas. É uma estratégia que lembra casos de engano descritos em outros mamíferos, mas que até agora nunca havia sido documentada em ursos”, destaca o pesquisador.
MANTER A CONFIABILIDADE DO SISTEMA DE COMUNICAÇÃO
Os dados coletados demonstram que os enganos não eram a regra, mas sim um comportamento extremamente raro, concentrado em áreas específicas.
“Essa baixa frequência poderia explicar por que o sistema geral de comunicação continua sendo confiável. Se a maioria dos sinais corresponde à realidade de cada indivíduo, os receptores podem continuar confiando neles, de modo que a mentira pode trazer uma vantagem”, reflete o pesquisador do MNCN.
O trabalho traz evidências empíricas para um debate clássico da biologia evolutiva que poderia se estender à nossa própria sociedade: como se mantém a estabilidade dos sistemas de comunicação quando existe a possibilidade de enganar?
As teorias evolutivas prevêem que sinais desonestos podem persistir desde que sejam pouco frequentes e não comprometam a utilidade global do sistema. Ao que parece, nos ursos-pardos, essa teoria se aplica.
Os autores destacam que, embora o estudo demonstre a capacidade dos ursos de manipular a altura em que deixam as marcas químicas e visuais, os resultados devem ser interpretados como um indício de um comportamento nunca antes observado nessa espécie, e não como uma prova definitiva de uma comunicação desonesta.
“Nosso trabalho destaca uma capacidade comportamental fascinante nos ursos, o que justifica a realização de mais estudos observacionais e experimentais”, conclui Penteriani.
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