Publicado 04/10/2025 03:59

A escolha de Nova York como sede das Nações Unidas, entre interesses políticos e geográficos

Archivo - Arquivo - 9 de setembro de 2024, Nova York, Nova York, EUA: Foto do edifício inteiro da sede das Nações Unidas a partir da 1ª avenida com reflexo do sol no final da tarde e silhueta de um motociclista na 1ª avenida.
Europa Press/Contacto/Bianca Otero - Arquivo

Uma doação de Rockefeller finalmente decidiu sobre o local atual da sede, para o qual outras cidades foram consideradas.

A ONU, que já tem escritórios em outras partes do mundo, nunca considerou seriamente uma mudança de local para suas principais agências.

MADRID, 4 out. (EUROPA PRESS) -

Nova York tem sido a sede das Nações Unidas desde os primórdios de uma organização que completará oito décadas em 2025. As críticas dos Estados Unidos ao trabalho da ONU e as restrições impostas às delegações estrangeiras, no entanto, reavivaram o debate sobre a conveniência de manter um acordo que originalmente entrelaçava critérios geográficos e políticos, e até mesmo um cheque do magnata do petróleo John D. Rockefeller.

O Congresso dos EUA tomou a iniciativa, em dezembro de 1945, de convidar a incipiente Organização das Nações Unidas a estabelecer sua sede nos Estados Unidos. O mundo do pós-guerra ainda estava sendo definido, mas os Estados Unidos já queriam afirmar seu status de superpotência contra o bloco soviético.

Assim, na primeira sessão da Assembleia Geral em Londres, em 1946, com os 51 estados fundadores da ONU, foi discutido o estabelecimento de uma sede permanente da ONU. Os cerca de cinquenta países concordaram em estabelecer essa sede nos Estados Unidos e, embora a Costa Leste e, em particular, a área de Nova York, já estivesse sendo visada desde o início, nada ainda havia sido finalizado.

Depois de várias contestações, em novembro de 1946, vários membros pediram ao comitê criado "ex profeso" para estabelecer a sede que acelerasse o processo e se limitasse a estudar Nova York, São Francisco, Filadélfia e Boston como opções definitivas. Os especialistas acabaram visitando um total de nove locais para examinar os prós e contras e identificaram dois locais em São Francisco e na Filadélfia como os mais adequados.

Não houve consenso, e o apoio foi motivado, entre outras coisas, por interesses geográficos, com a maioria dos países europeus se opondo, por exemplo, a um possível local na costa oeste dos Estados Unidos por motivos de distância. A União Soviética, que desde o início defendia Nova York, também aceitou a Filadélfia como um meio-termo, desde que São Francisco fosse excluído da equação.

O governo dos EUA, que chegou a oferecer um local isento de impostos no distrito de Presidio, em São Francisco, mais tarde optou por localizar a sede da ONU na costa do Atlântico, entre outros motivos, devido à sua proximidade com a Europa.

Finalmente, em dezembro, o comitê apresentou outro conjunto de propostas - Filadélfia, Boston e Nova York - todas no leste dos Estados Unidos, mas foi também nesse estágio tardio que uma proposta de doação de US$ 8,5 milhões do magnata do petróleo John D. Rockefeller entrou em cena. O dinheiro estava sujeito a certas condições, incluindo a compra de uma propriedade no bairro de Manhattan, em Nova York, e que a doação seria isenta de impostos.

Um subcomitê visitou o local proposto, uma área predominantemente industrial, e concluiu que era "excelente" para uma sede mais vertical do que o previsto originalmente. Os estados-membros da ONU validaram tanto a doação quanto a aquisição do terreno para a construção do que ainda hoje é a sede principal da organização internacional.

As obras começaram em outubro de 1949 e o projeto inicial foi estimado em US$ 85 milhões, embora esse valor tenha sido reduzido em cerca de US$ 20 milhões por solicitação expressa do Secretário Geral, o que significou que alguns dos edifícios tiveram que ser reprojetados. O financiamento veio de um empréstimo sem juros de US$ 65 milhões do governo dos EUA, e o último pagamento de US$ 1 milhão foi feito em 1982.

ACORDO DE SEDE

O estabelecimento da sede da ONU nos Estados Unidos também levou os dois lados a assinar um acordo específico em 1947 para determinar os detalhes, com o objetivo, entre outras coisas, de delimitar a margem de manobra que as autoridades americanas teriam em relação às atividades e ao funcionamento diário das Nações Unidas. Isso criou uma espécie de limbo diplomático em solo americano.

A ONU recebeu um "distrito" específico, dentro do qual teria liberdade para emitir suas próprias comunicações e frequências, e até mesmo um campo de aviação ou serviço postal, se julgasse necessário. O distrito deveria estar "sob o controle e a autoridade das Nações Unidas", a menos que houvesse algum outro acordo específico entre as partes, de acordo com o documento assinado por Trygve Lie como Secretário-Geral da ONU e George Marshall como Secretário de Estado dos EUA.

"O distrito da sede deve ser inviolável", diz o texto, que também estabelece limites à capacidade do governo dos EUA de discriminar quem pode entrar nele. De fato, no papel, eles não podem colocar "qualquer impedimento ao trânsito para dentro ou para fora do distrito" e, se for necessário que as pessoas recebam vistos para entrar nos EUA, as autoridades devem concedê-los "sem custo e tão rapidamente quanto possível".

É POSSÍVEL TROCAR O ASSENTO?

A Seção 23 do acordo afirma que nem os Estados Unidos nem qualquer outro país tem o poder de mudar a sede "a menos que as Nações Unidas assim o decidam", uma alusão ambígua que não estipula especificamente o órgão ou as maiorias necessárias para realizar uma mudança hipotética que, pelo menos por quase 80 anos, nunca foi seriamente debatida.

A ONU já tem agências em outras grandes cidades do mundo, como Roma, Paris e Genebra, sendo esta última a sede do Conselho de Direitos Humanos. Tecnicamente, não há nada que impeça a ONU de mudar sua sede, mas fontes da Secretaria Geral lembram à Europa Press que "isso nunca foi tentado".

Os países fundadores não contemplaram essa possibilidade quando começaram a construir a arquitetura da organização, nem foi feito nenhum trabalho sério sobre o assunto, além das declarações de alguns líderes e governos que defendem a transferência dos principais centros de tomada de decisões para fora dos Estados Unidos.

Parece claro que qualquer debate a esse respeito exige uma série de consensos, por exemplo, com maiorias qualificadas na Assembleia Geral e a previsível aprovação dos cinco países que têm direito de veto no Conselho de Segurança. A decisão, acrescentam as fontes, "estaria nas mãos dos Estados membros".

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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