MADRID, 14 ago. (EUROPA PRESS) -
Uma seca que durou 13 anos e várias outras, cada uma com duração de mais de três anos, podem ter contribuído para o colapso do período clássico da civilização maia.
Uma análise detalhada dos isótopos de oxigênio em uma estalagmite de uma caverna mexicana permitiu que uma equipe de pesquisadores, liderada pela Universidade de Cambridge, determinasse os níveis de precipitação para as estações úmidas e secas individuais entre 871 e 1021 d.C., o que coincide com o período Clássico Terminal da civilização maia. Os resultados foram publicados na revista Science Advances.
Essa é a primeira vez que é possível isolar as condições de precipitação para estações úmidas e secas individuais durante o Terminal Classic, o período de declínio social historicamente conhecido como o colapso maia.
Durante o Clássico Terminal, as cidades de calcário do sul dos maias foram abandonadas e as dinastias chegaram ao fim, à medida que uma das grandes civilizações do mundo antigo se deslocava para o norte e perdia grande parte de seu poder político e econômico.
Os dados contidos na estalagmite, de uma caverna em Yucatan, mostraram que houve oito secas durante a estação chuvosa com duração de pelo menos três anos durante esse período, sendo que a seca mais longa durou 13 anos consecutivos.
Esses dados climáticos são consistentes com as evidências históricas e arqueológicas existentes: a construção de monumentos e a atividade política em vários locais importantes do norte da cultura maia, incluindo a famosa cidade de Chichén Itzá, foram interrompidas em momentos diferentes durante esse período de estresse climático.
CRONOLOGIA DETALHADA
As secas datadas com precisão e exatidão fornecem uma nova estrutura para a análise detalhada da cronologia e da dinâmica das interações entre o homem e o clima na região.
"Esse período da história maia tem sido uma fonte de fascínio há séculos", disse o autor principal, Dr. Daniel H. James, que conduziu a pesquisa enquanto era estudante de doutorado no Departamento de Ciências da Terra em Cambridge, em um comunicado.
Houve várias teorias sobre as causas do colapso, como mudanças nas rotas comerciais, guerras ou secas severas, com base em evidências arqueológicas deixadas pelos maias. Porém, nas últimas décadas, começamos a aprender muito sobre o que aconteceu com os maias e por quê, combinando dados arqueológicos com evidências climáticas quantificáveis.
A partir da década de 1990, os pesquisadores começaram a combinar os registros climáticos com aqueles deixados pelos maias, como as datas registradas em monumentos importantes, para mostrar que uma série de secas durante o Terminal Clássico provavelmente contribuiu para a grande reviravolta sociopolítica na sociedade maia.
Agora, James e seus coautores do Reino Unido, dos Estados Unidos e do México usaram impressões digitais químicas contidas em estalagmites de uma caverna no norte de Yucatán para dar mais ênfase a essas secas.
As estalagmites se formam quando a água escorre do teto de uma caverna e os minerais que ela contém se acumulam no chão da caverna. Ao datar e analisar as camadas de isótopos de oxigênio dentro da estalagmite, os pesquisadores extraíram informações muito detalhadas sobre o clima no período Clássico Terminal.
Pesquisas anteriores mediram isótopos de oxigênio contidos em sedimentos de lagos para determinar a gravidade da seca, mas esses sedimentos não contêm detalhes suficientes para identificar as condições climáticas de um determinado ano em um local específico.
"Não foi possível comparar diretamente a história de locais maias individuais com o que sabíamos anteriormente sobre o registro climático", disse James, que atualmente é pesquisador de pós-doutorado na University College London (UCL).
"Os sedimentos do lago são excelentes para se ter uma visão geral, mas as estalagmites nos permitem acessar os detalhes mais finos que estavam faltando."
Pesquisas anteriores sobre estalagmites determinaram as quantidades médias anuais de precipitação durante o Terminal Clássico, mas a equipe liderada por Cambridge agora conseguiu ir além e isolar informações de estações úmidas e secas individuais, graças às camadas anuais relativamente espessas (de cerca de 1 mm) na estalagmite usada neste estudo. Os isótopos específicos de oxigênio em cada camada são um indicador de seca na estação chuvosa.
"Conhecer a precipitação média anual não revela tanto quanto saber como era cada estação chuvosa", disse James. "A capacidade de isolar a estação chuvosa nos permite rastrear com precisão a duração da seca, que é o que determina o sucesso ou o fracasso da colheita."
OITO SECAS DE PELO MENOS TRÊS ANOS
De acordo com as informações contidas na estalagmite, houve oito secas na estação chuvosa com duração de pelo menos três anos entre 871 e 1021 d.C. A seca mais longa do período durou 13 anos. Mesmo com as técnicas de gerenciamento de água que os maias possuíam, uma seca tão prolongada teria causado um grande impacto na sociedade.
As informações climáticas contidas na estalagmite correspondem às datas inscritas pelos maias em seus monumentos. Durante períodos de seca prolongada e severa, as inscrições de datas em locais como Chichén Itzá deixaram de aparecer completamente.
"Isso não significa necessariamente que os maias abandonaram Chichén Itzá durante esses períodos de seca severa, mas é provável que eles tivessem preocupações mais imediatas do que a construção de monumentos, como, por exemplo, se as colheitas das quais dependiam iriam prosperar ou não", disse James.
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