Publicado 07/04/2026 07:54

Estão analisando as causas de morte da fauna de Orce para compreender o impacto dos primeiros humanos na Europa

Infografia de Orce: o impacto dos primeiros europeus na fauna.
UNIVERSIDAD DE GRANADA

GRANADA 7 abr. (EUROPA PRESS) -

Uma equipe científica internacional analisou os padrões de mortalidade da fauna fóssil dos sítios arqueológicos de Orce (Granada) para contrastar as interpretações existentes sobre como esses locais se formaram e qual foi o papel dos primeiros habitantes da Europa neles.

Apesar das limitações inerentes à metodologia, o estudo abre novas perspectivas sobre a complexidade do comportamento animal e, especialmente, sobre o impacto da presença humana nos ecossistemas do Pleistoceno Inferior.

Os padrões de mortalidade observados nos sítios arqueológicos de Barranco León e Fuente Nueva-3 diferem dos documentados em Venta Micena. Segundo os autores, essa diferença poderia estar relacionada à atividade antropica, o que sugeriria que a chegada dos primeiros humanos modificou os cenários ecológicos e as dinâmicas entre as espécies.

Essa hipótese será um dos eixos a serem investigados nos próximos anos por meio da combinação de diversas disciplinas científicas.

EM DETALHE

O estudo, publicado recentemente na revista Historical Biology, foi liderado por Darío Herranz Rodrigo, do Departamento de Pré-história e Arqueologia da UGR, e conta com a participação de pesquisadores das universidades de Granada, Complutense de Madrid, Rovira i Virgili e Helsinque.

Os padrões de mortalidade são um método de estudo que surgiu com um objetivo bioecológico: determinar as causas de morte em populações animais. Inicialmente, estabeleceu-se uma distinção fundamental entre dois tipos de mortalidade.

Por um lado, a mortalidade normal, que afeta seletivamente os indivíduos mais vulneráveis de um grupo, como filhotes ou animais idosos, e que é causada por doenças ou predação.

Por outro lado, a mortalidade catastrófica, provocada por um evento pontual e generalizado (uma inundação, uma erupção vulcânica ou uma fome), que afeta igualmente todos os indivíduos de uma população, sem distinção de idade.

Com o tempo, essa metodologia foi transferida para o estudo do registro fóssil, a fim de tentar compreender as causas da extinção e os eventos que cercaram a morte das comunidades animais do passado.

Sua aplicação tornou-se uma ferramenta fundamental da arqueologia para validar ou questionar as hipóteses sobre a formação dos sítios arqueológicos.

Nas últimas cinco décadas, a análise desses padrões foi aperfeiçoada graças ao trabalho de pesquisadoras como Mary Stiner ou Teresa Steele, incorporando ferramentas visuais como histogramas e diagramas ternários, que facilitam a interpretação dos dados para especialistas em zooarqueologia e tafonomia.

VENTA MICENA E A ATIVIDADE DOS CARNÍVOROS

A equipe do ProjetORCE-UGR, integrada ao grupo de pesquisa CUATE (Quaternário e Evolução Humana na África e no sul da Península Ibérica), aplicou essa perspectiva revisada aos dados publicados dos quatro principais sítios arqueológicos de Orcera.

Os pesquisadores alertam, no entanto, para a necessidade de lidar com esses padrões com cautela, uma vez que podem estar distorcidos pelos complexos processos geológicos que moldaram os sítios e que afetam de maneira desigual os restos de diferentes idades e espécies.

Por isso, eles ressaltam a importância de integrar essa análise em uma abordagem interdisciplinar, partindo do princípio de que o registro arqueológico oferece apenas uma visão parcial dos eventos ocorridos há mais de um milhão de anos.

No caso de Venta Micena 3 (VM3), os dados analisados reforçam a hipótese de que este sítio funcionou como um covil da hiena gigante de focinho curto (Pachycrocuta brevirostris).

No entanto, os pesquisadores apontam um contraste significativo entre os perfis de mortalidade dos herbívoros de VM3 e aqueles gerados pela hiena-malhada atual (Crocuta crocuta), de hábitos mais caçadores.

Essa diferença poderia ser explicada pelos diferentes padrões de comportamento — que incluem as estratégias de alimentação — de ambas as espécies de hienídeos.

Por sua vez, a análise de Venta Micena 4 (VM4) aponta para um cenário diferente. Os padrões de mortalidade estão alinhados com interpretações anteriores que sugerem um ambiente de atividades variadas, provavelmente ligadas à presença de canídeos como os ancestrais dos lobos (Canis mosbachensis) ou os licaões (Xenocyon lycaonoides).

Pesquisas anteriores da equipe já indicavam que Venta Micena 4 poderia ter sido uma das margens dos antigos pântanos de Orce, um ponto de água frequentado por hipopótamos, mamutes, rinocerontes, veados, cavalos e bovídeos, o que, por sua vez, atraía os carnívoros que encontravam ali oportunidades tanto para caçar quanto para se alimentar de carniça.

Quanto aos sítios de Barranco León e Fuente Nueva-3, os pesquisadores são mais cautelosos em suas conclusões devido ao menor número de restos fósseis recuperados, o que reduz sua representatividade estatística.

Em Barranco León, onde os equídeos são a família animal mais abundante, a interpretação das causas de sua morte poderia estar em um evento catastrófico, na ação de um carnívoro especializado na caça de indivíduos adultos ou em uma distorção do registro fóssil causada por processos que estejam favorecendo a preservação dos restos de equídeos adultos (viés tafonômico).

Entre os possíveis agentes, os autores levantam a hipótese da participação de grandes felinos, hienas ou até mesmo dos próprios grupos humanos.

Os dados de Fuente Nueva-3, um sítio conhecido pela presença abundante de megafauna, mostram semelhanças com Barranco León no que diz respeito à fauna de porte médio, como cavalos, veados e bovídeos.

No entanto, a interpretação definitiva de ambos os sítios aguarda futuras descobertas que permitam aumentar a amostra fóssil e obter resultados mais sólidos.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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